SONHOS e CONVICÇÕES
Muitos de nós já não têm sonhos... Crescemos num enredo de dificuldades, com alguns lampejos de esperança em concretizar os sonhos legítimos, e vermo-nos encravados nesta tragédia duma guerra que não queremos. Com os sonhos naufragados, as esperanças dilaceradas, os corpos esquartejados, os pensamentos decepados e a alma voando nos céus nublados da guerra, tudo se torna impossível e é proibido sonhar! Mas se ainda nos restarem forças para olhar para a terra, talvez vislumbremos as sombras onde os traidores não se envergonham de vaguear; bajuladores das ironias que as aparências encobrem, nem se dão conta da nossa relutância à sua acção trituradora dos bens comuns e que nos envolve na “miséria” em que nos querem ver naufragados.
Qualquer passividade neste confronto não será mais do que um acto de cobardia. Não tenhamos ilusões; os sonhos têm que ser defendidos como suporte das convicções, porque esse será o caminho.

DESOBEDIÊNCIA ACERTADA
Era mais uma missão da terceira semana em acções de reconhecimento e limpeza na zona operacional de Napota, uns quilómetros a Sul de Mutamba dos Macondes, onde foram recolhidos cerca de trezentos e vinte habitantes e aprisionados sete guerrilheiros. Juntamente com meia dúzia de armas, toda aquela gente foi entregue aos cuidados da companhia de Nangade.
Parecia uma operação rotineira, por entre os trilhos usados pelos guerrilheiros da Frelimo para reabastecerem as suas bases do vale de Miteda até Nangololo. Por coincidência ou por perícia, até agora, nunca houve recontros armados nem sinais de emboscadas, apesar de termos avistado duas patrulhas na recolha de água do mesmo poço, único num raio de dez quilómetros, onde também nos servimos da preciosa água.
Desta vez, assaltámos as instalações de uma antiga serração de madeiras transformada em base de apoio logístico e administrativo aos homens da Frelimo. Bem escondida dentro da mata, foi detectada por acaso. Depois de tomados os três trilhos de acesso e uma picada obstruída com várias árvores derrubadas, as três secções do primeiro pelotão tomaram o controlo das entradas e saídas, evitando a fuga dos frelimos; o pessoal do terceiro pelotão tomou de assalto todas as instalações e palhotas e aprisionaram um secretário e três guerrilheiros, bem como nove habitantes do apoio logístico. Não foi disparado um único tiro, porque todos eles levantaram os braços a pedir clemência! Estavam muito assustados pela surpresa do assalto. Foram recolhidas duas armas automáticas e alguns utensílios de trabalho nas machambas.
Sem perder tempo, fez-se um interrogatório preliminar aos quatro prisioneiros mais importantes, mas estes mostraram pouca vontade de colaborar, apesar da ameaça do cinturão do cabo Martins. Só o secretário, que não era maconde, deu algumas informações que permitiram encontrar mais dois pequenos redutos de apoio logístico à guerrilha.
Por acordo entre os comandantes de pelotão, os sessenta e quatro combatentes dos dois pelotões dividiram-se em três grupos de combate autónomos, ficando dois deles no terreno para procurar e desmantelar os ditos acampamentos da Frelimo, enquanto uma secção e mais três equipas do primeiro pelotão conduziam os prisioneiros e o respectivo material para o nosso acampamento em Napota.
Aproximava-se o meio-dia quando partimos para as definidas missões. O meu grupo, constituído por vinte e sete caçadores pára-quedistas, avançou para um dos objectivos indicados pelo prisioneiro, localizado a norte da ribeira de Munga, cortando o caminho por entre brenhas e capim, de modo a evitar possíveis emboscadas nos trilhos. Na proximidade das sanzalas foi feito o ponto da situação e logo passámos ao assalto… ficámos surpreendidos com o resultado da nossa acção: mais três guerrilheiros, seis mulheres e cinco homens idosos foram aprisionados. Os guerrilheiros não tinham as armas junto deles, pois estavam a reabastecer-se de alimentos, e não ofereceram resistência. Até já duvidávamos de tanta facilidade numa zona considerada perigosa para as nossas tropas.
O alferes estava radiante com a sua primeira missão como responsável pela orgânica do assalto ao acampamento inimigo! Essa alegria depressa esmoreceu, porque a inexperiência aliada à excessiva confiança só pode redundar em fracasso, quando não em fatalidade… e não demorou uma hora para acontecer o inesperado desenlace; sem nos darmos conta, ficámos encurralados e à mercê dos tiros das armas inimigas.
