Espaço Etéreo



 

CASAMENTO POR PROCURAÇÃO – Beira

 

     Andava o Asdrúbal incomodado com os sonhos eróticos que o deixavam envergonhado perante os colegas de quarto, quando resolveu comunicar à noiva, que tinha na metrópole, a sua vontade de casar, mesmo que fosse por procuração. Depois, era só marcar a passagem que os aviões da Força Aérea transportá-la-iam para a Beira, onde poderia ter a futura esposa para lhe refrear os apetites carnais.

     As noites do Asdrúbal eram agitadas; roncava que nem um touro, e dava urros misturados com suspiros que acordavam os companheiros. Muitas vezes, acordou com os olhos em brasa e as cuecas molhadas. Sentia o líquido lascivo escorrer-lhe pelos colhões e as assombrações causavam-lhe tremores e tristeza. As noites do Asdrúbal eram uma inquietação permanente...

     Casar por procuração para ter mulher de carnes frescas e perfumadas era uma boa solução, mesmo que a tenha de abandonar, sozinha, durante os trinta dias que tem de gramar, mês sim e mês não, nas missões no Cabo Delgado ou no Niassa. Deu instruções para o tratamento da papelada necessária; juntou a sua documentação e meteu o requerimento ao Chefe de Estado-Maior, mesmo sabendo que estaria ausente, do dia do casamento! A sua noiva podia ter a companhia do tio Manuel, padrinho do Asdrúbal; um senhor, com mais de sessenta e cinco anos, que faz o lugar do noivo na cerimónia, o que não o assusta. O Asdrúbal sabe que o seguro morreu de velho... não fosse o primo Jerónimo, que esteve para fazer o lugar do noivo, sucumbir aos encantos da noiva e querer apoderar-se do lugar logo na noite da boda, quando uns goles a mais deixam o diabo à solta! Ainda mais, sabendo que a noiva não ia ter noite de núpcias!

     Dos pormenores da festa na Sertã, pouco chegou ao conhecimento do Asdrúbal. Para não sobrecarregar a família com as despesas da boda, teve o cuidado de transferir umas largas dezenas de contos para a terra, na convicção de tudo iria correr bem. E convidou companheiros mais chegados para beberem umas cervejas 2M e comerem uns petiscos feitos no café central da Beira. Para melhor recordar o dia do casamento da noiva, os camaradas ofereceram-lhe um grande ramo de laranjeira com quatro laranjas quase maduras... que o Asdrúbal não apreciou muito!

     A mulher chegou à Beira e assentou arraiais na urbanização do Macuti; a casa preparada antecipadamente pelo noivo, mesmo perto da messe, com a ajuda do Serôdio que ajudou a montar as mobílias. E a Gracinda, parece que se adaptou bem ao ambiente, entrincheirada com o Asdrúbal, longe dos olhares dos “rufias”, não vá o diabo tentar algum desvario. A clausura de dois meses transformou a menina recatada numa espampanante senhora; nos dias de ausência do seu senhor - as missões no norte eram para todos -, lá estava ela estendida na areia da praia, expondo os atributos carnais ao sol guloso. Mas há sempre os gaviões fora de época; e mais galante, jocoso e atrevido, a arrastar a asa, despertou aquela graciosa beldade.

 

 

     Entre duas missões no norte, o Asdrúbal de porte emproado, esmerava-se na apresentação da cidade à divinal esposa. Eram petiscadas de camarão grelhado, galinha à cafreal, vinho do puto bem fresquinho. Nada podia faltar aos seus paladares. Mas, dias de praia nada; temia que outros olhos beliscassem a pele delicada da menina.

     Poucos meses passaram até que a normalidade se adulterou, com as idas à praia. Umas vezes com mais recato, outras vezes sempre em frente; o galante marmanjo começou a visitar a casa da Gracinda, saindo só de madrugada! Não tardou a que, os murmúrios de ouvido a ouvida, passassem a comentários descarados sobre o as pulhices da jovem adúltera. Claro que nem todos os comentários vinham de gente boa, até alguns com dor de cotovelo; porque, as dores de corno eram para o outro que andava um mês a comer as rações de combate fornecidas pela manutenção militar.

