INQUIETAÇÃO
Hoje sinto uma inesperada calma
até os arbustos estranham
este vento sem alma...
O futuro desperta os anos
que esperamos inquietos,
já são tantos os desenganos
contra os pensamentos certos!
E as limitações de amor
que rasgam a nossa dor?
Estou na primavera da vida...
no horizonte vejo a miragem
- uma donzela de tons jasmim,
coberta de pétalas, também...
no meio do verdejante jardim
acordo no colo de alguém!
Nacala, Agosto de 1966
DESLIZES
Os pássaros voaram pela janela,
arrumei a minha vida perto dela.
Na sensualidade consentida
desço até à escuridão
os dedos tilintam na avenida,
entre as coxas tenho a mão
beijo-te e dás um lascivo grito!
desejo que desliza até que apito,
rosnando na avenida o caralho,
avança, qual pirata no assalto...
sinto as vertigens do orvalho
com suspiros brejeiros aos molhos,
deixas-me subir bem mais alto
e beber o amor nos teus olhos!

SUCO ARDENTE
Apetece-me atiçar a magia para ver o que está dentro das blusas de pintinhas azuis e tocar na pelugem do brinquedo que as moças escondem dentro da cueca. Imagino-me como quem pesca pérolas dentro duma lagoa translúcida e perde o espírito do génio da lâmpada que não tem fogo; então começo a ficar arrogante e com o lápis afoito para desenhar a mó do moinho da lubricidade, mas perde-se a força do vento e a mó afasta-se desdenhosa.

Neste sonho de vertigem
sinto o teu corpo carente
selvagem como a fuligem
sedento como uma esponja
na lubricidade do que sente
e doce como as cerejas maduras;
Os lábios vibrantemente febris
colados como duas armaduras
na minha boca de intenso ardor,
afinam os gestos mais subtis
sintonia dos corpos em amor!
Afago os teus seios palpitantes
que se empertigam mimosos
quando neles debico o suco ardente
e delicio os meus dedos sedosos
até à fronteira húmida e quente.
percorro o teu corpo pelos quadris
como uma corrente electrizante
e logo acendes a luz no esplendor
do teu enlevo reconfortante;
fundem-se pensamentos e sentidos
num orgasmo longo e relaxante...
os corpos no leito estendidos,
saboreiam a dádiva aos molhos
que brota dos lábios rosados;
silencia-se o brilho dos teus olhos
enquanto levemente fechados;
mas vejo que a lenta escuridão,
que se abate sobre a cidade,
alimenta em nós uma ilusão
perturbadora desta felicidade!
O confronto com a realidade
ainda apoquenta as noites de luar,
porque falta solidez e verdade,
quando a dúvida nos pode afastar!
ÊXTASE
Desdobro-me melancólico...
enquanto passeias teus dedos
leves como arminho sedoso
nas minhas costas nuas;
teus olhos desejosos de abraçar
a extravagância que se expõe
nestas incríveis posições dos corpos
alimento impúdico a saciar
o fluxo energético das palpitações
que correm nas nossas cabeças.
Ofegante, respirando desejos
no esplendor do jardim lúbrico,
aterro nas entranhas sôfregas
sem olhar as estrelas soltas
onde se alimenta este rio,
ambição estonteante do amor,
sinto as lufadas de ar fresco
e nas costas nuas tenho frio.
És a mágica sereia fecundada
nas profundezas do mar sereno,
onde as subtilezas do amor
temperam melhor o grato sabor.
Beira, Outubro de 1966