O sol, que atestava forte em cima das nossas cabeças, e a sede, sempre difícil de controlar, retiravam alguma lucidez ao comportamento do pessoal. Com a ansiedade a aconselhar o percurso mais arborizado e mais curto em direcção ao nosso acampamento provisório, seguimos um trilho que nos levou até ao vale com bastante vegetação. Alguns elementos da equipa do cabo Santos, que seguiam na frente da coluna, perceberam que os trilhos estavam muito desgastados pelo movimento de pessoas. O sargento Botelho preveniu o seu pessoal para as possíveis consequências por entrarmos no vale sem grandes condições de visibilidade, onde os guerrilheiros poderiam surpreender e atingir a nossa tropa. A estranha passividade demonstrada depois da destruição dos seus redutos começava a inquietar parte do grupo. Os prisioneiros que nos acompanhavam, atados com cordas, também davam indícios de agitação. Entre cada três dos nossos combatentes seguiam dois inimigos aprisionados – situação que nos causava algum desconforto e receio. Mas tudo parecia demasiado fácil e normal naquela caravana.
No fundo do vale, a vegetação do lado direito era densa e verde e com árvores bem entroncadas; mas, do lado esquerdo só havia arbustos e capim entremeado por uma brenha impenetrável… e foi daí que saíram os primeiros tiros de armas inimigas. Em poucos segundos instalou-se a confusão entre os prisioneiros que tentavam escapulir-se. Enquanto os soldados se abrigavam das balas inimigas, os três guerrilheiros tentaram a fuga por entre as árvores da encosta do lado direito; as folhas que iam caindo sobre as nossas cabeças já nos diziam por onde passavam as balas. A equipa do cabo Santos tomou posição para se defender de eventuais guerrilheiros que viessem da frente. Outros abrigaram-se junto das pedras em forma de muro que estavam no lado direito do trilho. Precipitadamente, o alferes Carmelo deu ordens a uma das equipas do sargento Botelho para perseguir os três foragidos que se escapavam mata dentro. Apercebendo-se do efeito do impacto das balas nos troncos das árvores e vendo a poeira que faziam ali mesmo na sua frente, por onde o alferes ordenava a perseguição aos foragidos, o sargento Botelho contrariou aquela ordem, indicando aos seus homens para flagelarem os fugitivos mas, continuando a proteger-se junto das pedras. Olhando o alferes de frente, protestou energicamente contra uma ordem inadequada e que poderia ter como resultado a morte de alguns dos seus comandados. Não fossem alguns tiros das armas, tudo parecia serenar quando o alferes virou a AR-10 na direcção do sargento Botelho e, numa posição ameaçadora, sentenciou:
- Aqui, quem manda sou eu e quem desobedecer leva já um tiro!
Por instantes, os que presenciavam a caricata cena temeram que o alferes cometesse alguma loucura, levando a situação para um desfecho dramático, uma vez que denotava um total descontrolo emocional – já não bastava a crítica posição no terreno, aparecia agora mais um problema de pontos de vista antagónicos, quando estavam em perigo mais de duas dezenas de combatentes.
O sargento Botelho, já veterano da guerra em Angola, embora em apuros, manteve a calma, deixou-se escorregar no capim e encurtar a distância que o separava do alferes. Com um golpe certeiro e eficaz, bateu com o coice da sua arma na mão direita do alferes, atirando-lhe a AR-10 por terra. Num ápice, enquanto o sargento Botelho deitou a mão à arma, dois dos soldados mais próximos manietaram o alferes que, ao ver-se impossibilitado de reagir, proferiu algumas palavras de ameaça, mas submeteu-se à força dos músculos. Enquanto isso, as armas inimigas não paravam de matraquear e os três turras deram à perna… sem ninguém lhes por mais a vista em cima.
Resoluto e apoiado pelos homens do pelotão, o sargento Botelho ordenou ao cabo Santos que atasse uma corda às mãos do alferes Carmelo e que tomasse conta dele; deu instruções para as equipas da retaguarda tentarem subir ao morro e flagelar os guerrilheiros. O sargento Figas concordou com o Botelho nessa tentativa para desalojar os frelimos daquela posição de domínio sobre o terreno, por ser a única forma de sairmos dali sem sofrer baixas.
