Muidumbe - OS FRACASSOS das INFORMAÇÕES
Os serviços de informações funcionavam mal. Depois de vinte e dois dias à caça do Lázaro Kavandame e do seu povo a sul de Mutamba, a incorporação de três companhias de tropas especiais no assalto a um acampamento vazio veio confirmar que as missões planeadas com base nas informações da Pide só davam fiasco. Foram dias e dias embrenhados no mato, em caminhadas longas, com grande desgaste físico e psicológico, para resultados incipientes, mas que causaram baixas às tropas.
Isto de entrar na mata sem a convicção de que o rascunho topográfico do terreno ou as fotografias aéreas indicavam, realmente, locais de acampamentos da Frelimo, tem sido um exercício de pura estupidez. E quando os planos das missões se fundamentam nas informações recolhidas durante os interrogatórios aos prisioneiros, a verdade encontrada no terreno é um embuste que ninguém quer denunciar. Evidentemente que os prisioneiros, apertados sobre a pressão do açoite e do garrote no pescoço, raramente dizem alguma verdade. Muito menos essa pressão resulta com guerrilheiros conhecedores dos direitos abrangidos pelas Convenções de Genebra, como foi o caso daquele chefe de grupo que, ao levantar os braços sob a ameaça das armas, se exprimiu claramente: “camarada, a gente da Frelimo cumpre as regras das Convenções de Genebra para os prisioneiros!”
O capitão, com as cartas topográficas da zona de Muidumbe na mão, convocou os oficiais e os sargentos para o “breefing” preparativo da missão. Estendendo a carta em cima dum bidão ali mesmo ao lado da camarata de segurança, falou para os seus assessores:
- Vamos passar a zona mais complicada do planalto dos Macondes; talvez o ponto nevrálgico da passagem do reabastecimento do norte para sul do rio Messalo. Aponta os locais onde os pára-quedistas permanecerão duas semanas em missões de assalto, emboscadas e batidas na mata.
As marcas riscadas na carta definiam o triângulo entre Nangololo, Muatide, Muidumbe, até à confluência do rio Messalo e foz do rio Muera. As informações referiam a existências de acampamentos dos guerrilheiros nas proximidades da lagoa do Nango. Já lá vão seis meses, desde que o pelotão de escolta às viaturas, que transportaram os pára-quedistas para o vale de Miteda, a norte de Muatide, fora atacado, ao regressar à base de Miteda, sofrendo dois mortos e cinco feridos.
- Meus senhores, toca a entrar para as viaturas que nos vão deixar uns quilómetros adiante de Nangololo. – ordenou o capitão.
A neblina da manhã ainda encobria o acampamento e não deixava, sequer, descortinar a pista de aviação situada a cinquenta metros. Ordenadamente, o embarque foi feito por secções em seis Unimogs e três Berliets. Os apetrechos da cozinha seguiam na Bertlit da frente, que servia de rebenta minas. Como precaução, nos pontos considerados mais perigosos, passou para a frente da coluna um pelotão apeado, com a finalidade de detectar minas ou inimigos emboscados. É um factor de segurança que tem dado bons resultados em itinerários onde os guerrilheiros atacam as colunas de reabastecimento do exército.

Três horas passadas e já se avistava a igreja de Nangololo, ponto bem destacado no meio das brenhas do planalto. A tropa ali estacionada deu largas ao seu contentamento por ver chegar os pára-quedistas. O contentamento foi tal que todo o pessoal, afoito, ajudou na descarga dos produtos alimentares para consumo dos sitiados naquela povoação. Mas o local de intervenção dos pára-quedistas era lá mais à frente; e a viagem continuava dentro da normalidade, quando o barulho forte dum avião a baixa altitude despertou a curiosidade do pessoal. O capitão entrou em contacto rádio:
- Ronco, aqui Leão. Informe se estamos próximos do ponto Zero, escuto.
