INCONGRUÊNCIAS e LOUCURAS
Nangade – O “general” graduado em sargento
O “general” sargento da companhia destacada em Nangade passou hoje por Mueda a caminho do Hospital de Nampula. Poucos duvidam dos seus intentos para terminar com a guerra! Os disparates foram tão bem urdidos que o médico propôs que fosse tratado na consulta dos “apanhados pelo clima”.
Há poucas semanas que o víamos, de bengalim na mão direita, a comandar os seus soldados invisíveis na solidão da pista de Nangade. Não admira que hoje estivesse agarrado ao canhão instalado por detrás das camaratas do aquartelamento de Mueda, como quem afina a pontaria. No imaginário da sua ilusão, estaria a contar vencer a "sua guerra" com os Psicólogos de Nampula. Será que tem forças para tal?
Não sei se conseguirá manter o disfarce até que o devolvam à família.

Mueda - AVISO na fonte 22
Já ninguém duvida que os Frelimos são uns inimigos porreiros! Através de mensagem escrita e entregue na cantina do China veio o aviso de que o piloto do avião, abatido lá para os lados de Mutamba dos Macondes, poderá ser entregue às tropas portuguesas, junto ao fontenário 22, no dia e hora indicada.
Por ordem do comandante do batalhão local, uma companhia de pára-quedistas dirigiu-se para o ponto marcado, embora com as convenientes precauções. Pouco tempo depois de montado o sistema de segurança ao local, um grupo de três guerrilheiros acompanhou o piloto até cerca de duzentos metros da fonte 22, deixando-o caminhar, coxeando, na direcção dos pára-quedistas. Sem mais, os guerrilheiros viraram costas e embrenharam-se pelo mato dentro.
Recebido com regozijo e uma estranha sensação de que a guerra não tem inimigos, foi conduzido para a Berliet e aí tratado aos ferimentos resultantes da queda do avião que dias antes pilotava naquela zona. Não quis falar dos seus padecimentos, agradeceu a Deus ter tido a sorte de cair em mãos de gente que sabe cumprir as Convenções de Genebra para os prisioneiros de guerra.
Diaca – DESTINOS CRUZADOS
O comandante da companhia não disfarçava a euforia que o animava por ter chegado a candidato a capitão. A oportunidade de mostrar como se comandam homens em combate estava nesta missão ao vale do rio Muera, depois da passagem na “picada” das Oliveiras. De arma em bandoleira, o tenente corre em redor das viaturas que carregam o pessoal de Diaca até serem apeados nas proximidades de Antadora, uns quilómetros na direcção do Chai. Na conversa com os comandantes de pelotão, não se cansa de lembrar:
- Desta vez não vai ficar ninguém para contar a história.
E repete as instruções:
- Na aproximação ao acampamento, o pelotão do Américo vai na frente, sem deixar fugir ninguém; tudo o que mexer leva fogo em cima!
O refúgio da Frelimo estaria algures junto à ribeira do Nango, afluente do rio Muera. Até às proximidades de Antadora tudo correu bem. Depois, veio a noite, as viaturas voltaram para Diaca, os homens caminharam envolvidos na escuridão, com a chuva a cair a balde. Na deslocação nocturna, os camuflados encharcados tornavam os movimentos mais penosos.

A manhã húmida não ajudava o movimento dos corpos que teimavam em vencer o desconforto das fardas encharcadas. A paragem da manhã serviu para comer a primeira ração, enquanto os casacos escorriam. Só o tenente se preocupava em chegar à orla do rio antes de anoitecer. De dia sempre é mais fácil reconhecer o terreno e preparar a estratégia do assalto. Mas o tenente não contou com as dificuldades físicas do sargento Botelho, resultantes dos ferimentos da missão anterior. A farda encharcada obrigava a um esforço desmesurado que agravou a inflamação no joelho esquerdo.
Com a chuva a cair, as ribeiras e rios a encher, o tempo a passar, o sargento a gemer com dores físicas e as convicções a morder a consciência, tudo se conjugava para o fracasso da missão com laivos de massacre. Quando chegou a noite, a distância ao objectivo seria de dois escassos quilómetros. Mesmo assim, fez-se a aproximação, ao som do marulhar das águas das chuvas que enchiam o rio. A progressão nocturna é sempre mais ruidosa e os deuses puseram-se do lado dos frelimos que, ao pressentirem a proximidade das tropas, trataram de abandonar o refúgio.
Com a noite quente e seca, o caudal do rio abrandou e facilitou a passagem dos dois pelotões, logo pela manhã. Enquanto eram presos dois homens idosos, o resto da população fugia a caminho de local mais seguro, lá para os lados de Namuava. No meio dos escorraçados, preso às costas da mãe, um menino, com duas semanas de vida, de olhos baços virados para o céu, suplicava a salvação do seu povo.
O regresso a Diaca foi custoso, especialmente para o sargento com a perna esquerda meia incapacitada. Por retaliação ou por ser um homem frustrado, o tenente moveu um processo disciplinar ao sargento que o ia atirando para o degredo da ilha do Ivo.
Trinta e oito anos depois, numa conferência organizada pela Associação Portugal-Moçambique, nas instalações de Bonjoia, no Porto, viemos a saber que o padre Faustino Limbombo, responsável pela paróquia de Mueda, era “o menino às costas de sua mãe”. Dois anos após este evento, sabendo da visita de um grupo de antigos combatentes à região de Cabo Delgado, ele e os dirigentes da Associação de Combatentes de Mueda organizaram uma equipa de trabalhadores para descapinar os cemitérios onde estão militares portugueses. Em Mueda, num espaço maior do que um campo de futebol, o cemitério tem várias campas identificadas com os nomes e terras de origem dos militares lá enterrados. É caso para meditar...