Tantos e inesperados acontecimentos ocorridos em poucos minutos, obrigaram a uma pausa para organizar a defesa e encontrar maneira de sair daquele buraco sob o fogo inimigo. Rastejando mais para trás, o sargento Figas, com os seus, incumbiu-se de desalojar os guerrilheiros, os quais se viram obrigados a mudar de posição e tratar de se defenderem. Esta manobra deu oportunidade para a equipa do cabo Santos avançar umas vantajosas dezenas de metros e tomar posição em local propício para atirar sobre o morro onde estavam os guerrilheiros. Assim, num esforço conjugado entre os homens da frente e os da retaguarda, a coluna pode reorganizar-se e continuar a marcha até ao acampamento.
Cabisbaixo e despido do poder de comando, o alferes não perdeu a postura perante a arrogância do resoluto sargento Botelho. Mas, em tom de aviso, sempre foi dizendo que a desobediência é caso muito grave, sujeito a “conselho de guerra”, quando cometida em frente ao inimigo. Durante as três horas que demorou o resto do percurso, ninguém se preocupou com as consequências do desentendimento entre aqueles dois chefes, apesar das palavras ameaçadoras do alferes; porque o sargento Botelho apenas concentrava a atenção na forma de conduzir o grupo de homens até ao acampamento de Napota.

Para grande parte daqueles combatentes, este episódio só veio atestar a filosofia do sargento perante esta guerra:
"quando embrenhados na mata de armas na mão e sujeitos aos perigos da guerra, só podemos contar connosco; como tal, a nossa sobrevivência depende das nossas decisões e determinação em as concretizar; e os nossos actos dependem apenas da nossa consciência, porque estamos longe dos mandantes e dos governantes.”
A meio da tarde, entrámos no reduto onde as palhotas servem de arrecadação dos alimentos e do material de apoio, as Berliets aguardam o regresso a Mueda e as trincheiras e abrigos subterrâneos conservam alguma frescura para acolher os combatentes cansados. Ciente das responsabilidades que assumiu, o sargento Botelho mandou desatar as mãos do alferes e acompanhou-o até junto do capitão a quem deu conhecimento provisório do ocorrido. O resto do pessoal tratou das formalidades habituais quanto à recolha de população, entregando-a aos cuidados da guarda à palhota onde os mesmos pernoitam até serem entregues no quartel de Nangade. O enfermeiro inteirou-se dessas pessoas e tratou de curar algumas feridas bem visíveis nos pés dos mais velhos; por sinal, estavam a sofrer com a lepra que lhes ruía as carnes.
O comandante da companhia reuniu todos os oficiais e sargentos dentro da palhota do posto de rádio. De semblante carregado, quis saber pormenores e analisar as consequências da desobediência do sargento Botelho. Cá fora, as praças rondavam o local da reunião e mostravam a sua inquietação por temerem que o sargento Botelho fosse alvo de alguma punição. Pois, estavam cientes de que aquele acto de desobediência foi providencial para evitar que grande parte dos homens protagonistas daquela missão poderiam não regressar com vida. Agora, mais a frio, compreendiam que a situação era verdadeiramente perigosa. Foram poucos os que quiseram pronunciar-se sobre assunto tão melindroso. E todos aceitaram uma acareação entre o sargento Botelho e o alferes Carmelo, os dois protagonistas daquele facto inadequado dentro da hierarquia duma tropa especial. Por sugestão do capitão e com a concordância dos presentes, não haveria qualquer acção disciplinar e tudo ficaria encerrado ali mesmo. Tal decisão foi bem aceite entre o restante pessoal da companhia.
As missões continuaram nos dias seguintes, mas outras situações bem mais dramáticas e com perdas de vidas se abateram sobre aquele grupo de homens que apenas queriam cumprir um dever que lhes impunham. Nem sempre entendemos as razões que a desobediência desconhece.

EM CONTRATEMPO
Este percurso em contratempo
nas picadas dos Macondes
desencontrado com o tempo
que o destino encomendou à natureza
para alimentar a minha vida
tenho momentos de fraqueza
muita dor a morder fundo
enquanto a esperança definida
está nas verdades do mundo
o meu corpo já cansado
não anda… flutua!
Nas margens da guarnição
do acampamento inventado
dentro do campo de aviação
passo por baixo da lua
para fugir ao labirinto
das picadas da morte
que nos causam desolação
fico preso nas terras do norte
onde pressinto a ameaça
da masmorra da guarnição
imposta pela hierarquia
quando a grave chalaça
agrava as dores de cada dia.
