Espaço Etéreo


 

 

OPERAÇÃO ZETA - de 6 a 11 de Junho de 1969

 

Realizada entre Nangade e Mocimboa do Rovuma, nos Pântanos de Malambuage

 

Tropas de Intervenção:

- 2ª companhia de Pára-quedistas do BCP31 (Beira)

- 2ª companhia de Pára-quedistas do BCP32 (Nacala)

- 2 pelotões e a secção de logística da 1ª CCP do BCP32 (Nacala)

- 10ª companhia de Comandos

- 2 companhias de Cavalaria (Mueda e Nangade) – 2375 e 2376

- Oficiais e sargentos do BCP32 em apoio ao Comando Operacional

- Pessoal e aviões da Força Aérea

- Viaturas e condutores do Exército

Outros meios em acção:

-- Sete aviões de transporte (4 Nordatlas e 3 Dakotas)

-- Dez aviões de combate (8 T6 ligeiros e 2 PV2 pesados)

-- Uma Dornier DO27, no comando operacional

-- Um “Heli-canhão” com metralhadora pesada

-- Diversos helicópteros de transporte e apoio

-- Mais de trinta condutores-auto

 

 

 

Narrativa:

Os guerrilheiros da Frelimo andavam numa azáfama medonha para introduzir as mais recentes remessas de material de guerra, fornecido pelos amigos chineses e checos, nas bases avançadas da Serra do Mapé e do Vale de Miteda. Não imaginavam que havia alguém a preparar “ajuda” em tão importante missão; mas sabiam que a época das chuvas danificava as vias de comunicação terrestres, limitando os movimentos das tropas portugueses no planalto dos macondes! 

Enquanto isso, em Nacala, o calor atrofiava a respiração e causava fastio frente aos pratos de “carne de porco à alentejana”, e os pára-quedistas do batalhão da Beira já mastigavam as últimas grafadas de “bacalhau com grão-de-bico” na certeza de que a próxima ração quente seria uma incerteza. Mesmo o pessoal recentemente regressado das zonas de guerra não mostrava relutância em avançar para novas missões; pois, ao verem chegar os oficiais do comando operacional, os comandantes das esquadras de aviões e de helicópteros para reunirem com o Estado-maior, os pára-quedistas pressentiam que estava na forja alguma missão de grande envergadura.

 Uma semana depois, começaram a chegar a Nacala os aviões Nordatlas com equipamento nunca antes visto, movimentos que tiravam as dúvidas a quem não tivesse sintonizado os sinais prenunciados. Mesmo os que, dias antes, haviam regressado da missão à Serra do Mapé começaram a mentalizar-se para a operação que os chefes urdiam com elevada minúcia. Sem querer fazer alarde, o cabo Fonseca aproveita o serviço de guarda ao aquartelamento e interpela o sargento Sampaio sobre os estranhos movimentos de material e aviões. Mas o sargento rematou p’ro lado:

   - Ora, que pergunta mais estrambólica. Se a missão é secreta, como posso eu satisfazer a curiosidade do nosso cabo? E, de rompante, entrou na casa da guarda.

O cabo ficou a matutar: “três aviões de transporte, nove aviões de combate, montes de pára-quedas… o general prepara algum golpe à leão”.

Os motores dos aviões começaram a roncar antes das seis da manhã, os unimogues, num corre-corre, transportavam material de guerra, caixas de rações de combate e pára-quedas para a placa de estacionamento dos aviões. Quando o Calisto abriu os olhos já os ouvidos tilintavam com os turbo-hélice a zumbir; saltou para o duche de água hidrocarbonetada e espreguiçou o corpo ainda mal refeito da noitada no bar da estação de Nacala. Homens e aviões, em movimento acelerado, preparam-se para uma grande operação no Norte de Cabo Delgado, lá para as margens do rio Rovuma, entre Mocimboa do Rovuma e o lago Nangade – talvez no Pântano de Malambuage…

A meio da manhã, o pessoal do pelotão da balizagem estava em Mueda a visionar as fotografias aéreas do local onde iriam saltar e balizar a zona para lançamento de 186 homens preparados para uma complexa e perigosa missão – desmantelar as vias de infiltração da Frelimo. As informações acreditadas em documentos recolhidos pelas nossas tropas nos acampamentos assaltados no Vale de Miteda e confirmadas por elementos da população local indiciavam movimentos de grande quantidade de guerrilheiros e material naquela zona, presumivelmente, destinado à região do planalto dos macondes até à Serra do Mapé, passando pelas cercanias de Muidumbe, Nangololo e Chai, a sul do rio Messalo.