ALTOS DIRIGENTES DA NAÇÃO
ALERTAM PARA A DERROCADA!
Moçambique
De 1966 a 1967 as tropas de quadrícula estavam sujeitas aos ataques, quase diários, dos guerrilheiros aos seus aquartelamentos e, sem grande poder de fogo para retaliar, limitavam-se a fazer reconhecimentos numa pequena área em redor do acampamento.
A Frelimo recebia apoios das mais diversas proveniências, sendo que já em Junho de 1966 tropas pára-quedistas avistaram guerrilheiros de raça chinesa junto às margens do rio Muera. A reestruturação das chefias de comando da Frelimo e o fornecimento de armas com maior poder de fogo, levou a acções de ataque com efeitos mais devastadores para as tropas portuguesas. Os ataques aos aquartelamentos das nossas tropas começaram a ser tão temidos e mortíferos como as emboscadas e a colocação de minas nas picadas.
Consta de uma comunicação designada por "grito de alarme" enviada para Lisboa pelo director da PIDE, em Moçambique, António Vaz:
"Julgamos ser nosso dever pedir a atenção de quem de direito para uma situação que consideramos grave, podendo redundar em malogro definitivo se não forem tomadas as urgentes medidas que o caso requer, …depois da quebra sensível verificada na actividade inimiga nos últimos tempos (fim de 1967), quebra resultante da chamada à Tanzânia dos chefes militares, aparecem-nos agora grupos de terroristas com composição e actuação reestruturados, com quadros excelentemente treinados."
Além dos efeitos devastadores que as novas armas e a organização que a guerrilha põe no terreno contra as nossas tropas, a impressionante quantidade de armas ligeiras e pesadas apreendidas durante a operação ZETA, levada a cabo por cerca de oitocentos homens das tropas pára-quedistas, comandos, cavalaria e outras tropas de apoio e logística, nas margens do rio Rovuma, entre Mocimboa do Rovuma e Nangade, vieram demonstrar a realidade do alerta daquele alto dirigente da PIDE.
Perante factos tão evidentes das crescentes ameaças sobre as nossas tropas, quais foram as medidas tomadas pelos chefes militares portugueses? Em vez de reforçarem o poder de fogo das tropas acantonadas no arame farpado, melhorarem a segurança das instalações e os meios de ligação aérea e terrestre para acções mais eficazes, optaram por montar um dispositivo bélico de enormes gastos e de duvidosos resultados, concentrados na zona do vale de Miteda, desguarnecendo outros pontos de extrema importância na contenção das investidas da guerrilha. A operação "NÓ GÓRDIO", esquematizada e dirigida pelo General engenheiro Kaúlza de Arriaga, ocupou grande parte dos efectivos e dos meios aéreos, terrestres e armas pesadas existentes no norte de Moçambique, cujas acções de bombardeamento e assalto aos redutos da Frelimo na zona só tiveram efeitos de dispersão dos guerrilheiros; que aproveitaram os bombardeamentos para se escapulirem em direcção ao sul, onde organizaram novos pontos de insegurança. Foi como quem mexeu num vespeiro: espalharam o terror e desenvolveram acções de guerrilha até ao distrito de Manica e Sofala e região da Beira, fazendo sabotagens e emboscadas nas estradas e caminhos de ferro, chegando a cercar as instalações dos estaleiros de Cabora-Bassa e a implantar a insegurança em todo o distrito de Tete.
Assim, o que alguns acreditaram ser um revés na orgânica da guerrilha, redundou num fracasso estratégico com graves consequências futuras. Tal como agora veio a público o pensamento extemporâneo do Ministro Silva Cunha, dos governos de Salazar e Marcelo Caetano:
"…As Forças Armadas Portuguesas estavam a ficar exaustas para assegurar a defesa em três teatros de guerra, simultaneamente."
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GUINÉ – situação explosiva
Ainda em 1968, o General António de Spínola dava os primeiros passos na implantação da sua estratégia militar e política na Guiné, mas logo percebeu que nada parecia o que era na imaginação dos governantes de Lisboa. Juntamente com a melhoria da articulação das acções militares das nossas tropas, o apoio e autonomia fornecidas aos chefes das tabancas, nunca foram suficientes para travar o avanço das forças da guerrilha. O PAIGC afirmava-se como a força com mais capacidade ofensiva e infligia pesadas baixas às nossas tropas. Em determinada altura, o general Spínola desabafa: "A situação militar é pior do que supunha. O inimigo tem completa iniciativa e o nosso dispositivo encontra-se bastante desactualizado. A pressão do inimigo tem aumentado mais sensivelmente nos últimos tempos." Depois, deu a conhecer as suas ideias para as colónias, através da publicação do livro: Portugal e o Futuro.
ALERTA às Gerações...
- Muito do que aqui fica escrito pode servir para alertar as próximas gerações e fazer com que entendam o que é a sobrevivência no meio hostil e perverso da opressão e censura, onde se esmorecem as imagens dolorosas da minha geração que se bate inocentemente na guerra que não é sua nem apreciam. Através dos rascunhos que escrevo em horas amargas e nos intervalos de algumas intervenções militares complicadas, poder-se-à ficar com uma ideia do tempo que perdemos, do sofrimento que nos afectou e das dificuldades em se manter um estado psíquico saudável, porque muitos tentarão que tudo isto fique no mais profundo esquecimento! Mas os mortos são já alguns milhares silenciados para a eternidade, e os estropiados, com as dores das suas vidas, são inseparáveis dum futuro amargurado, só porque não escaparam ao destino de serem mobilizados para uma guerra sem sentido. O sistema que nos conduziu a esta destruição, também tentará esconder a sua desgraça.