Diaca, Novembro de 1967
1 - INCOMPETÊNCIA e CORRUPÇÃO...
Não sei se vou incomodar! Mas incomoda-me saber algumas verdades que atestam a incapacidade dos governantes em gerirem estas terras de África. Pode ser uma ideia de contra corrente, ou contra os conformismos que se apoderam da administração. Sinto uma forte vontade de denúncia dos atalhos da corrupção que envolvem os bens da tropa destacada nos confins do sertão, nas matas e savanas. O dinheiro descaradamente desviado dos fins legítimos faz falta para melhorar a alimentação e a vida dos jovens acantonados nas povoações mais isoladas das zonas de guerra, onde cada dia é uma amarga incerteza de sobrevivência. Talvez a linguagem agreste incomode alguém, o que é natural, quando o manto da escuridão oculta a realidade que é a nossa.
Há uma corrente de efeitos castradores das vontades que, aliada ao silêncio das vozes mais equilibradas, deixam um vazio que nos torna exilados à espera da neurose ou da bala mortífera. E se a demência nos faz gritar perante a morte destes jovens que combatem na escuridão das convicções abstractas, sinto uma acidez danada para escrever esta tragédia do nosso tempo, onde a esperança se confunde com o desespero da maldição da guerra e dos seus nefastos fins. É inconcebível que estejam dois pequenos e velhos helicópteros ao serviço no Norte de Moçambique, quando é sabido que existem algumas dezenas de helicópteros mais modernos guardados nas bases da metrópole. Quando vemos vários combatentes morrer por falta de socorro, temos que reclamar perante os poderes que desprezam a vida dos que sofrem as agruras da guerra. É caso para duvidar da capacidade de gestão dos nossos comandantes.
Também custa muito ver morrer um companheiro, por causas que nos atrofiam a inteligência; mas a nobreza da alma está em saber recordá-lo com dignidade junto dos seus familiares. Pois, são eles os que mais merecem a nossa memória!

O ISCO DA FORTUNA...
Alguns elementos das Comissões de Inquérito usavam um estratagema para multiplicar a aquisição fraudulenta de viaturas, fotografando a mesma em dois ou três locais diferentes. Só uma era entregue à unidade militar desfalcada, enquanto as outras eram encaminhadas para as obras de construção civil e outras feitas em parceria com empreiteiros civis. Foi dessa maneira que uma boa quantidade de militares "bem colocados na hierarquia" ficou proprietário de bons apartamentos, principalmente em Moçambique.
2 - MAS, ENTÃO NÃO FALAM PORTUGUÊS?
Custou-me perceber que as populações de Moçambique nada conhecem da metrópole, não falam português e não esperam nada dos portugueses. Em serviço de reportagem no interior de Moçambique, fazia-me acompanhar por um intérprete, porque não havia maneira de encontrar quem falasse português, a não ser os “colonos”.

Também é difícil de aceitar ver camponeses portugueses a trabalhar nas terras do Colonato do Limpopo, sob as ordens de capatazes e administradores estrangeiros, onde são enganados e escravizados, tendo menos regalias do que alguns pretos!
Que “império” é este onde os seus cidadãos são escravizados por gente estrangeira. Onde está o poder do império que não tem meios para atender às necessidades dos que lutam no meio do mato, morrendo por falta de assistência logística. E que colonizadores somos nós em terras onde os indígenas não sabem falar português, as valiosas matérias-primas só beneficiam empresas estrangeiras e o comércio é dominado por gente vinda da Ásia?
Recentemente, ao visitar Moçambique e algumas zonas mais marcantes do tempo da guerra, alegrou-me ouvir falar português fluente e ver os jovens a frequentar as escolas em todas as localidades. Muito me alegrou conversar com pessoas moçambicanas, tendo como meio de entendimento a língua de Camões.
3 – A VANGUARDA DOS CAPITÃES - Irresponsabilidades
Sabendo-se da existência do crescente descontentamento de muitos militares quanto à intervenção na guerra colonial, a “vanguarda dos capitães” só teve que aproveitar os vários factores e avançar com a “Revolução”. Alguns dos protagonistas, comandantes de grupo ou de companhia, tiveram sérias dificuldades em manter um mínimo de ordem e segurança durante a fase transitória de poder.