 

 

Por acção concertada entre o comando do sector militar de Mueda, o comando das tropas pára-quedistas e a Força Aérea, reuniram-se as condições para desencadear uma das mais bem organizadas operações militares. Tratando-se duma zona de terrenos pantanosos, com muitos escarpados e arribas, arbustos rasteiros e linhas de água, logo os responsáveis pela logística perceberam a impossibilidade de assaltar os acampamentos da Frelimo, detectados por via aérea, sem que fossem postos em causa os princípios da surpresa e da eficácia.  

Para ultrapassar essas dificuldades, foram preparadas duas companhias de pára-quedistas para tomarem a posição dominante do terreno por envolvimento aéreo, saltando de pára-quedas. Após terem saltado os precursores para a balizagem, apareceu o avião com o primeiro grupo de combate a sobrevoar a zona de intervenção… e os olhares dos mais nervosos procuravam diluir o imprevisto da chegada ao solo. O sargento Arantes animou o pessoal, ironizando:

   - Como podem ver pelas janelas do avião, há algumas nesgas de areia que permitem uma aterragem perfeita; devem evitar cair nos charcos ou no rio… pois, antes de enfrentarem os guerrilheiros, vejam se preservam as pernas dos apetites dos jacarés mais atrevidos!

Ao sinal dos largadores, os homens do ar perfilaram-se na carlinga dos aviões, ajustaram os equipamentos e saíram apressados para o vácuo do espaço que os separa das terras alagadiças nas margens do rio Rovuma. Enquanto apreciavam o serpentear das águas do rio e as nesgas de areia para onde apontavam a aterragem, os pára-quedistas não esqueciam que podiam estar na mira de qualquer arma dum inimigo mais atento. A chegada ao solo foi rápida, como mandam as regras em saltos operacionais, para logo se reunirem os grupos de combate com vista à defesa da zona e segurança dos companheiros que vão chegando ao solo – alguns com mais azar, caíram nos charcos cheios de bichos estranhos, mas ninguém se queixou dos jacarés!                           

 

 

 Assim, mais de duzentos pára-quedistas saltaram sobre o Pântano Malambuage, surpreenderam e tomaram de assalto os redutos da Frelimo; abateram várias dezenas de guerrilheiros durante os combates mais renhidos, apreenderam grandes quantidades de material de guerra e cercaram toda a zona dos acantonamentos do inimigo. Durante três dias, os pára-quedistas consolidaram as posições dominantes, bateram o terreno entre o rio Rovuma e a Base Limpopo, em Balade, a sul do pântano, pesquisaram e levantaram minas e armadilhas da Frelimo, fizeram as ligações aos grupos de combate do Exército que cercavam a zona em forma de tampão a Sul, a Leste e a Oeste do rio Rovuma. Nesses dias de intensa labuta, uma companhia de Comandos tomou o acampamento logístico aos guerrilheiros, a Sul do pântano, duas companhias de Cavalaria bateram as brenhas junto do lago Lidede e vale do rio Nange e assaltaram um hospital dos guerrilheiros, recolhendo diverso material de guerra e documentos, capturaram elementos inimigos e da população de apoio. Outra companhia do Exército bateu as terras a oeste do pântano e ajudou os pára-quedistas a recolher o material de salto. A progressão no terreno pantanoso obrigou a um esforço desmesurado, e só a grande determinação de vencer os obstáculos e uma abnegada vontade de chegar ao fim da missão conseguiu catalizar todos aqueles homens para uma vitória memorável das campanhas africanas. 

  Durante toda a operação Zeta, o apoio aéreo foi importante, tendo participado uma Dornier 27 no comando operacional, um helicóptero armado de metralhadoras pesadas, oito aviões T6 de ataque aos grupos inimigos que tentavam escapar ao cerco, dois aviões bombardeiros PV2, quatro aviões Nordatlas e três Dakotas no lançamento dos pára-quedistas. A acção de bombardeamento aos grupos fugitivos ajudou a amolecer o ímpeto combativo dos guerrilheiros e cortou-lhes as linhas de fuga.

Pela minuciosa recolha de informações, cuidadosamente testadas, e o consequente secretismo no planeamento em muito curto prazo, a Operação ZETA é uma das mais importantes missões  militares realizadas em Moçambique. Os resultados atestam o sucesso das nossas tropas, cuja coordenação excedeu as melhores perspectivas, atendendo à impossibilidade de acesso a uma zona controlada pelo inimigo e às distâncias de qualquer ponto de apoio sem ser apeado.