A memória dos dias do desespero jamais se apagará.
CARTAS AO VENTO
Quero viver a ironia do equívoco
como quem se afoga
na verdade do sofrimento...
antes de mim, companheiros,
outros vegetaram... e o seu lamento
ecoou pelas savanas,
grito dos heróis verdadeiros
com os corpos em pantanas!
Enquanto equivocado,
estou à mercê da tragédia
das brutais emboscadas,
e também sofro um bocado
quando já sinto a masmorra
como as almas penadas.
Os ventos sopram noutro sentido
quando os salazarentos se afundam,
não me tirem o que é permitido:
os sentimentos que abundam.
M. Praia, Setembro de 1967
O CRIVO DA CENSURA – Bispo de Nampula
Aquando da minha última passagem por Nampula, em Novembro de 1967, o chefe da Pide estava desacreditado, porque o Bispo D. Manuel tinha tanta influência sobre as populações que mais parecia o seu régulo. No bar do Hotel Portugal já se falava na hipótese de prenderem o Bispo por causa dele denunciar a miséria em que vivem os negros e o desinteresse dos portugueses em corrigir as graves injustiças sociais. Quando se soube que o mesmo Bispo de Nampula também ia tomar conta da diocese da Beira, devido à morte de D. Sebastião, os brancos de Nampula ficaram assustados com tal poder que chamaram a atenção do chefe da Pide de que deveria ter já preso o Bispo e que não o fazendo só dava mostras de grande incompetência; “pois, se o bispo está contra os brancos e defende os pretos, está com os terroristas”.
Quando cheguei à Beira com umas fotografias tiradas no norte e uns poemas escritos em Maúa, dirigi-me à redacção do “Notícias da Beira” para que publicassem alguma coisa. O chefe de Redacção olhou-me com inquietação, mandou-me sentar e ficou a ver duas das fotografias: em tom de aviso, aconselhou cautela, porque os homens da censura estavam muito mais atentos e que até já proibiam textos escritos pelo Bispo. “Tudo que esteja em desacordo com as informações oficiais está proibido e é muito perigoso tentar...”, disse em tom pesaroso.
Que a guerra é trágica e imoral, todos o sabemos. E é preciso ter coragem para compreender isso. Mas também tenho medo de afirmar esta verdade irrefutável. E eu tentava passar a mensagem pelo crivo da censura... e ficava em branco, uma amputação terrível que deforma a ideia e reduz o verdadeiro sentido do pensamento que tentava expressar. Nas três tentativas que fiz para que publicassem um texto sem cortes, ambas saíram frustradas. Perante os cortes, apresentei sempre o protesto junto do chefe da Comissão de Censura, onde o major me recebia com alguma compostura e rectidão; apesar de, ao entrar no gabinete, eu sentir a forma intimidatória e até agressiva como estavam dispostos os móveis – em caso de desentendimento, a saída era facilmente barrada.
Sempre que escrevia um texto e o tentava publicar no “Notícias da Beira”, com o qual tinha o acordo de colaboração, sofria os efeitos do controlo da CENSURA. Escrevia com a emoção própria de quem vive os acontecimentos, não sendo permitido narrativas sobre as operações militares, como é óbvio, debruçava-me sobre o problema das populações “deslocadas” para os “aldeamentos” controlados pela tropa; convicto de que estava a prestar um bom serviço à conciliação, referia que as populações não se apresentavam voluntariamente, mas que “acompanhavam” a tropa que lhes assaltava as palhotas dentro da mata, assim como também acompanhavam os guerrilheiros – as armas eram um convite para o qual não havia recusas! Por expressar esta visão das coisas, fui advertido de que estava a destoar dos comunicados oficiais, com consequências graves para a opinião internacional. Às vezes, excedia-me para além do razoavelmente permitido. Embora tivesse o condão de me apresentar com toda a humildade perante o major censor!
O homem aceitava muitas das razões do meu excesso como uma causa natural, mas ia lembrando que as mesmas eram inconvenientes para as tropas, e não deixava de dizer que eu não era bem visto... porque incomodava ao meter-me em questões fora do âmbito da minha missão em Moçambique.
Muito pausadamente, comentou:
“Deixe as emoções resfriarem e faça da sua experiência de combatente uma bandeira que mostre aos jovens soldados que não conhecem Moçambique na guerra.” E, com um ar elegante e parolo continuava:
“Para bem da coesão da tropa e para seu bem, não o quero ver mais aqui por causas que não lhe dizem respeito e nem sequer deve perder tempo com elas. A guerra é o que é e Portugal apenas tem de se defender dos inimigos. A pátria precisa de si nas forças armadas, como militar de elite e não como contestatário emocional.”
Senti que fiquei bem esclarecido e contido. Entretanto, na igreja do Macuti havia uma reunião de “irmãos” para protestar contra a posição do Bispo de Nampula. Não me foi permitido assistir, porque não fui convidado! Assim vai este reino da estupidez, onde nos amolam.

MUDANÇAS NO TEMPO
Um corpo sem emoções fica amorfo
como o estrume que ainda adoba a terra!