A coluna parada e o sol a queimar os vestígios de civilização que ainda persistiam em permanecer na cabeça daqueles soldados atirados para as missões mais difíceis de Cabo Delgado, desagradou ao pessoal. O cabo Fialho deixou transparecer o seu comentário irónico:
- Agora que a malta já se estava a preparar para passar aqui umas férias de encantar, aparece este gajo a indicar aos turras a nossa posição! Se fosse largar umas bojardas em cima dos ditos acampamentos da Frelimo é que ele nos dava uma boa ajuda.
O avião T-6 deu mais duas voltas por baixo das nuvens em forma de algodão estirado, enquanto o capitão perdia as últimas reservas de paciência; já zangado, reclamava:
- Ronco, Ronco, diga se nossa posição está perto ponto zero!
Um ruído esquisito no rádio e logo o Ronco respondeu:
- Leão, afirmativo, afirmativo; ponto zero a quinhentos metros... mas há alteração de planos... alteração de planos, repetiu. Leão vai continuar para Muidumbe; repito: Muibumbe.
- Ronco, entendido; ponto zero passa para Muidumbe.
Mais alguns quilómetros de marcha debaixo dos rigores do sol e o pelotão de reconhecimento detectou um grupo de sete guerrilheiros a prepararem uma emboscada. O sargento Brochado deu o sinal de envolvimento, o pessoal corre em ziguezague, por entre as brenhas, e foram flagelados com rajadas de metralhadora. Num ápice, as viaturas ficaram desertas e os pára-quedistas procuraram no chão os melhores locais de abrigo, enquanto as secções da frente tentavam deter alguns guerrilheiros. Por sorte, a secção do Figueiredo estava bem posicionada e atingiu dois inimigos que fugiam por uma picada em direcção à mata. Dando cobertura ao resto do pelotão, mais vinte pára-quedistas entraram na zona de capim entremeado de brenhas, batendo uma área superior a dois campos de futebol. O pessoal da retaguarda fez de tampão para evitar fugas dos turras.
- Eh meu capitão, estão aqui dois gajos escondidos, - grita o soldado Porto que, de arma apontada, logo secundado por mais cinco companheiros, obrigando os guerrilheiros a sair dum buraco camuflado no meio da brenha.
- Coitados dos desgraçados que largam sangue por todos os lados, - comenta o Teixeira.
- Desgraçados o caraças, que só não nos tramaram porque abrimos fogo primeiro, senão... - refilou o Porto.
Os prisioneiros, amparados pelos soldados da secção do Figueiredo, foram conduzidos até à picada; mal podiam andar, engolindo as suas dores sem um gemido perceptível. O sangue continuava a escorrer pelo tronco, as fardas ensopadas davam o sinal de hemorragias graves. O capitão mandou deitá-los na frente da primeira Berliet. O sargento enfermeiro Armindo fez uma avaliação dos ferimentos, torceu o nariz, olhou para o capitão e, desapontado por nada poder fazer, disse:
- Nenhum deles se safa. Não temos maneira de os salvar.
O Porto deu o seu palpite:
- Passa-se a Berliet por cima dos gajos e fica o assunto já resolvido.
- Não é bem assim. Ponham os homens ali na sombra daqueles arbustos. Pode ser que os outros os venham procurar.
A coluna seguiu o seu percurso, com redobrada precaução, até Muidumbe, onde chegou ao fim da tarde. Foi com espanto que o pessoal do exército lá estacionado recebeu os pára-quedistas. Logo ajudaram a localizar as latrinas e os improvisados bidões que serviam para tomar duche. Misturados no meio dos recém-chegados, procuraram conterrâneos, que não encontraram na companhia. Com alguma conversa pelo meio, os pára-quedistas foram descarregando os alimentos, bem como as panelas e acessórios das cozinhas... que ficaram bem acondicionados em locar previamente indicado pelo tenente responsável do destacamento.
Ali esperaram um dia naquela “estância de veraneio”, como dizia o Fialho. Deu para preparar as mochilas para a primeira missão, que arrancaria de amanhã bem cedo. Foi batida a zona baixa em direcção à lagoa do Nango, com base nas informações recolhidas a prisioneiros da Frelimo. Saíram dois pelotões, ficando um de reserva por cada missão. Seis carregadores de munições e duas granadas ofensivas por cada homem, eram a reserva beligerante; uma manta para dormir, rações de combate para três dias e um cantil de água eram os meios acessórios para aguentar a difícil missão.