A forma negligente como foram negociados os acordos da independência dos territórios ultramarinos e o controlo do seu cumprimento, sem acautelar os legítimos direitos e interesses dos cidadãos nem o apoio logístico aos planos de retirada, em condições seguras, dos militares destacados nas localidades do interior, espelham bem o sentimento patriótico dos políticos e militares intervenientes.
Depois, não souberam exigir dos países apoiantes dos movimentos independentistas o respeito pelas normas internacionais; pois, os respectivos governos foram os fomentadores do desmoronar da administração ultramarina. Ao disponibilizarem dinheiro para ajudar os “retornados”, apenas estavam a reparar parte dos estragos que causaram aos portugueses.
O patriotismo de muitos militares integrados na “caldeirada” dos “Capitães de Abril” subentende a cumplicidade com os desertores e com os cobardes que protagonizaram o “perdão” aos criminosos da PIDE e a outros autores de crimes contra o Povo português. Para além do oportunismo de se banquetearem na manjedoura dos dinheiros públicos, usufruindo de promoções em condições nunca antes imaginadas, pactuaram com tenebrosas acções de poder que muito prejudicaram o país e os seus valores.
Há factos que jamais esquecerão os seus protagonistas, tais como: grupos de combatentes isolados e abandonados à sua sorte nas mais distantes e isoladas terras africanas; comandantes de grupo, com reduzidos efectivos para enfrentar a ganância dos elementos independentistas, que tiveram que colocar uns simples tubos como se fossem canhões (não havia munições) para amedrontar os opositores. Só com tais artifícios conseguiram preservar a sua integridade e dar alguma segurança aos colonos em fuga.
Agora, que encheram o papo e acautelaram reformas principescas, grande parte dos "capitães de Abril" acomodaram-se à sombra das benesses e esqueceram-se do sofrimento dos milhares de combatentes traumatizados pelas condições da guerra que, em tempo de campanha, lhes deram cobertura e segurança. Essa "vanguarda de cobardes" só pode merecer a nossa indignação, por nada terem feito em prol dos desprotegidos pela sorte.
4 - MATUMBOS Brancos!
Com todas as grandes transformações verificadas na sociedade logo após o fim da segunda guerra mundial, seria lógico e racional que os brancos a viver em África também entendessem os sinais que se foram evidenciando nas mudanças das relações entre os povos colonizados, ou oprimidos, e procurassem um relacionamento mais cordial para chegar à coexistência pacífica, evitando atiçar ódios e crispações que o tempo se encarregaria de dissipar. Os brancos residentes nos territórios ultramarinos, sobre administração portuguesa, são os mais retrógrados no aspecto da apetência pela cultura geral e pela informação global, menosprezando as tradições e direitos das gentes africanas. As acções de extrema crueldade e de injustiça praticadas por alguns colonos brancos, e pelas próprias autoridades administrativas, só agravaram os ressentimentos acumulados ao longo de muitos anos de escravidão, servidão e exploração conduzindo a formas brutais e desumanas de protesto. Disso ninguém de bom-senso se deve admirar!
Os tempos que correm, agora mais céleres, já deram suficientes sinais do futuro que espera os brancos que teimam em não ver a realidade da nova África. Afastem as ilusões de que a guerra será o meio eficaz de repor a segurança nos territórios ultramarinos. Quanto mais tempo durar esta tragédia de todos os dias, mais ódios se acumulam. E quando alguém pretender fazer a paz com as populações martirizadas, aqueles que nasceram no mato e foram treinados para matar os ditos “exploradores” serão transformados em “polícias” para manter a ordem e a segurança das populações das cidades. Os colonos bem podem perder as ilusões de que tudo será pacificado com esses homens bem armados a patrulharem as ruas das suas residências. É que eles, além de não terem formação nem condições morais para o fazerem, têm atrás de si uma gigantesca carga de contas a ajustar!

VÃO P’RO INFERNO
A vileza que vem da retaguarda
também havemos de vencer
até a maldade dos poderes ocultos
encobertos nos tons da farda
hão-de rastejar e gemer
ao som dos merecidos insultos.
São tais os algozes do demónio
que não mostram arrependimento
vão p’ras profundezas do inferno
onde há-de arder o antónio
que nos trouxe este tormento
das emboscadas ao sono eterno.
Os incautos somos nós
bastardos da pátria sem norte
atirados para a guerra… sós
nestes caminhos da morte.