Quem poderá esquecer as emoções da guerra,
as caminhadas para o infinito das planícies
e as picadas nas vastas florestas de África,
onde sofremos inquietações sem medida.
Onde estão os rostos que se banharam
nas lágrimas tristes da despedida?…
e os lenços a acenar no cais de embarque,
ou os braços teimosamente abraçados
aos ente queridos que embarcaram
contra a vontade do tempo da sua sorte...
- talvez fosse o embarque p’ra morte!
Quem esqueceu o som do rancoroso Niassa
quando dava as primeiras braçados no Tejo?
A memória é chama que não passa
sem lembrar as marcantes emoções
carimbadas com o sabor do último beijo
já com a saudade a inflamar as paixões!…
O soldadinho podia regressar encaixotado
- enrolado na bandeira dos heróis -
com um louvor a atestar que o coitado
teve azar quando entrou nos paióis!
E pelos seus feitos mais nobres,
a familia teria medalha no 10 de Junho,
com direito à pensão dos pobres,
que o Salazar atestava pelo seu punho.
Em vez do orgulho reconhecido
aos sobreviventes destas jornadas,
lastima-se o esforço imerecido
de tantas vidas por aí abandonadas.
Sente-se muita frieza encoirada
nas rudes memórias enraivecidas;
uma vergonha no medo encapotada
das verdades mal percebidas.
É tempo de mostrar a toda a nação
o sonho destes homens-soldados:
acabar com a grave humilhação
para serem livres e não castrados!
Beira – REBELDIAS
O jornal diário “NOTÍCIAS DA BEIRA” noticiou que o padre do Macuti e outros paroquianos mais próximos da igreja andam a divulgar ideias “para dignificar a vida das populações do caniço” (bairros de lata da Manga e dos arrabaldes da cidade). A Censura não gostou e aperta ainda mais a malha do crivo às notícias. O Botelho, que mais uma vez pretende publicar fotografias e texto sobre a apresentação de populações em Cabo Delgado, é aconselhado pelo director do jornal a conter-se nesse propósito; pois, até o Bispo de Nampula e o chefe da polícia da Beira foram censurados!
Mas ele não desiste e, mais uma vez, vai falar com um outro oficial do Exército que chefia a Comissão de Censura; a conversa, demorada e com muitos detalhes quanto aos cuidados na divulgação de factos que possam aproveitar aos nossos inimigos, não resultou e as reportagens ficaram retidas na comissão de Censura. O dito oficial não deixou de dar o recado de que estava incumbido:
“Você começa a ser um pesadelo para a missão da Comissão de Censura! Não lhe chega o processo disciplinar instaurado pelo seu Comandante? Ao que parece, já se recusou cumprir missões no mato, e vai sofrer as consequências… que serão graves.”
As ameaças com o degredo vieram de seguida. Então, quando apresentava fotografias ou crónicas no Notícias da Beira, o chefe de redacção já se sentia incomodado com os assuntos relativos às populações da zona de guerra. Mas eu lá explicava que a verdade era muito mais do que aquilo que se mostrava nas fotografias e dizia nas crónicas. Atendendo a recomendações do chefe de redacção, tomei algumas cautelas. Acossado por tais apertos, perdi interesse em publicar. O código militar amordaçava a minha capacidade de expressão e concluí que a obscuridade era muito importante para o sistema sobreviver. Na minha qualidade de militar de intervenção, corria sérios riscos de degredo.
Contornando todas estas dificuldades para tornarmos publicas as nossas ansiedades, por sugestão do encarregado das oficinas gráficas e com a colaboração da Salema & Carvalho, do Diário de Moçambique e da Fábrica de Cervejas da Beira, o César Camacho deu maior audiência ao “Jornal de Parede” exposto na Base Aérea 10, na Beira. Juntamente com o Camacho e outros colaboradores, demos à estampa o boletim “VENTRAL” onde publiquei, em forma de “Editorial”, um artigo que havia sido cortado na Comissão de Censura, o qual tentava mostrar algumas semelhanças da “nossa” guerra com a guerra do Vietnam. Apesar do tom patriótico do texto, sofreu alguns cortes na censura interna. Por essa e por outras, o “VENTRAL” morreu após a publicação do primeiro número. Os riscos eram enormes…

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CARTA aos CRENTES, em dia de reflexão
O sentimento patriótico é algo demasiado importante que até os mais humildes soldados sabem preservar. Se o desenvolvimento das operações militares nos teatros de guerra não resultam no abrandamento das acções dos guerrilheiros, a responsabilidade só poderá ser assacada aos acólitos do poder político e nunca aos combatentes que se batem nas matas e savanas das terras africanas. A cegueira que leva à continuação da actual política, ao arrepio das convenções internacionais, está a empobrecer e a desacreditar o Povo português.