- Terceiro pelotão na frente da coluna, - ordenou o capitão.
O pessoal logo se movimentou para formar a fila de pirilau que seguiu à procura dos acampamentos referenciados nas fotografias aéreas. Pouco gente acreditava na actualidade das fotografias e nas distâncias de referência; mas as quatro horas de marcha cuidadosa, decorreram sem percalços. O roncar de dois aviões T-6 a pouca altitude causou alguma apreensão. Apareceram na pior altura! Mesmo quando o grupo da frente fazia a aproximação a um dos locais referenciados. Seguiram o seu rumo para sul. A coluna continuou em progressão lenta no meio da brenha, de quando em vez, as ramagens quebravam o silêncio com prejuízo para um possível ataque de surpresa. A secção da frente detectou os primeiros sinais de grande desgaste nos trilhos. O capitão mandou parar. Orientou a carta topográfica com as fotografias aéreas, e confirmou o que parecia ser evidente:
- Estamos na zona. O trilho é aquele para sul, mas muito cuidado com as armadilhas. Vamos a corta-mato, enquanto for possível.

Os da frente avistaram as primeiras palhotas e deram o sinal. Todos pararam para preparar o consequente golpe-de-mão. Não poderia haver falhas, porque a coisa prometia muito granel. O terceiro pelotão fez o envolvimento e posicionou-se nos dois flancos, enquanto o segundo pelotão foi ao assalto. Entraram de rompante e revistaram as quatro palhotas. Quase se adivinhava o fracasso da missão. Apenas uma velha, uma mulher e uma criança foram encontradas. E, para aumentar a raiva dos pára-quedistas envolvidos, o estampido de vários tiros de kalach, disparados a uma distância razoável, obrigaram o pessoal a comer o pó dos trilhos onde se lançaram ao chão. A partir dali não iriam deixar de chatear a tropa, como era habitual!
Caminhos de MITEDA
Os meus companheiros
morrem às balas dos inimigos
que determinam a nossa sorte
neste impasse que me inquieta
com um rasto de morte
que enlouquece
e arrasta no silêncio
dos caminhos de Muidumbe
é um fogo que desvanece
o fulgor desta pátria
que somos nós…
um grito amargurado
comprime-se na voz
de cada soldado
apertado nesta desventura
esconjuro p’ra nunca mais
com palavras ácidas
os que não querem
entender os sinais
tumultuosos da derrocada…
APANHADOS NA CAMA DO INIMIGO! - Mueda
A deserção do cabo condutor Totobola deixou marcas profundas na cabeça do comandante do Batalhão de Mueda. Os sintomas dessa inquietação são notáveis no seu comportamento e na desconfiança que denota perante o pessoal da guarnição. Pois, o cabo era o seu condutor preferido, acompanhava-o nas poucas saídas do aquartelamento e até lhe arranjava uns petiscos. Como é que um companheiro dilecto podia desertar para o inimigo e ser convidado para deitar fala na Radio Tanganica, dois dias depois da fuga?. «O gajo tinha tudo planeado com os inimigos, “amigos dele”, porque só assim teria transporte assegurado até às bases da Frelimo», matutava o comandante. Ninguém entende a razão da deserção do cabo Totoloto, o que causa estranheza; talvez, para impressionar os seus novos patrões, lançou um rosário de queixas contra as autoridades portuguesas. Por essas e por outras é que o comandante ficou tão abelhudo!
O homem andava desconfiado e devia dormir mal. Sempre que uma companhia de tropas especiais estacionasse em Mueda, lá está ele a convencer os respectivos comandantes para fazerem uma incursão de controlo na sanzala. As coisas nem sempre corriam bem… e, de tempos a tempos, lá estavam os Fuzileiros, os Comandos ou os Pára-quedistas a cumprir a ordem do senhor comandante do Batalhão de Mueda.