TEMPO DOS DIAS
Hoje, que o dia me alegra,
filomena de olhos cintilantes,
estejas tu onde estiveres
jamais eu posso esquecer,
os tempos de ternos amantes,
servos duma discreta paixão,
sorvendo a frescura do cajueiro,
entrando em meu coração
com esse teu ar brejeiro,
punhas as dores distantes..
Macuti, Março de 1967
IMPÚDICOS
Aqui estou à procura do incentivo que anime os nossos corações, porque a saudade também é dor e a ausência nesta terra longínqua mais me faz lembrar dos teus carinhos. Bem preciso de força para vencer as mágoas que vou vivendo com resignação, cada palavra vinda de ti é um fermento que ajuda a fortalecer a minha vontade de estar contigo até aos fins dos tempos. Assim vou construindo o cenário mais maravilhoso que um sonho pode arquitectar; com a emoção que sempre nos toca nestes momentos de grata reflexão, vou tendo a visão da vida envolta em pomposos arminhos e o perfume das flores delicadas com muito amor de permeio.

O teu corpo fechado à chave
masturba um pensamento deslizante
que faz de mim faminta ave
voando até ao ninho reconfortante.
Mas tem cuidado redobrado
quando te vestes de amor
porque um homem enganado
pode ofender o teu pudor
atirando a tua boca
de encontro ao seu ventre
e logo o realejo toca
para aumentar o desejo ardente
avançando na sensual viagem
que o gostoso movimento recomenda
com os olhos nesta miragem
a língua passeia-se até à fenda
e repousa com terna brandura
na estrada silenciosa que desfruto
num repasto de louca candura
saboreio o delicioso fruto.
Poisado no silêncio dos teus braços
e embrulhado no frio da madrugada,
o corpo preso nos espasmódicos laços
desta noite lasciva e endiabrada.
Beira, Março de 1967
DOCES ARREPIOS
Não somos tão frágeis assim, porque me pareces segura das tuas convicções sobre o amor e a tua doçura para estimular o meu corpo cansado deu-me a alegria que há muito não sentia. Antes de tudo, continua a acreditar que a vida vale a pena nem que seja em momentos inesperados como estes que nos acontecem. Na vida, tudo é possível; cada um a seu jeito, temos direito à felicidade que se estende no nosso caminho!
Vejo que estás sentada no sofá,
as pernas cruzadas,
descobertas até à coxa;
os teus olhos sombrios
escondem falsidade no olhar inquieto
mirando o meu objecto.
Percebo o teu chamamento
cruzado nas coxas tenras,
quando dobras os joelhos;
o sorriso malandro a esboçar-se
e insistes em mostrar
a coxa que tens debaixo
do rendilhado do vestido.
Envergonhado, olho espantado
o estender da perna direita
e apetece-me agarrar-te pelos cabelos,
pegar teus seios e comê-los;
passar as mãos na carne branca
coberta de fina penugem
que espreita na esguelha da cuéca,
dar uma queca... assim no sofá;
porque estamos sozinhos
cada momento é um maná...
Atiras-te num apertado abraço,
despes o vestido e o soutien...
o membro inquieto todo se ufana,
sem perderes o sabor do melaço
come-lo todo em cima da cama.
Beira, Junho de 1967

ESPERANÇA DE VOLTAR
Ainda não perdi a esperança
de te voltar a ver no lugar do costume;
aquele lugar que recordo em cada dia:
o esplendoroso jardim das Portas do Sol,
que o espírito relembra sem azedume,
porque a tua beleza se confundia
com a paisagem linda do Tejo;
os carinhos ali bebidos até ao arrebol
jamais serão esquecidos neste harpejo
que te fez passar a porta velha
e abraçar firmemente o meu pescoço
com medo da altura da muralha.
E já a lua despontava no horizonte
quando a ternura das emoções
cruzou a suavidade dos lábios quentes,
lufadas de vida na noite escura
sem estes sinais de perturbações
que me deixam sofrer com amargura
os dias de guerra que causam dor
quando ainda fervilha em nós o amor.
Já senti o calor das balas na carne
que padece dos efeitos da força bruta,
os rebentamentos são fogo que arde
nas costelas torcidas nessa luta.
Ao recordar a graça daquele tempo,
com os corpos em convulsão
sinto falta da ternura e da calma
que nos aconchegava o coração
e temperava o fervor da alma.
Nangade, Julho de 1967