Os últimos anos têm demonstrado que nenhuma guerra de guerrilhas poderá ser ganha no campo de batalha. Os exemplos das últimas guerras de guerrilha confirmam essa realidade: as tropas do Viet-minh encurralaram as tropas francesas na planície de Dien Bien Phu, onde se desencadeou uma violenta batalha que obrigou os franceses a uma rendição humilhante e à aceitação dos acordos de Genebra em Maio de 1954; as guerrilhas no Laos e no Vietname, são outro foco de resistência, onde o desgaste de material e pessoal tem sido desmesurado e os americanos vão sofrendo reveses em quase todas as acções contra a guerrilha do Vietname do Norte. Mesmo na Argélia, a França perdeu a guerra nas lutas de guerrilha fora das cidades, o que desmotivou muitos dos seus combatentes e os levou a lutar contra o sistema colonial francês, travando encarniçadas batalhas contra os seus anteriores camaradas de armas. Presentemente, a dificuldade dos americanos no Vietname em combater a guerrilha, mesmo utilizando o melhor do seu potencial bélico, dá para perceber que não será com guerra que se ganha a paz; pois, os anais da história referem que a falta de convicções e razões objectivas para combater é um sinal evidente de que não haverá vitória. Por isso mesmo, só há um caminho para alcançar a paz: efectuar os contactos para conversações sérias com os chefes dos guerrilheiros e chegar a um entendimento que salvaguarde todos os interesses em jogo. Enquanto isso não acontecer, o sofrimento vai agravando o estado de espírito dos combatentes e os ódios e vinganças vão-se acumulando.
Depois, temos vários exemplos da falta de meios, em que a penúria de material tem atirado muitos combatentes para o caixote da frustração. Um país pobre e atrasado como Portugal jamais conseguirá bater-se contra os países apoiantes dos movimentos internacionais de libertação, parte deles europeus! Os interesses são de tal monta que acabaremos por ser esmagados pela ganância dos grandes impérios que se apoderam das riquezas e matérias-primas para seu consumo a baixos custos.
A penúria chega ao cúmulo de não haver helicópteros para evacuação de feridos, os quais morrem à míngua de assistência adequada; as carências de alimentos, de água, de munições nos destacamentos de tropa espalhados até aos confins dos territórios ultramarinos vão aumentando à medida que pioram as condições de circulação nas "picadas" que o inimigo vai minando e preparando emboscadas fatais. Em alguns acampamentos, por cada vez que vão recolher água, as tropas são atacadas e sofrem baixas. Os destacamentos de Nambude, Miteda, Mutamba dos Macondes, Muidumbe são exemplos de instalações precárias, difícil reabastecimento e recolha de água sempre sob o perigo de ataques inimigos.
Muito recentemente, no vale do rio Mulungo, uma companhia embrenhou-se no mato com o objectivo de assaltar acampamentos de guerrilheiros, reconhecer toda a zona periférica e tentar prender um famoso Régulo da região, recolhendo as populações que lá viviam. Durante vinte e cinco dias em acção, todas as missões foram cumpridas com êxito e com resultados satisfatórios, até ao último dia! Na tentativa de apanhar o Régulo, os militares desviaram-se do caminho previsto, perdendo tempo e aumentando o cansaço. Para piorar as coisas, a água esgotou-se nos cantis em zona de secura; com a sede a debilitar os corpos, a situação tornara-se desesperante. Já próximo da meia-noite e a mais de cinquenta quilómetros da base, quando se completavam trinta horas de marcha, fizeram uma paragem para descansar numa clareira. Ao aconchegar-se junto duma árvore, um dos militares descobriu uma vasilha com água e tentou encher o cantil, logo outros se aproximaram para minorarem a secura das gargantas... trárárá-trárárá... pum! O inimigo andava perto e aproveitou para atirar; as balas mataram, mesmo na escuridão. Três soldados caíram por terra: um morto e dois feridos, dos quais, um morreu ao amanhecer. Retirando para uma machamba (campo de milho), enquanto esperavam meios de evacuação dos atingidos, um novo ataque causou mais um morto. Ali ficaram três mortos, porque o helicóptero chegou passados três dias! Uma coluna partiu de Diaca para Mueda, sendo atacada com granadas PGR e tiros de metralhadora, a poucos quilómetros da povoação. Pedidos os meios aéreos de apoio e o helicóptero... não estavam disponíveis na zona! Dois mortos e cinco feridos tiveram que ser evacuados nas viaturas que não foram destruídas. Os ataques e emboscadas continuaram, atrasando a marcha, tendo como consequência mais dois mortos e outros tantos feridos. É com estes meios que se pretende fazer a guerra? E que pátria é esta cujos governantes determinaram que os mortos sejam enterrados nos cemitérios espalhados pelo capim, à míngua dos chacais e sujeitos ao abandono, enquanto as famílias não tiverem meios para os resgatarem para as suas terras?
Ninguém tenha dúvidas: o pessoal não é burro. Muitos dos mancebos que embarcaram em Lisboa, tendo uma visão do mundo do tamanho da ponta de um alfinete, já sabem onde ficam as picadas de Mueda para Negomano, Mocimboa do Ruvuma, Nangade ou Pundanhar e Palma; de Vila Cabral para Tenente Valadim, Lunho ou Cóbué; de Marrupa para Maúa e Révia; também sabem o que custa percorrer a serra do Mapé e o vale de Miteda, atravessar os charcos do Chai até ao rio Messalo ou picar os caminhos que permitem levar reabastecimento aos militares destacados nos longínquos acampamentos do norte.
Como se pode manter uma tropa moralizada e pronta a dar o litro, quando passa horas no seu acampamento sob fogo inimigo; quando algum elemento tem o azar de ficar gravemente ferido, morre por falta de assistência; quando sente a fome e a sede, por falta de meios eficazes para reabastecimento, mesmo sujeito a emboscadas; e todo este pessoal, isolado nos acampamentos do interior, não tem qualquer contacto com o mundo real nem incentivos que desanuviem o seu espírito equidistante das razões desta guerra. O caminho mais certo será a bebedeira para esquecer, rezar o terço e entregar-se a Deus, enquanto não caem as morteiradas, ou esperar a demência. Para compor o cenário, aparecem os ataques de mosquitos, que provocam febres de enlouquecer, e os ataques de abelhas selvagens para debilitar ainda mais a saúde.