Em determinada noite, calhou a vez aos pára-quedistas. Os preparativos feitos com cuidado, para não levantar suspeitas, resultaram com sucesso. A partir das duas horas da manhã, quando todo o povo descansava no silêncio das palhotas, uma companhia avançou para os pontos de controlo, dois pelotões a fazer o cerco e segurança exterior e três secções na busca às palhotas. Foi uma missão com algum custo em termos de humanismo, porque nem todos gostam de fazer sair das palhotas os velhos e as mulheres com crianças a chorar. O controlo foi bastante moroso, uma vez que lá vivem alguns milhares de pessoas. Mais tarde apresentou-se no local o chefe de posto e o Régulo do povo, os quais ajudaram a identificar muitos dos homens que os militares haviam mandado sentar fora das palhotas; os mais suspeitos eram conduzidos para o largo situado no meio da povoação.
Além de serem detidos seis pretos para interrogatório, a cargo dos agentes da Pide, foram encontrados quatro militares do Batalhão a dormir “na cama com o inimigo”! Uma bronca dos diabos... obrigar os infractores a sair das palhotas com as calças na mão, perante os comentários de alguns colegas que também faziam parte do grupo de controlo, deixou os ditos um bocado envergonhados. E mais quando algumas das meninas sussurram ao ouvido dos tropas:
- Ué! Tu me quer no fazer máquina?
Mas a moça nem obteve resposta, tal era a confusão.
Acabada a festa do controlo, já para alem das cinco horas da madrugada, alguns dos militares do batalhão aproveitaram o reconhecimento e os convites à “máquina”, com o local bem referenciado, voltaram à povoação já a manhã começava a clarear.
O cabo Pica e o soldado Carvalho, dois rufias bem conhecidos do pessoal, são dos que vão acabar por fazer as pazes com as moçoilas. O cabo, de físico farto, envolve a moça nos braços musculados, mas ela aflita, quer antes preparar a esteira e berra:
- O coiso está duro, ué... – gemeu, descurpa sô tropa.
Ele espalha umas gotas de "after shave" no corpo lustroso da preta e estende-a na esteira dura.
- Está no ir, Joana. – gritou, ao tentar dominar a gazela.
Nem se deu conta de escorregar no meio das pernas da Joana. Assim desaguou com um delírio que desnudou a penumbra da palhota. Até podia ser uma espelunca, mas tal era o estremecimento telúrico que nem se deu conta que no quartel já o clarim tocava a alvorada.
Durante o dia, as tropas confraternizam na cantina do china, mesmo ali à entrada da pista de Mueda. Há muita confusão e os turras aproveitam para comprar alguns bens que levam para a mata. Tudo se sabe mas ninguém faz nada para manter boas relações de proximidade e sobrevivência. É ali que se fazem contratos de fornicadela ao anoitecer. Coisa costumeira para aquela malta do batalhão de Mueda. Os perigos são evidentes mas ninguém se preocupa, porque a descarga é urgente. Os maridos que ainda permanecem na sanzala (muitos estão na guerrilha) desconfiam e dão palpites:
- Ela está com o inimigo dentro dela... os tropas fazer mwana (filhos) nas nossas mulheres... e nós não querer mwana de mulungo (branco), nem parece africano aquele filho! As mulher rir muito quando está foder com os tropa...

MOMENTOS DE LOUCURA – de Mucojo a Macomia
Sem esperança, o corpo esfacelado, perdendo sangue em lufadas de vida, pernas desfeitas e presas na carlinga da avioneta partida, ainda fumegante, devido ao embate contra as esguias árvores do fundo da curta e improvisada pista, o piloto estava uma lástima.
Com uma coragem que só pilotos portugueses demonstravam ao aterrarem em locais que nem o diabo queria, este jovem tenente, mal deixou as rações de combate para reabastecer a tropa em operações, logo tentou descolar para voar outras paragens mais seguras. O infortúnio não deixou que a Dornier ganhasse velocidade suficiente para levantar voo e seguir ao seu destino! Pista pequena e terra irregular foram as condições para o trágico acontecimento. Depois de bater nas árvores e partir a fuselagem, estatelou-se no chão, ali mesmo em frente aos nossos olhos. O motor entrou dentro da carlinga e esmagou as pernas do piloto.