     Como uma fatalidade nunca vem só, passados três meses, o destino deu-lhe a patada fatal. O Asdrúbal, definitivamente, deixou de sonhar... ao pisar uma mina, voou pelos ares das matas de Cabo Delgado, ficando com o corpo em frangalhos. A morte não engana ninguém, porque não se apalpa nem se vê. Se calhar, sentiu-se bem ao palpar a mulher que amava, sem nunca saber que ela já o enganara. Entre o ser e o parecer, há um espaço abismal. E nem tudo o que parece é!

Logo que a notícia chegou à messe, deixou os amigos do Asdrúbal em choque. Que sorte danada a do nosso Asdrúbal, dizia o Martins. O comandante chamou dois dos amigos mais chegados, para darem a triste notícia à viúva. Os solteiros eram sempre escolhidos para tal missão. O silêncio redime os mensageiros das histórias que se ouviam sobre o comportamento da senhora. Ainda no mesmo dia, já tarde, lá estavam a bater à porta da viúva; o Serôdio deu dois passos atrás, talvez não se sentisse capaz de dar uma notícia tão inesperada e brutal. Ela apareceu sorridente, perante os dois amigos do defunto. Escolheram as palavras certas e falaram, que não queriam atormentar, que pode acontecer a qualquer um... bem, o Asdrúbal morreu. Teve o azar de pisar uma mina e morreu!

     Os minutos seguintes foram desconcertantes; ninguém sabia o que dizer, e um diálogo maluco enfatizou o Serôdio, que tinha grande estima pelo seu conterrâneo. A viuvinha chorosa só perguntou:

     - Quando é que o corpo vai para a metrópole? O que é que tenho de fazer para ter direito à pensão?

     Como mandam as normas militares, tem cinco dias para preparar as trouxas, resolver os assuntos que tenha em Moçambique e regressar à metrópole. Enquanto isso, alguém, do Conselho Administrativo, há-de falar consigo sobre dinheiro e outras coisas afins.

     Mas ela não queria aceitar tal decisão. Tentou continuar a viver na Beira, atrasando o embarque para a metrópole. Mas a tropa é uma coisa surda e abstracta. Não atendeu as pretensões da viúva, para continuar em Moçambique. E lá embarcou, com direito a pensão de sangue.

 

 

 

 

 


 

 

 

Beira - No CALOR da NOITE...

 

     As noitadas nas dunas da praia do Macuti eram um escape para os dias passados nas brenhas do Norte, jogando às escondidas com a morte. Já passava das dez da noite quando duas jovens vizinhas davam largas ao seu contentamento, passavam frente ao mar em trejeitos de gozo encavalitado no modo como apalpavam as mamas uma à outra. Seria provocação ou um convite à entrada na brincadeira?

     Sem grande dificuldade, o Figueiredo conheceu a Márcia como sendo a namorada do Vilela. Era já conhecido aquele namoro estarrecido, tal o envolvimento dos dois. A Márcia amava muito o Vilela, mas esquecia-se de afiançar o corpo e os sentidos à casualidade do destino que o atirava todos os meses para o meio das matas perigosas de Cabo delgado... e ao quinto mês, o seu amado não voltou ao seus braços. Ela não se importava que ele viesse mais magrinho, com os olhos ancorados nos rigores da savana. Ela só queria sentir o calor do seu corpo moreno... Mas o Vilela ficou despedaçado nos trilhos de Diaca; mesmo junto da “curva da morte”. Os estilhaços da mina violentaram o seu corpo sem piedade, mandando-o para o caixão dos defuntos.

    Desiludida, perdida na contemplação da beleza do corpo que se amofinava a olhos vistos, facilmente entrava no jogo lascivo, deixando de lado as festas compartilhadas com os amigos de ambos. Perdido o interesse pelas coisas sérias da vida, temia sofrer outros reveses.