Mas os comportamentos bizarros também ajudam a compreender o desmoronamento do empenho colectivo. Uns, mais crentes no sentimento patriótico, tentam vislumbrar alguns focos de coragem para combaterem as adversidades - incapazes de reflectir sobre a realidade que os rodeia, caem na futilidade da frustração doentia ou desesperam perante a sua pequenez; outros, mais perspicazes, tentam desviar-se dos perigos e passar despercebidos ao inimigo, por vezes com actos corajosos que os prestigiam, até mesmo se têm responsabilidades de comando. Há outros mais humildes, votados ao abandono e que se arrastam com laivos de coragem e algum engenho para sobreviver ao infortúnio de terem sido atirados para o meio das matas inóspitas; todos sentem algum medo, não sabem se vivem ou se vegetam, sonham com o dia do regresso, enquanto as bebedeiras lhes servem de ópio para acalmar a vertigem do ego moribundo!
Para quem esteja atento ao desenvolvimento dos comportamentos individuais, poderá concluir que a guerra é redutora e miserável; pois afecta dois povos com sentidos históricos diferentes. No seu aspecto mais social, tem para o africano a destruição do seu modo de vida, porque é espoliado dos seus parcos haveres e forçado a viver na situação agonizante de sitiado junto da tropa, com restrições de toda a ordem, ou sob o efeito das bombas. É confrangedor ver gente, de corpo frágil e cheio de mazelas (tuberculosos, leprosos esfacelados, a trabalhar nas machambas). O mais repugnante é quando aparecem comandantes valentões, cheios de coragem galinácea, a mandar abater toda a gente (velhos e crianças, porque os novos estão bem longe)!
São estes os cenários ao gosto dos que, bem acomodados na retaguarda, analisam os fantásticos relatórios e planeiam as operações; donde nascem as patrióticas notícias que chegam ao público ou dão direito a condecorações vistosas para exibir no 10 de Junho..
Com este ambiente, fantástico e decadente, a guerra está perdida. A insegurança no terreno é evidente; a moral está demasiado afectada pela penúria de meios e de condições humanas; os problemas agravam-se quando chegam notícias de infidelidades conjugais e de namoros trocados; os meios económicos e materiais são escassos para tanto esforço de guerra; quase todos os mancebos têm situações de emigração clandestina na família, que os desespera; já existem demasiados casos de corrupção na administração dos dinheiros das Forças Armadas. Se ainda houver alguém que acredite numa vitória, deve estar a delirar num cenário de outra qualquer guerra, porque esta não é assim tão atraente!
Basta perceber a grandiosidade da África em plena efervescência, para entender a nossa pequenez. Se, ainda, houver alguém que manifeste desprezo pelos militares que se batem contra as mais desumanas condições de vida, imbuídos de sentimentos altivos, então, só tenho a lamentar o seu grave estado de alienação ou estupidez. Ninguém deve ter a veleidade de pensar, quanto mais exigir, que estes homens estejam dispostos a morrer ingloriamente, por causa duma guerra injusta, onde o facto de empunharem armas e aniquilarem povos que lutam por um ideal de liberdade, apenas tem fomentado ódios e terrores. Espero que ninguém esteja à espera da vitória do ódio, porque, no dia em que terminar este flagelo, onde se queimam palhotas e até as pessoas, os que são hoje considerados inimigos jamais estarão dispostos a prestar vassalagem aos nossos concidadãos que os colonizaram ou desprezaram, mesmo nos casos onde existem alguns focos de amizade com os indígenas. As marcas são profundas e ficarão por muitos anos.
A guerra é repugnante. Nenhuma guerra serve os interesses da humanidade, apenas serve os ladrões.
HORA DO CAOS
O tempo respira a angústia do dia
em que quis melhorar a harmonia
das imagens guardadas na cabeça.
Não vou inventar o drama que pareça
confrontar o mal e o caos da guerra,
nem os corpos esfacelados a fugir,
espalhando o sangue pela terra!
Estaremos numa guerra a fingir...
com soldados espetados no chão,
estilhaços cortantes como espadas
que vão ceifando as nossas vidas
embarcadas num estranho avião?
Sagal, Agosto de 1967
O que não Vem nos JORNAIS…
O Almeida do Cartaxo
embarcou sem a certeza do regresso
mas deixou um filho aprazado
na barriga da mãe escondido
Passava os dias tristonho,
isolado dos companheiros
sempre à espera das missões
como se fossem um contratempo
e conduzia os camiões
com a força dum jumento
Ainda mal tinha parado
no aparcamento do Sagal,
ficou logo aparvalhado
e começou a sentir-se mal
pois não foi boa ideia
o rapaz da sua aldeia
dar a notícia de rompante
Soube que a mulher o traía
com um amigo… tratante
dos seus tempos da escola.
Foi tamanha a ventania
nas voltas do camião
que varreu todo o terreiro…
o oficial de serviço,
que era um gajo porreiro,
ao ver tamanha poeirada
abeirou-se do rapaz
e em vez duma “porrada”
foi valente e audaz
para o confortar na dor…
logo ouviu, comovido,
o seu desgostos de amor:
- Meu alferes, se é amigo,
quero cumprir as missões
pois servirão de sedativo
para todas as ocasiões.