Tentámos libertar o corpo do infeliz, cujo rosto demonstrava o seu desespero; ele pedia para o não deixarmos em Moçambique, mesmo após a sua morte. Ele sabia que não havia helicópteros para evacuação de feridos e que o tempo não perdoa quando o corpo está demasiado esfacelado para resistir. O Almeida, por cima da carlinga, puxava o corpo ferido, ajudado por mais dois companheiros que tentavam libertar as pernas daquela amálgama de chapas e ferros retorcidos. Ninguém se apercebeu do movimento da mão esquerda do piloto; eis que um inesperado disparo assustou todos os presentes e deixou incrédulos os que tentavam libertar aquele corpo em estado desesperante: da cabeça do suicida, o sangue jorrava em lufadas assustadoras. Sem que ninguém o percebesse, o piloto utilizou a sua pistola e pôs fim ao previsível sofrimento sem esperança. Ficámos estupefactos com a surpresa do acto, naquele instante terrível. Mas compreendemos como se pode ser louco.
AS DORES ACUMULADAS em Miteda
De Miteda ao cruzamento para Copoca, na “picada” de Nangololo, a coluna seguiu apressada, para não acordar o inimigo! Com o trilho de Copoca à vista, os elementos dos três pelotões saltaram das viaturas e tomaram o caminho do Vale de Miteda, indiciado como um bastião dos guerrilheiros da Frelimo. Mal os condutores deram a volta para regressarem ao acampamento de Miteda, todo o pelotão de acompanhamento se acomodou nos Unimogs, já em movimento. Mas os gajos estavam atentos e as balas começam a rasgar as folhas e a morder a terra que se levantava em nuvens de poeira que atrapalhavam os que saltaram para fora da picada e reagiam ao fogo inimigo. Os estilhaços das granadas de RPG voavam por cima das cabeças dos que tiveram a sorte de encontrar o tronco duma árvore na sua posição.
Quando diminuem os tiros de reacção, os braços rígidos e trémulos tentam segurar as armas que enfrentam a fuzilaria dos guerrilheiros. O estrondo das granadas fez estremecer os corpos presos à terra e deixou os tímpanos a tilintar. Quando se dissipou a nuvem de poeira e o fumo das explosões, havia três corpos feridos e em convulsões rolando nas folhas secas, parecendo afastar-se do furriel que gemia mesmo ao lado; em cima do Unimog, caído sobre o banco do lado direito, um corpo esfacelado esvai-se em sangue.
O furriel miliciano Arlindo, está deitado de costas sobre as folhas secas, com os olhos vidrados voltados para o céu. Sente que a morte o está a vencer, porque já não sente o sangue a sair... com a mão esquerda ainda tenta segurar os intestinos que se escapam para fora do camuflado; com um olhar esmorecido, olha os companheiros que já não reconhece naquelas estranhas sombras... Morre quando já não tem seiva para continuar a viver!
Estendido em cima do Unimog, o soldado Martins desfalece a olhos vistos. Nem as compressas que o cabo enfermeiro lhe tenta segurar na barriga estancam a hemorragia. Quando a respiração começa a tropeçar na morte, pede que não o deixem longe da sua terra; o enfermeiro nem quer acreditar no que ouviu! Mas fica mais compenetrado com a realidade, ao ouvir as últimas palavras daquele corpo perdido para a vida, num derradeiro alento, a pedir para lhe fecharem os olhos! Pedido pungente na plenitude da tragédia da vida nas matas dos Macondes.
O matumbo sonha... vive o seu drama. Premi o gatilho na direcção do trilho e o estampido quebrou o silêncio da neblina que encobre a floresta. Os pássaros abandonaram os ninhos, assustados, fazendo um estranho barulho que ecoa no vale de Miteda.
Na sequência da emboscada, foram presos dois guerrilheiros que justificaram aquele ataque à tropa:
- Aqui, quem manda é a Frelimo, os tropa é sempre atacada. Ao ouvir tal desaforo, o Marcelo não se conteve e desferiu um murro nas fussas do frelimo que ficou a sangrar do nariz e a refilar:.