     Ao escurecer, as luzes da igreja do Macuti espalhavam um raio luminoso até às dunas da praia, onde aquelas duas desatinadas convidavam ao abandono das regras instituídas e estendiam a mão e o corpo para que a vida continuasse em frente...

     A abordagem foi bem aceite e veio como uma dádiva dos deuses! A Márcia gostava de ser cortejada, mas a amiga não lhe ficava a trás. Aproveitando a festa de anos duma vizinha, os dois casais improvisados dançaram emocionados com o reencontro dos desejos lúbricos. Mais emocionada, a Márcia entregava-se ao contacto dos corpos em posições embaraçosas. A dona da casa não tirava os olhos daquele par de pombinhos tão enternecidos e esquecidos das inconveniências... Os corpos bem cingidos, contorciam-se mansamente, enquanto as palavras ao ouvido a deixavam inebriante.

     Passadas duas semanas, as noitadas eram o seu divertimento, em prejuízo da sua reputação. A Márcia pouco se importava que a D. Arminda refilasse por causa da posição do corpo que se abria sobre a perna direita do rapaz. Em vez de ficar nervosa, ria à gargalhada e tomava posições extravagantes, de tal forma que esteve sob a ameaça de que a continuar naqueles propósitos obscenos não seria mais aceite naquela casa. E mais: se continuasse assim, seria posta porta fora...

    A Márcia só queria divertir-se, arrastando a miga com ela. Alinhava nos banhos nocturnos, seguindo-se uma sessão de amor sem limitações! A Márcia era assim, queria recuperar a vida. Em determinada noite, durante o apalpa e pum, já ninguém sabia em que corpo se afundava, nem leme manobrava; foi o auge da confusão. Os gemidos eram tão ousados e ruidosos que despertaram o padre da Igreja do Macuti, que dormia a poucos metros. Até o Figueiredo deu um grave aviso: “Quem é que me pôs a mão no cu?”  Depois da servidão, a passagem pelas brandas ondas era obrigatória. No final, todos se sentavam no paredão até os corpos secarem. A Márcia continuou a divertir-se, mesmo quando nos embrenhávamos nas matas do Norte, mantidos a rações de combate. Nos momentos de esmorecimento, recordava a aquela alegre vagabunda chamada Márcia. Ajudava a vencer o tempo nos rigores da guerra.              

 

  

 

 

 


 

 

 

ACORDAR FELIZ... em Macomia

 

     Acordei contente por ver que o mundo está mais feliz. Pois, no decorrer dos trabalhos do Concílio convocado em 1962, o Papa João XXXIII aprovou a Encíclica sobre a paz social no mundo. A felicidade pode vir dum sinal dos deuses. Mas também pode estar num gesto de partilha, num abraço desprendido.

     Olhei o horizonte e vi que vou ter um dia feliz... vi o capim como se fosse uma seara! De todas as pessoas que encontrei não vi um sinal de inveja, de loucura. Eu acordei há poucos minutos num mundo de paz, onde as máquinas servem para criar bens que nos ajudam a ser felizes... Não vi carros de combate, nem metralhadoras. As brechas abertas na terra são para as condutas das águas para as torneiras da civilização; são para melhorar as estradas que facilitam a passagem para confraternizar com os nossos amigos, com os outros povos.

Também não vi sulcos nem terra esventrada pela força das minas e dos fornilhos. Não vi lá corpos esfacelados, esfrangalhados ou esburacados; tampouco vi viaturas em fanicos, queimadas.

     Definitivamente, acordei dum sonho profundo, lindo. Começo a viver o sofrimento dos dias trágicos da guerra. Eu acordei longe, muito longe... em África!

 

 

 

   DEVANEIOS NO ÍNDICO

 

Hoje olhei o Índico transparente

       apeteceu-me

procurar as coordenadas do teu coração

apontar no mapa, indiferente,

       pareceu-me

vislumbrar o caminho na tua direcção.