(Assim, em vez de apanhar as bebedeiras no Brazuca,
não faltou a mais nenhuma missão).
Quando O Almeida passava por Mueda,
nunca precisou de ir ver a “miss” local,
filha do China, a distribuir cervejas “bazookas”
e a roçar as tetas nos olhos da malta;
o que também era um bom sedativo
para os “Checas” serenarem as ansiedades
da véspera de cada missão
enquanto não sabiam onde estavam metidos…
alguns só acordavam quando as minas
lhes destruíam as viaturas,
porque as picadas de Mueda a Miteda
e depois para Muidumbe
eram uma autêntica aventura…
O mesmo se passava para Nangade
como avisaram os Caçadores
da “sete de espadas” estacionados
no alto de Mutamba dos Macondes.
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A BEM DA NAÇÃO
Salazar era tão forreta, tão forreta
que comprou uma cadeira usada.
Um dia a cadeira mostrou a tabuleta,
e o espaço onde a vida não vale nada:
- não aceito tamanho forreta,
que se misture na terra preta!
Foi uma partida atrevida,
logo investigada a cadeira partida,
chegaram a providencial conclusão:
o destino do pobre coitado
era a terra de santa comba dão,
… assim teve fim o marafado.
A TAL CADEIRA
Eu nem queria acreditar na notícia
que ditou a reforma vitalícia...
uma cadeira que desancou
lá para os lados de S. Bento!
Algo estranho me confortou
deste alvoroço sem a presença
do diabo que se aposentou;
como teria sido a sentença,
mas o rádio afiançava a desdita,
fiquei parado, estranha sensação,
contente pela cadeira bendita
e tudo é feito para bem da nação.
Tal como a vingança do cigano
o julgamento de deus estava previsto;
só espero que não seja engano,
esta fatalidade do homem mal visto
tombar nesta desgraça fatal.
Se calhar foi a santa mão,
que se vingou de tanto mal…
mas tudo “A Bem da Nação.”

Mais conhecidos por "Bate Estradas", os Aerogramas desempenharam um papel importante na ligação entre os combatentes e os seus parentes e amigos, servindo de vitamina contra o isolamento.
AEROGRAMAS
Se um dia for feita a história dos Aerogramas, poderemos recolher testemunhos das mais curiosas maneiras do desenrasca dos nossos combatentes. No espólio da correspondência de alguns jovens da "geração da guerra", com destaque para o Joaquim Teixeira, podemos encontrar questões como: propostas para comercializar máquinas fotográficas, relógios, tapetes orientais, rádios transístores e, até, mulheres africanas!
Transcrevo partes de alguns "aerogramas" que, ao descreverem resultados de missões operacionais, poderiam não ter chegado ao destino se a PIDE estivesse com a atenção que teve nos primeiros anos da guerra:
Angola - Noqui, 18-02-68 - de J. Almeida, 1º.cabo /66, SPM 3786:
"... com respeito às mulheres de cá ainda hoje fui ter com uma mas só dei 50$00, mas mal acabei o serviço fui logo ao hospital pedir uma bisnaga e outro líquido para me desinfectar... um homem não é feito de pau e nem todas as vezes se pode tocar ao bicho..."
Moçambique - Chiconono, 01-07-68 - de 1º.cabo /67, SPM 4364:
"... cá tenho levado isto da melhor maneira, apesar do inimigo já nos ter consumido... já tivemos dois recontros com os terroristas, em 10 de Junho após dois dias fora do acampamento, o segundo às quatro da manhã, com quatro horas debaixo de fogo, sem feridos do nosso lado e demos 4 mortos ao inimigo incluindo o chefe deles e aprendemos 2 espingardas 1 pistola i saco com documentos e miudezas e um prisioneiro... veio a véspera de S. João para nova tentativa atacamos nova base que então houve um ferido para nós um sargento enfermeiro, demos mais quatro baixas aos terroristas e 50 prisioneiros com mulheres crianças e poucos homens ... depois botamos fogo às cubatas e viemos embora sem nada acontecer e esperamos nova tentativa já que os turras é a mato até irmos para o sul que isto aqui não agrada a ninguém... com respeito à punheta não é preciso que aqui mulheres é à balda... a gente por um bocado de sopa vamos-lhes ao pito e então se quisermos "casar" compramos um vestido e fode-se toda a vida... e para mais nós a tomar conta de uma povoação que até as trazemos para as casernas..."