- Todo gente vive no mato, como os bicho que sofre maningue a fome não guenta mais não. O muzungo tem raiva do nosso água e manda calor p’ra machamba morrer, leva chuva p’ra sua terra e deixa só guerra. Gente não guentar, não. Só fica raiva dos branco no coração e todos os família quer lutar p’ra muzungo ir terra dele, ué!
O Mendes não gostou do que estava a ouvir, puxa mais a corda atada aos punhos do guerrilheiro. mas os protestos aumentaram:
- Todos vai no mata lutar com corage no peito, gente a sofrer caminho da guerra. Povo chora vere morrer, mas vai no guerra de branco até último soluço p’ra ter nosso liberdade...
Ninguém está para aturar as queixas do negro. Aquele punhado de homens amargurados e tristes, teve que regressar a Miteda, enquanto não havia helicóptero para levar os feridos. Com eles levam mais dor e sofrimento que acumulam com os medos que atropelam todos quantos ainda têm esperança de sair daquele infernal acampamento, respondendo ao chamamento para rezar o terço!

Vale de Miteda - PESADELOS
Pior do que assaltar acampamentos inimigos, era transportar as populações que lá viviam. Nem sempre eram apanhados os guerrilheiros, mas as velhas e as crianças raramente fugiam para a mata. Depois, eram conduzidas para os acampamentos do Exército, onde teriam de trabalhar sob vigilância...
Desta vez, apenas duas velhas tiveram que acompanhar a tropa. Ficando uma delas sob a vigilância do Castiço que estava farto de puxar a velha para o trilho, por onde se movimentava a fila de homens cansados e impacientes. A velha andava mal e refilava! O resultado daquela intervenção não compensou os quilómetros percorridos e a noite perdida. Agora, com as velhas, as coisas ficam mais complicadas.
O estrondo dos rebentamentos e do tiroteio da malta que conduzia as viaturas que nos deixaram a meio caminho de Nangololo e Miteda, deixou o pessoal apreensivo. Adivinhava-se alguma tragédia durante o regresso a Miteda. Mas a nossa missão teve que prosseguir. Mesmo prevendo dificuldades para a progressão até às bases inimigas no Vale de Miteda. Quando o capitão fica para trás, estranha o rubor no rosto do Castiço! A velha ficou para trás... perfurada pelo punhal do diabo, que a tirou para o inferno. Ninguém disse nada. Até ao recolhimento para pernoitar.
No acolhimento das ervas que servem de enxerga, o Castiço não estava tranquilo! O rapaz movia-se e virava-se deitado na manta... e dizia que ouvia um estranho barulho de vozes longínquas! O silêncio da noite inquietava o Castiço com os gemidos que mais ninguém ouvia.
O Palmela, já farto de ver aquele mexer desconexo, exclama: “Mandaste a velha para o inferno, mas não te livras do peso da consciência. Deixa de dançares com os falsos pressentimentos dos espíritos e vê se dormes".
Foi Socorrer e teve de ser SOCORRIDO! – Nangololo
Os motores da Dornier bem gritaram, mas faltou a força para levantar a carcaça para os céus. A improvisada pista não deu espaço para levantar voo, batendo na copa das árvores onde se despenhou estrondosamente!
Já no fim da primeira semana de intervenção operacional na zona delimitada por Muidumbe e o rio Messalo, os pára-quedistas foram chamados para ajudar a socorrer uma coluna do exército atacada na picada de Muidumbe para Nangololo. Na deslocação apressada para a zona, numa distância superior a duas horas de caminho, foram detectados indícios de acampamentos a sul de Muidumbe. Isso não impediu a continuação da marcha até ao local onde a coluna do exército foi atacada. Posicionados nos locais mais apropriados em questões de segurança, os socorristas trataram de dos feridos, colocando compressas e torniquetes para estancar hemorragias e fazendo pensos aos restantes. Nas situações mais graves, o enfermeiro pára-quedista injectou coraminas a um ferido e coagulantes a dois com hemorragias.