 

Já Mocímboa fica no horizonte

       distante

e a tua formosa imagem se reflecte

no céu que fica de fronte

       equidistante

do caminho de Mueda, que se repete.

 

Divagando, vou pintando a alma

       multicolor

para que o tempo me seja breve

com suaves tons de calma

       amor

a condizer com o que se escreve.

     

       Diaca, Outubro de 1966

 

 

 

 


 

  

 

A FESTA SEM “CABAÇO” - Mucojo

 

     Os dias de paragem na povoação do Mucojo, depois da missão às savanas de Quiterajo, ajudaram a recuperar forças; porque a seguir vinham as missões na Serra do Mapé. Cada um à sua maneira, aproveitava as belas praias e o peixe que os indígenas pescavam com as suas lanças afiadas. Lagostas a "doze e quinhenta2 cada peça, não havia em mais nenhum lado. E o camarão, nem se fala!

     Pouco mais de cinquenta indígenas vivem na aldeia, em palhotas construídas encostadas aos coqueiros que ornamentam a longa enseada, paredes-meias com um destacamento de trinta homens do Exército. Apesar dos longos períodos de fome sexual, ninguém ousava engalfinhar-se com as nativas que, com um sorriso largo e espalhafatoso, rondavam os tabiques das instalações do destacamento do Exército onde, delicadamente, estendiam uma lata já desgastada para pedir comida.

     Desconfiado, o sargento Roger avançou no reconhecimento, com probabilidades de um contacto íntimo. Homem recatado, discreto, passeava-se no meio das palhotas conduzido por algum misterioso desejo... o cheiro da catinga não parecia incomodá-lo! Duas semanas longe da civilização reduziram a sua aridez perante a presença dos nativos, porque as meninas da Beira estavam muito longe... para lhe poder aliviar os colhões; e ele temia explodir a qualquer momento! Meia hora a vaguear no meio das palhotas de adobe, foi quanto bastou para chegar à fala com uma mulher de meia-idade, perguntando como podia comprar um cabaço... para dinamitar! Sim, comprar um cabaço, coisa boa p’ra caramba! Já ouvira falar nesse negócio em Nacala; e, ao ver tanta limpeza nas palhotas, a ocasião parecia fazer o ladrão. 

 

 

 

     As moçoilas de estranhos e inquietos olhares, nem se aperceberam que aquela figura vestida de camuflado ocultava um homem esfomeado de mulher, e estava ali numa atitude de caçador provocante e devorador. O sargento Roger mais se inquietou ao ouvir o praguejar do Chefe da aldeia que saiu da palhota e foi na sua direcção... forçando-o a dar dois passos atrás e deitar a mão direita à pistola que trazia à cintura, qual estilo de cowboy a prepara-se para a liça. Um murmúrio de espanto varreu a sanzala e o homem Chefe do povo fez um gesto de apaziguamento, erguendo as mãos para as alturas. O sargento Roger, mantendo a mão na arma, aproveitou para dizer o que queria:

     - Sô Chefe, eu querer comprar cabaço de menina bonita desta sanzala. Assim, fazer máquina, bué? 

     O chefe de posto largou algumas palavras azedas, que o sargento não percebeu; pensativo e olhando os coqueiros, fez alguns gestos para as moçoilas que logo se acoitaram nas respectivas palhotas, e um silêncio imprevisto, misturou-se com a penumbra do lusco-fusco que se apresentava à hora certa.

     - Sô sargento, se dá vinte e cinco escudos e quinhenta, três peças de “água de Lisboa” e cinco latas de comida, tem festa mesmo. Muito festa, sim.         

Nem deixou o sargento pensar. Bateu as palmas a praguejar, logo as meninas saíram para fora das palhotas, melhorando a ornamentação do terreiro. Numa grande algazarra, aconchegavam a garrida capulana ao corpo vistoso e sorriam envergonhadas. O sargento Roger, sem perceber muito bem a resposta, com um gesto largo e olhar radioso, concordou com o pedido do Chefe do povo; olhou em redor e procurou a saída em direcção ao aquartelamento do Exército, onde chegou aluado, com um estranho brilho nos olhos!