O Comandante do Batalhão de Caçadores Pára-quedistas 32, sedeado em Nacala, teve a seu cargo a coordenação de todas as Tropas em acção, especialmente o apoio aéreo, os percursores da balizagem, os meios de recolha dos pára-quedas, a logística para as colunas auto que recolheram o pessoal e o material apreendido. Os pára-quedistas empenhados nas acções

que culminaram nesta operação pertenciam ao BCP32 e ao BCP31. A sua elevada mobilidade permitiu infligir uma estrondosa derrota aos guerrilheiros, desarticulando as suas linhas de infiltração a partir das bases na Tanzânia, nomeadamente do comando logístico de Nachingwea e do pessoal operacional vindo do centro de treino em Mtwara, utilizando a estrada de Mahuta a Newala, a norte do rio Rovuma. Era impressionante a quantidade de picadas, trilhos e esconderijos dissimulados e espalhados numa área superior a vinte campos de futebol; na maior parte, em direcção ao local de travessia do rio, para a estrada que liga ao interior da Tanzânia.   

 

 

 

A acção conjunta de cerca de 680 homens determinados, pouco mais de uma dúzia de aviões e quatro dezenas de viaturas chegou para desbaratar mais de duas centenas de guerrilheiros, destruindo os seus abrigos, desmantelando os acampamentos de apoio logístico, queimando os víveres e celeiros e escorraçando os galináceos e cabritos para o mato. Mas, alguns  “habilidosos”, conseguem “iludir” as vistas dos chefes (guardando dentro dos camuflados e nas mochilas) e, no sossego do último dia, apresentam umas dezenas de galinhas para o churrasco colectivo; é que, depois do revés sofrido pelo inimigo, nada mais havia a temer nesta paz do diabo.

Durante a contagem do material, em Mueda, enquanto se preparava para a fotografia que recordaria a inesquecível missão, o cabo Fonseca virou-se para o sargento Sampaio e rematou:

- O meu sargento tem que se empenhar mais nas informações… nas informações, para não ficar mal à beira do cabo!    

 Além da preciosa documentação sobre a orgânica da Frelimo, foram apreendidos mais de 15 toneladas de valioso material de guerra, bicicletas e meios de passagem através do rio Rovuma.”

 

 

1 - Pelas Tropas Pàra-quedistas:

- 1723 granadas de morteiro 82mm; 2 morteiros 82mm completos e peças de outros; 182 espingardas Simonov e 200.700 cartuchos; 1 metralhadora pesada e 6 metralhadoras ligeiras; 63 granadas de mão e 21 armadilhas de itinerários; diversos equipamentos.

 

2 - Pelas tropas do Exército, especialmente pelos Comandos:

- 97 espingardas semi-automáticas e 18.200 cartuchos; 8 espingardas automáticas PPSH; 1 morteiro 82mm e 93 granadas de morteiro; 5 metralhadoras pesadas; dezenas de minas e armadilhas; diversas granadas defensivas; fardamento e diverso material de campanha.

 

                           

 

     

in “O DESPERTAR DOS COMBATENTES… fotos, narrativas e poemas dos dias da guerra em Moçambique”, de Joaquim Coelho

Alguns dados estatísticos da “História das Tropas Pára-quedistas Portuguesas"

 

 


 

Operação Nó Górdio

Desencadeada em toda a zona do planalto dos Macondes

 

Considerada a maior operação de sempre, envolveu  tropas do Exército, Marinha e Força Aérea, num total aproximado de 8.200 homens. Decorreu de 1 de Julho a 6 de Agosto de 1970, tendo por base operacional Mueda. Enquanto a artilharia e os aviões bombardeavam as zonas onde se movimentava a Frelimo, as tropas especiais tomavam posições no terreno para o assalto final às bases principais dos guerrilheiros - Bases Nampula, Gungunhana e Moçambique. A logística e a abertura de itinerários teve a participação activa das unidades de engenharia, da administração militar e de reconhecimento.

 

      Esquema da "Operação Nó Gordio", in Jornal 24 Horas

 

O cerco às bases da Frelimo demorou mais do que o previsto, uma vez que os itinerários eram difíceis; foram realizadas emboscadas e batidas em toda a zona central do planalto, desde Miteda, Nangololo, Muidumbe, Sagal e Mueda. Participaram no cerco forças de artilharia, cavalaria e caçadores, tendo as tropas pára-quedistas, comandos e fuzileiros avançado no terreno para o assalto às bases da guerrilha.

 

 

Apesar do grande envolvimento de meios, os resultados ficaram aquém do esperado, tendo a Frelimo aproveitado para se instalar nas proximidades de Tete, por onde desenvolveu acções contra as tropas portuguesas que protegiam a construção da barragem de Cabora Bassa. Durante o período em que decorreram as acções militares, as baixas nas nossas tropas foram pesadas: cerca de 50 mortos e 200 feridos, além das perdas de material.

 

 

Comparando os resultados com a Operação Zeta, constata-se que um décimo de efectivos, em menos de um quinto de tempo e material envolvido, resultaram na captura de seis vezes mais material de guerra do inimigo. Quanto a perdas humanas, a Operação Nó Górdio foi desastrosa.

 

Os mentores da Operação Nó Górdio             

 

                                                                                              Por: Joaquim Coelho

 


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