As tentativas de comunicações rádio, através do PRC-10 não resultaram, tal era a distância à base. O comandante dos pára-quedistas mandou pôr no ar outro rádio, na frequência de recurso; e o operador foi tentando, tentando, enquanto tinha bateria:
- Mosca, Mosca, aqui Leão, escuto! aqui leão, escuto... Que merda de rádios... não chegam a lado nenhum!
Tanto insistiu até que apanhou o Ronco a caminho de Mocimboa da Praia. Pediu para mandarem a Mosca para evacuar quatro feridos, dando as coordenadas da picada para Nangololo.
Cerca de uma hora depois, aterrava o helicóptero no descampado a cem metros do incidente. Ainda os feridos não tinham sido embarcados no helicóptero, passava por cima da coluna, a mais de mil metros de altitude, a Dornier com o major Cerdeira, comandante das operações que, ao contactar pelo rádio, deixou uma mensagem desagradável:
- Atenção Leão. Maior, chama. Escuto!
Antes de agarrar o microfone, o capitão pensou: “ou vem foda ou canelada” - faltavam cinco dias para acabar a missão.
- Maior, Leão à escuta.
- Dois ataques a colunas militares nessa zona, mostram actividade anormal do inimigo. Operações vão continuar por mais cinco dias, além do planeado. Mais cinco dias, ok? Sexta-feira a Dornier descarrega, em Nangololo, mais rações para o pessoal, entendido?
- Ok, entendido, respondeu o capitão, com a cara desbotada...
No dia marcado, logo pela manhã, o pelotão de reserva foi a Nangololo recolher as rações de combate prometidas. Antes de aterrar, a avioneta entrou em contacto rádio. Duas secções faziam segurança na pista e a DO aterrou com alguma dificuldade. Uma das secções descarregou o material, enquanto a outra conduziu os unimogues para transportar as rações. A pista curta e com muitos arbustos na periferia, o piloto só pedia que o deixassem sair dali rapidamente!


Retirados os Unimogs, já carregados, o piloto acelerou o motor fez-se às alturas, mas, por razões desconhecidas, a avioneta não desenvolveu potência para uma subida perfeita, tocou na copa das árvores situadas no enfiamento do final da pista e inclinou-se para o lado direito, caindo quase a pique no meio das árvores. Com o embate no chão, o motor entrou na carlinga e prendeu as pernas do piloto nos ferros torcidos. Um espectáculo confrangedor perante os olhares dos primeiros pára-quedistas chegados ao local. A posição da carlinga dava condições para se retirar o piloto ferido. Com os punhais e uma pá, abriram um rombo por baixo da carlinga, de modo a facilitar essa manobra. Dois a puxar o desafortunado piloto e outros dois a remover os ferros que prendiam as pernas esfaceladas, conseguiram retirar o homem. O enfermeiro aplicou injecções coagulantes e analgésicos, enquanto os socorristas estancavam as hemorragias com ligaduras. No acampamento do exército já providenciavam a vinda do helicóptero para a necessária evacuação.
Duas horas após o acidente, já os pára-quedistas seguiam rumo a Muidumbe, para o inesperado prolongamento da missão. Foi mais um fim-de-semana fora do calendário, num tempo para esquecer.

MÁGOAS
As minhas mágoas, lanço-as ao vento
nos dias trágicos do movimento
em dias que sofremos sozinhos
nas terras duras, cheias de espinhos
Clamo aos ventos que chegam a Lisboa
que nos livrem do sofrimento que atraiçoa
até as saudades ficam prisioneiras
nos dias da mata, sempre a penar
com tanta dor, nem as podemos mitigar...
já são muitos os que passam rasteiras
com os olhos a incendeiam a paisagem
dos caminhos que tolhem meus passos
Sei que a paz é uma longínqua miragem
mas não vivo sem sentir os teus braços!
PULSAÇÃO – Maúa-Revia
A pulsação acelera com preocupantes variações e os olhos deparam-se com a insegurança do percurso que perturba a respiração, tal é a vastidão deste cenário verde. Ninguém fica indiferente ao ambiente sombrio das densas árvores que assombram o interior da mata, por onde nos arrastamos ao encontro das hipotéticas palhotas onde se acolhem hipotéticos guerrilheiros. Sente-se uma espécie de arrepio ao entrar, como quem avança para o abismo, sabendo da ameaça do perigo.