     - Soldado Patrício, dá-me uma ajuda, para levar umas coisas, - reclamou o sargento virado para o faxina.

     Foi à viatura dos víveres da cozinha; aprontou os produtos para satisfazer o contrato e, com a cumplicidade dos faxinas da cozinha, dirigiu-se para as palhotas. Tal era a vontade de renovar o óleo que nem deu conta da quantidade de gente que o observava. Na sanzala, já havia batuques e a festa animava.

     Dissipados os receios do peso na consciência, o sargento Roger mirou e olhou as cinco negrinhas que ali se dispunham com a tese polida, onde ele pensava encontrar as carnes tenras que lhe animassem o ego e a razão da sobrevivência nos dias perdidos... Recebidos os bens, o chefe da aldeia logo indicou qual a palhota preparada para o grande momento da desfloração, e o sargento entrou nela atrás da sua eleita para aquele acto de devassidão. Lá dentro estava uma outra mulher mais velha, uma esteira bem ornamentada e um odor agradável! O sargento, meio desconfiado, veio à porta e perguntou, intrigado:

     - Sô Chefe, como é? Escolhi uma mulher e estão lá duas!      

     - Não há problema. A outra é o troco, ajuda a fazer máquina.

     No largo da aldeia, mal se vislumbrava alguma claridade, onde os familiares da escolhida para o cerimonial da devassa faziam a festa, bebiam pelo garrafão e comiam alguns petiscos. Dentro da palhota, o Roger, ainda vestido de camuflado, observava o ritual da purificação das carnes: o “troco” besuntava com óleos perfumados o sexo da menina disposta a absorver as dores da alma daquele homem que se debatia com as acusações da consciência. Homem de aprumado sentido do dever, difusor de culturas, comprometido segundo os trâmites da sociedade, vê-se ali disposto a subverter todas as elementares regras por que tanto se tem empenhado! Olhava para ela e sorria afável. Pediu para a outra sair da palhota. Dentro dele, sentiu o impulso do instrumento daquela profanação. Ela, sem se incomodar com o barulho da festa exterior, levantou-se lentamente e deitou a mão às ferramentas do Roger e exclamava baixinho:

     - Tem que estar forte p’ra fazer máquina bem... - e fez-lhe cócegas no peito nu.  

Estranhamente, ele apertou-lhe os seios e deixou descair a mão, mansamente sobre a carapinha da púbis da menina. A algazarra da festa chegava ao aquartelamento da tropa, onde se faziam apostas em como o fulcro da festa era o sargento Roger. Vários pára-quedistas satisfizeram a curiosidade e juntaram-se na dança da “marrabenta” bem sincopada. Inesperadamente, o sargento Roger saiu da palhota, em passo rápido na direcção do acampamento. Deixou a porta da palhota escancarada e a menina abatida e triste de olhos enevoados. Cautelosos, os subordinados comentaram em surdina:

     - Que chatice, o sargento vai mal disposto, nem liga à tropa... – diz um soldado.

     - Quem diria, o sargento Roger a afocinhar no meio dos pretos, sem qualquer privacidade! O homem deve estar mesmo pirado – diz o Gil.

     - Deixa lá isso, que a gaja até é boazona; e em tempo de guerra não se limpam armas! – comentou o Ferreira.

     Toda a gente recolheu ao aquartelamento, mas a festa continuou noite dentro. No dia seguinte, o sargento Roger desabafou com os seus amigos:

     - A necessidade aguça o engenho, sabeis como é... A miúda até puxou por mim, mas tive um rebate de consciência e fiquei paralisado, até indignado com a minha indignação. Se calhar a gaja já nem tinha cabaço e eu ali armado em parvo.  