Moçambique-Muembe, 07-08-68 -de N.Correia,"os Panteras Negras do Niassa":
"Grande amigo pára-quedas... saúde felicidades e força na pica...que te encontras bem e a engordar então ainda melhor que a gente aqui é ao contrário se não gasta algum dinheiro à nossa custa e come alguns extras estamos fodidos que aqui a fome é mato. Mas operações é sempre aquela máquina... fomos a um acampamento onde já tinham ido os comandos e recuaram, mas tentamos a nossa sorte com 40 homens e tentamos por os terroristas nas putas... recolhemos armas chinesas carregadores de disco granadas de bazuca mais minas anti-pessoal e anti-carro russas... "
Muembe, 04-09-68 -
"... tenho tido umas operações a seguir às outras, para meu castigo ajeitei aqui uma mulher que é uma bonequinha que me fode um dia destes, olha nunca tal me aconteceu até caí abaixo da cama... muito limpa, dei-lhe um sabonete e ela lava-se três e quatro vezes por dia, não cheira a catinga... sabes quanto me ficou o "casamento" 30$00, é uma risota, os meus colegas dizem "muê fazer máquina" ela responde: "assim pá Correia meu marido eu só máquina com Correia... portanto não sateia que tenho marido" .... então de mini-saia não queiras saber, só tenho pena é que não posso abusar senão vou pró caralho e para mais como pouco... é uma maneira de se levar a tropa. Com respeito à guerra isto está a agravar-se uma mina fodeu uma Berliet e mandou um capitão dos comandos pró caralho e um alferes em perigo de vida, em Maio foi um do nosso batalhão e outro ficou cego; o destacamento foi atacado duas vezes... "
Muembe, 17-07-69
"...vem dar uma viagem no Vera Cruz até cá ver a habilidade destes turras a actuar... ver a Berliet ir com o caralho como no percurso do nosso quartel a outro que fica a 150 quilómetros foram 4 e antes dois dias tinham ido 2, ver os turras a morteirar a malta e a gente nos postos do destacamento a rir-se com os gajos a gastar material e nós nem uma munição gastamos, ver elas a estoirar melhor que o S. João, vem ver isto tudo que é de graça... vem ver umas batucadas, vem ver os gajos a pedir o pito às gajas "muê fazer máquina" e pedir casamento "muê casaca colembo eilo casa eguemba"... tudo isto é muito lindo Quim estou morto que vá para uma cidade para ver aquelas mini-saias brancas, apesar de as gajas aqui desprezarem um soldado não se lembram que para elas terem sossego nas cidades andamos nós aqui no mato... os tropas também são fodidos... então aparecem estes mais apanhados que já não podem ver uma mini-saia branca... vira-cus parecem malucos em por isso não gostam da tropa..."
Angola - Salazar, 25-01-68 - de A. Martins, sold. Inf. 108/67, SPM 3866:
"... com respeito a mulheres... em Luanda estive com uma rapariga que eu aí andava metido, pois tu também a deves conhecer... chama-se Maria e eu no Domingo fui a Luanda e estive com ela, fomos para a praia e ao cinema, mas aquilo só serve para quando eu for a Luanda, aqui em Salazar não há dessas mulheres, só pretas e mais nada. Aqui estamos bem, sem problemas de guerra..."
Quiage, 20-10-68, Norte de Angola - de A. Martins, sold. /67,SPM 3866:
"...estou no mato e mais uma vez tivemos sorte, pois no dia 13 fomos emboscados... e de lá saímos sem haver feridos, parecia um inferno, pois era muito fogo... eles tinham a coisa bem feita para nos foder, mas a sorte estava do nosso lado. Temos feito de uma sanzala o cemitério dos turras, pois nem lá se pode estar com o cheiro."
Noqui, 28-01-69 - de J. Almeida, 1º cabo /66, SPM 3786:
"Bom primo, ... dizes que aí está muito frio e chuva, ...mas olha que aqui às seis da manhã já apetece tomar um duche, tal é o calor... quero ir depressa embora que isto não interessa nem ao menino Jesus. Quanto ao Natal custou a passar, com muitas saudades da família. ... quanto à minha guerra, ando a fazer chuveiros para os pretos nesta sanzala, que a nossa companhia anda a ajudar e eu confesso o que quero é esta merda passada e o resto é letra."
Nacala, 26-01-70-Terra da escravidão - de J. Bessa,sold.,/68, SPM 9524:
"Quim, com respeito às camisolas nada se arranja,... podemos arranjar outro negócio, manda-me dizer a que preços arranjas relógios Cauny c/ calendário e mostrador normal ou em preto; e rádios de dez transistores, vê se desenrascas aí as coisas baratas para ver se ganhamos uns patacos, okey? ... a companhia teve um ferido grave, fica sem uma perna e talvez sem um braço, foi uma mina; apanharam sete armas... no outro mês a 1ªCCP teve um morto e é isto..."
Nacala, 15-06-70 - de J. Bessa
"...que este meu poupa tostões te encontre de óptima saúde... apanhamos mais armas, matamos turras e destruímos acampamentos e uma base, nada de especial tendo acontecido ao pessoal, mas tenho-te a dizer que isto cada vez está pior, pois este ano em Moçambique já morreram mais do que em Angola e Guiné, o que é muito, pois chegam diariamente a Nampula uma média de dez homens entre mortos e feridos, o que é muito, mas enquanto o azar não bater por cá tudo se vai passando... agora consta que vamos destruir a base Beira, ou seja a mais importante dos gajos... vão lá os Fiats bombardear, as companhias de "paras", "fuzos" e comandos, e algumas do exército. Talvez se vá saltar, deve ser uma operação do género da base Limpopo, em Junho do ano passado, onde as companhias de páras apanharam várias toneladas de material... o que é chato é que vim para descansar e só estou vinte dias, já na outra missão foram 43 dias no mato e vinte a descansar... é preciso é calma e que o tempo passe depressa, já cá estou há quase oito meses..."
De muitos lados… para lado nenhum!
Uns vieram de pastores,
outros das beiras interiores…
as festas foram vividas
como se fossem as ùltimas
sem a chama dos outros anos.
Despediram-se dos últimos dias
sem pensar nos desenganos
e o choro foi um pesadelo
na despedida inesperada…
azar é andar com a sina trocada
e a vida feita em novelo
Sentiram-se piores que ratos
nos atulhados porões do navio
mas os aerogramas são baratos
para relatar os dias de fastio
dentro da cerca dos temores
As primeiras notícias da jornada
vão direitinhas aos seus amores…
é tudo boa rapaziada
e não trocam de namorada.