MAGIA DO VÉU
Foi numa tarde quente
que embarquei para o infinito
voei numa nuvem inebriante
cheia de mágicas fábulas...
foi uma viagem inesquecível
onde deambulei feliz
nos longos caminhos do espaço
a vida simples, com mais sabor,
longe dos afectos pecaminosos
que desprezam o amor.
Distante dos nossos desejos
e sem memória dos beijos
caminhei por baixo do céu
embrulhado na densa mata
e fustigado pela dureza do capim,
exausto, subo uma longa cascata
numa aparente fúria do eu,
enquanto esperas por mim,
para desvendar a magia do véu!

NOITES DE LUAR
Eu sonhara nas noites frescas
que eras tu ali tão longe...
entre nós existe um deserto
e afinal estás aqui tão perto
que nem sei se me perdi...
A distância não tem razão
para desfazer esse enlace
que te atrai sem presunção,
leve como os sonhos quentes
de qualquer ave que voasse
em busca dos beijos ausentes
que se evaporam na vertigem.
Tentemos voltar à origem
na lonjura do pensamento
animador da nossa vontade,
é um desejo que vai no vento
como o arfar de felicidade.
Procuro entender o critério
até à fronteira da incerteza
que atormenta o amor-mistério
onde se perde a casta beleza
dos frios beijos sem retorno;
no teu corpo pudico e morno.
Acaricio a melancólica solidão
e sinto as agruras da descrença,
onde a indiferença sem razão
atormenta a tua presença;
é uma esperança do desejo
para acalentar o frio beijo.
Nas noites frescas sonhara
que estavas ali, tão longe
embriagada na longa distância
reprimida no fascínio da verdade;
quando a solidão nos atraiçoa
o amor deixa-nos sonhar à toa!
BLUSA SOLTA
Acordei alegre p'ra vida
e o coração todo se ufana
a pensar em ti Mariana...
estejas tu onde estiveres
hei-de encontrar os diamantes
que trazes junto ao peito
onde misturas as químicas
dos perfumados prazeres...
e os corpos riscando o fogo
numa imagem concertada
que me oferece o abrigo
dentro da blusa desapertada
escondido nessa sombra
ponho as mãos cheias de amor
no coração de sentinela
que se abre com fervor
como se fosse uma janela.

ÊXTASE ARREBATADOR
A noite apresenta-se com uma sedutora claridade e, eu aqui neste sertão de Mueda, agrilhoado como um cavalo selvagem, sinto a vertigem do desejo incitando ao contacto sensual duma donzela que passeia em meu pensamento. Lanço as impiedosas dores ao vento da savana, levanto voo em direcção ao sul e logo ouço o convite da donzela, de corpo impúdico e lascivos contornos, para compartilhar estes equívocos de magia. É tempo de convocar as virtuosas virgens para o repasto. Não sou muito dado a ofertas de ternura, mas fico à espera!
Quando sinto a alma banhada
no amor grato e mavioso,
o corpo parece vaguear no espaço
ao encontro de ti, ansioso,
num êxtase arrebatador.
È uma alegria quando te enlaço
com este querer fidedigno,
e fico a contemplar os pássaros
para atenuar minha dor!
Querida, já sinto o motor
movendo os meus sentidos,
em tons suaves, a tua voz
já a ouço nos ouvidos...
Mueda, Setembro de 1966
NEGROS DIAS
Antes da estrada das Oliveiras,
- curvas da morte... em Diaca,
sinto a chuva trespassar-me a pele
ensopar as ideias dentro de mim...
cubro-me com as cartas topográficas
dum país em retalhos sem fim
- que da pátria nada me dizem,
e deixo as mágoas caminharem
pelas picadas acidentadas
deste destino aos solavancos.
Deito-me com os restos da esperança
que me afoita o corpo maltratado.
Guardo os restos das tuas cartas
parecidas com as recordações de criança
embrulhadas no grande anseio sonhado
onde as palavras de promessas fartas
manifestam esperança no meu regresso;
e para consolo da minha alma
sinto que tens os mesmo desejos
esperar que uma noite calma
me traga o sabor dos teus beijos!
Mueda, Setembro de 1966
FAUSTOSA CAÇADA
Um amor fogoso na praia do Macuti
incendeia qualquer coração...
o teu corpo explodindo de desejos
incendeia a carne e apela aos beijos.
Como um caçador encorajado,
percorro o monte à caça da perdiz...
perco-me no embaraço censurado
mas percebi o sinal em bissectriz.
No calor da noite serena e calma
senti o teu corpo bem aconchegado
no meu ventre sedento de prazer
indefinido nos lânguidos gemidos
que sufocam os sentidos
e tu bem te enroscas nas ondas
sedutoras da púbis crispada
nas tuas nádegas aveludadas...
gestos das mãos inquietas, atrevidas,
desejosas por saborear a tensão
no tactear dos teus seios
de arminho, com bicos entesados,
aborcados na minha mão.
Encantado com o corpo em malícia
deixo descair mais os dedos
e encontro a púbis da minha delícia
onde afogo todos os medos.
Aproveito o banquete faustoso...
com o membro bem entesado
deixo-me alienar no gesto deleitoso
entrelaçado no corpo endiabrado.
E tu, ainda quente, toda arfando
maneias o traseiro ondulante
e entornas o corpo cirandando
num contínuo desafio delirante.
Beira-Macuti, Outubro de 1966

SILÊNCIOS
Olho além da infinda vedação,
o arame farpado me espicaça
a alma, esmorece o coração;
não encontro o tempo do regresso
mas as lágrimas que não esqueço.
Para amar-te com mais vontade
ao vento lanço o murmúrio sentido
contra os ódios que repudio...
antes os lábios doces, sedosos
e os teus seios mimosos...
no silêncio da esperança
ouço o teu suave respirar
com o vento, na bonança
voltarei para te abraçar.
Maúa, Fevereiro de 1967
CARTAS do SPM
Hoje esperava uma carta que não chegou. Mas a noite escureceu o meu tédio e a espera resultou! Nas tuas palavras, imagino o brilho que tens na alma! Assim, nasce dentro de mim outra força que mantém o equilíbrio: a força da vida, embora fraca, liberta e causa dor, mas regenera a alma para sentires o grito da revolta que tenho dentro; a força forte capaz de lutar até à libertação de toda a condição da guerra que aniquila os corpos e desfaz os valores, oprime e veda os olhos nublando as mentes que se pretendem transparentes.

NO LOCAL DO COSTUME
Nesta caminhada para o amor
não podemos correr em desafio
é delicioso saborear com fervor
os contornos quentes no estio
temperar o ritmo da caminhada
aveludar as carnes em delírio
numa magia aprofundada
até aos confins deste martírio
sabemos como é bom satisfazer
os caprichos sem ilusões
desta relação que sabes manter
cheia de gestos e aferições
e sempre no local do costume
cá te espero para os afagos
onde alimentas este lume
que em nós arde sem estragos
Mais tesão nos traz a noite
e o empenho muda de ritmo
já teu corpo sente o açoite
da vergasta no teu íntimo
Num êxtase já comovente
os corpos abrandam tensões
cada um sabe o que sente
até às próximas convulsões.