     Os silêncios que se desenvolvem nos sonhos oprimidos podem conter as euforias dos desejos, mas a lucidez mantém-se diante dos olhos encravados nos rostos límpidos de bocas fechadas e gargantas apagadas - ideias projectadas na espiral do movimento dos injustiçados. A ironia das bocas silenciadas tem a força das palavras ácidas e perfurantes donde se vislumbram claros focos de silêncios inconformados. A lucidez dos sonhos projecta-se na verdade dos desejos contidos pela brutalidade da opressão, mas o sonho é imparável enquanto a ideia toma força.

 

 

 

 

 

          MUCOJO

 

As águas caprichosas do Índico

refletem as nuvens repousantes

que serpenteiam nas ondas

onde navegam os sonhos

dos pescadores de marisco

embarcados nas pirogas de Mucojo

 

vivem a alegria da fartura

que uma tarde fértil em pescado

lhes alimenta as famílias

e o deslumbrante contentamento

incendeia o batuque na aldeia

 

as lagostas espetadas na ponta da lança

são o testemunho da festa nas palhotas

onde as mulheres cantam e riem

rodeadas pelos maridos atentos

que lhes prometem vistosas capulanas

em troca de outros favores…

o melhor do pescado valioso

é vendido aos militares sitiados

em troca de arroz e algum vinho

que adormece os descuidados…

enquanto dançam à volta das fogueiras

outros profanam o seu ninho

à revelia dos amantes na esteira.

 

 

 


 

 

 

Macomia - QUERIAS CAMARÃO?

 

     Com o pessoal em operações bem reabastecido, o vague-mestre aproveitou a presença da Dornier, que ia levar o correio a Quiterajo e Mucojo, para uma missão extra. Os pilotos de Dornier e dos helicópteros, que passam a maior parte do tempo em voos baixos, onde sofrem os rigores do calor, no intervalo entre os reabastecimentos, aproveitam a fonte de Macomia para tomarem uns banhos e refrescarem a alma. É uma malta desprendida e prestável, incapaz de recusar alguns pedidos, às vezes exóticos!

     Foi o caso do primeiro-sargento piloto Ribeiro que aceitou a ideia do vague-mestre para comprar camarões aos pescadores pretos. O voo razante às árvores, para evitar que o inimigo aviste o avião ao longe e prepare os ataques, demorou poucos minutos até ao Quiterajo. Depois, sobrevoou os coqueiros que se elevam ao longo das areias da costa, até aterrar em Mucojo, terra de bom peixe e marisco! Uma passagem em voo baixo avisa os componentes do pelotão lá aquartelado para montarem segurança à pista. Mal o piloto parou o motor, foi logo abordado pelo tenente que pedia “por tudo” para evacuar um capitão que veio de viatura desde Quiterajo e que estava bastante doente. Apresentado o capitão, com o corpo coberto de nódoas, o piloto olhou-o de cima a baixo e desabafou:

     - Porra! Vem um marciano procurar camarão e encontra um doente atacado por uma intoxicação de marisco!

     Antes que se faça tarde, que a noite vem a caminho, o tenente ajudou a instalar o capitão sentado no chão da carlinga do aviãozito. Ao sentar-se aos comandos, o sargento Ribeiro diz:

     - Ó Botelho, fecha lá a porta e vamos à vida que o camarão já está do lado do inimigo.

     O capitão com cara de enterro, só queria chegar vivo ao hospital de Porto Amélia. Nem se despediu do pessoal do Mucojo, onde foi ao encontro do grave problema que o fará enjoar o camarão. Todos os participantes na inesperada viagem renegaram a hora em que pensaram ir buscar camarão!

 

 

 

 

 

    CAVALEIROS DOS CÉUS

 

Os briosos cavaleiro dos céus

- para cujo saber não há labéus,

voando nos aviões barulhentos,

sempre ao sabor do azimute,

em voos suaves ou turbulentos,

a sua audácia não se discute.

 

   Mesmo correndo graves perigos,

   enquanto olham pelos postigos,

   prestam serviços fundamentais

   aos que sofrem as agruras da guerra

   e palmilham os caminhos infernais

   para segurança das pistas em terra.