Contemplamos a nossa desgraça
sempre que a traiçoeira metralha
o fatídico destino traça
em cada iníqua batalha
onde os corpos tisnados
ficam à mercê das balas quentes
caídos e esfrangalhados
sem sequer ranger os dentes.
Antes que a força se esfume
e me deixe nas savanas
vou arranjar fedorento estrume
para enterrar alguns sacanas
que nos fazem verter o sangue
e consentir a devassa da carne;
mesmo com o corpo exangue
peço à populaça que se arme.
A esperança jamais se esgota
nos dias de visível sofrimento;
liquidarei qualquer agiota
que me encurte o movimento.
As boas gentes da retaguarda
hão-de encontrar a coragem
de terem esperança e viver…
nós seremos a vanguarda
para acabar com a vilanagem,
avançar com a revolta e vencer.
5 – OS MORTOS REJEITADOS
Com base na aberrante lei que exigia das famílias a responsabilidade do pagamento dos elevados custos de transporte dos restos mortais dos combatentes para a metrópole, sabe-se que os mortos em campanha foram enterrados nos cemitérios das povoações locais; também se constata que o medo de afrontarem a hierarquia foi uma forma de encobrir a cobardia dos respectivos comandantes, cuja inércia permitiu tamanha afronta à dignidade dos que morreram em combate.
Numa recente viagem a terras onde houve guerra, verifiquei a existência de muitas campas devidamente identificadas nos cemitérios abandonados e esquecidos pelos responsáveis militares e políticos desde a “Revolução dos cravos”.

Para que conste, os combatentes jamais esquecerão os seus companheiros de jornada. Assim, desafiamos os responsáveis político-militares a tratarem com as Associações de Combatentes a maneira de transladar os restos mortais daqueles que foram enterrados em terras estranhas - única forma de acabar com essa vergonha nacional.
É necessário lembrar que uma geração de jovens portugueses foi sacrificada na guerra colonial, que foi esquecida, insultada e chamada de traidora. A maior afronta à dignidade dos combatentes é percebermos que os nossos governantes sempre pretenderam ocultar a verdade e apagar as nossas memórias, porque as mágoas não podem ser apagadas. Muitos deles, desertores e traidores à Pátria, não têm vergonha de traírem os seus concidadãos, sobretudo quando se atrevem a ignorar a quantidade de pessoas gravemente afectadas pelos fantasmas da guerra. O cinismo das suas omissões jamais apagará os anos de amargura e sofrimento que restringiu os sonhos a muitos milhares de bons portugueses.

A campanha que a Liga dos Combatentes está a fazer para resolver o problema dos restos mortais dos nossos combatentes abandonados em terras africanas é um logro e mostra o desprezo que o assunto merece por parte dos "generais" entrincheirados naquele reduto de tachistas alimentado pelos dinheiros públicos; sabe-se que alguns desses "senhores" são responsáveis pelo "abandono", porque, naquele tempo, tinham responsabilidades de comando. Até hoje nada fizeram para resgatar os corpos abandonados, gastaram mais de seiscentos mil euros em viagens às cidades mais acolhedoras das antigas colónias, sempre com o slogan de que estão a preservar as campas. Mas a realidade é escandalosa: mesmo nas cidades capitais dos países lusófonos, os cemitérios estão abandonados e vandalisados.

Alguns elementos do grupo de resgate
Quando um grupo de patrióticos cidadãos tentava organizar uma associação com vista a angariar fundos e vontades para resgatar os restos mortais dos nossos companheiros abandonados, eis que a Liga dos Combatentes tenta monopolizar essa acção e prepara-se para aproveitar os dinheiros já angariados para seu uso. Estamos a falar do caso dos oito militares que ficaram em Guidage, na Guiné. O orçamento do Estado prevê mais umas centenas de milhar de Euros para a Liga tratar das campas... mas porque será que continuam no caminho errado? Com o apoio dos governos da Guiné, Angola e Moçambique, gastando menos dinheiro, é possível levantar os restos mortais dos nossos companheiros e traslada-los para a Mãe-Pátria; os que estão identificados, poderão ser entregues às famílias, enquanto os restantes seriam sepultados em campa comum junto ao Monumento aos Combatentes, em Lisboa. Assim, seria remediado um mal que indigna qualquer combatente e que envergonha o país.
"MOVIMENTO DE ANTIGOS COMBATENTES"