 

Bravos pilotos, em voo sobre as savanas,

transportam as boas notícias mundanas

e os alimentos que já escasseiam...

sempre prontos, no perigo e na missão,

nas ondas do vento se balanceiam

atentos aos instrumentos do seu avião.

 

São homens... heróis lá das alturas,

que nos merecem eterna gratidão;

ajudam a minorar as amarguras

dos soldados que vivem no sertão.

 

      Macomia, Abril de 1967 

 

 

 

 


 

 

 

EIS AS GUERRAS

 

     Não perguntem porque ando na guerra. Talvez, porque fui empurrado para a guerra. Mas poderia responder com mais convicção: estou envolvido em várias guerras, porque o meu combate não tem fronteiras! Se conseguirei acabar com as guerras? Pelo menos, tento acabar com o obscurantismo que empobrece os meus compatriotas.

     Muitos morreram entre as matas e savanas, sem saberem o que é a guerra!

     Os acontecimentos que deram origem às guerras, nos territórios de Angola, Guiné e Moçambique, são desconhecidos da grande maioria dos jovens mobilizados para enfrentar condições de vida jamais imaginadas por qualquer cidadão nascido no Portugal da pasmaceira, onde nada acontece de relevância.

     A entrada nas zonas de operações militares é um acontecimento que espanta os menos prevenidos e não mostra os reais perigos que isso representa. E quando as balas inimigas dilaceram os corpos e matam os combatentes improvisados, tudo se modifica na mente destes jovens novatos.

     Ao conhecer este drama com mais rigor e sapiência, não posso deixar de relembrar aqueles que vão deixando o seu sangue nas matas e nas picadas onde a guerra os aniquilou; seria uma traição esquecer os nossos companheiros que morrem sem saberem o que é a Pátria.

 

     Não sei qual é a guerra dos que escreveram nas “ÁGUIAS DO NIASSA”:

     “Viagens dantescas, cuja história ainda está por fazer, são os colonos através do mato. Como esta, muitas outras se realizaram. São a razão da nossa subsistência. Seriam impossíveis não fossem os verdes anos da nossa heróica juventude e o seu elevado espírito de sacrifício.

Picadas manchadas de sangue dos nossos valorosos soldados. Picadas regadas com suor dos seus rostos. Picadas que conduzem à Glória.”

     Espero que tenham regressado todos...

 

 

 

 

 

       ESPÍRITOS  AMORFOS

 

Vejo a locomotiva do tempo inanimada

do seu movimento dinâmico para o mundo

    carregada com as mais novas ideias...

    autónomas convicções, sem as peias

    que atrofiam as nobres decisões.

 

É um movimento que se vislumbra

como alimento dos seres pensantes...

   é a chama do nosso empenho

   na eliminação da nefasta sombra

   que limita as carências de liberdade.

 

Jamais a locomotiva ficará imóvel...

enquanto houver fogo que alimente

este nobre despontar da vontade

que incendeia os espíritos amorfos

e acalenta os sonhos de muita gente.

 

Os poderes incapazes de renovação

intoxicam com venenosas mentiras;

desbaratam os parcos bens da nação

e atiram-nos para aqui amargurados,

deixando os mortos abandonados...

 

Sinto um forte desejo de avançar

em busca da verdade libertadora

enquanto ainda há forças para lutar

contra a derrocada comprometedora.

 

  Somos combatentes bem preparados

  conscientes da nossa capacidade,

  não vamos ficar quietos,  paralisados

  perante a evidente atrocidade.

 

É necessário e urgente o combate,

antes que a locomotiva em derrapagem

nos consuma a energia do resgate

e nos deixe trucidar na engrenagem.

 

                 Beira, Janeiro de 1968

 

 


Comentários e sugestões para:  jota_coelho@netcabo.pt
Ver informações no Blog: micaias.blogs.sapo.pt
Ver vídeos no blog: ultramarlembrar.blogspot.com