Ainda a coluna fazia a segunda curva da “picada” para Revia e uma chuva de balas começa a bater os arbustos à nossa frente. Com os corpos colados ao chão, os combatentes da frente não tinham hipótese de reagir com eficácia. Mas, os homens do pelotão da retaguarda avançaram de árvore em árvore, na direcção dos guerrilheiros, atirando fogo em pequenas rajadas que desalojaram o inimigo dos seus redutos de ataque. De repente, todas as armas se calaram e o cabo Santos parou, espantado com o que via à sua frente! Chamou um companheiro e atirou-se sobre uma das armas dos guerrilheiros ali abandonadas. Ainda quentes, as armas pareciam correr de rastos pela ladeira acima! O Santos nem queria acreditar; agarra que não agarra, a arma sempre a fugir atada a uma corda que alguém, abrigado, à distância puxava.
A armadilha não resultou porque a secção do sargento Ferro foi mais rápida do que os guerrilheiros que protegiam os “recuperadores” de armas. Meia dúzia de tiros abateram dois deles, tendo os restantes fugido por entre as brenhas. Esta nova modalidade de atacar com “recuperadores” de armas dá para perceber que os gajos usam estratagemas cada vez mais refinados para atingirem a malta. Até o capitão, quase sempre sisudo, deixou escapar uma desprendida gargalhada.
Alguns de nós serão atingidos pela fatalidade e não terminarão esta campanha em condições de escapar ao tormento psíquico que colide com os nossos princípios. Muitas vezes sentimos o desejo de sentir o cheiro das terras dos nossos pais. Nem temos a certeza de conseguirmos sobreviver sem mazelas físicas enquanto servem os fins do poder maligno, onde os fantasmas da pátria se movimentam como sombras demoníacas. E quando vislumbramos a luz difusa por entre as árvores, ficamos na incerteza de ser este o caminho que nos pode levar ao paraíso onde acaba o sofrimento da espera, ou se continuamos a deambular como reféns da engrenagem que subverte a razão do nosso conflito interior.
Às vezes somos vítimas da incompetência dos oficiais de operações; umas vezes porque planeiam missões de caris megalómano, não tendo em conta a escassez de recursos de apoio; outras vezes, talvez por se orgulharem de conhecer grandes extensões do território de Cabo Delgado, vistas de avião, preparam missões para as tropas de intervenção que mais parecem destinadas às cruzadas romanas... com longas distâncias a percorrer apeados e em zonas de difíceis acessos! E as delícias desses oficiais vão mais para além do absurdo, quando planeiam o assalto aos possíveis acampamentos do inimigo para certas horas da madrugada, sem terem em conta a maneira das nossas tropas se aproximarem do objectivo ainda de dia e manterem a surpresa de aproximação. Algumas vezes, feito o assalto, ainda estamos no período de rescaldo, e lá aparecem a sobrevoar a zona para denunciar ao inimigo a nossa presença - coisa estúpida!
Poucos assumem o incómodo deste “ad eternum” em que nos encontramos perante o estado de guerra. Muitos sentem que não temos meios bélicos nem forma de acabar com a guerra, fazendo a guerra; mas poucos reconhecem que o caminho é a negociação política para satisfação da vontade destes povos com os quais mantemos poucas afinidades.

Um Saltinho a Metangula
Só para captar algumas imagens da zona e perceber o que são os acampamentos nas margens do lago Niassa, fui de boleia na Dornier, avião do correio, facultada pelo sargento Pimenta, fazendo a ronda pelos destacamentos nas povoações de Cotu, Vila Cabral, Metangula e Cobué. O pessoal do meu grupo está três dias em descanso na povoação de Maúa, permitindo a minha ausência.
Nas encostas sobranceiras ao lago, o ar é mais suave mas o calor ataca com brusquidão. A confraternização com tropas dos fuzileiros, que já fizeram operações conjuntas no Cabo Delgado, ajudou a perceber porque preferem o Niassa às savanas secas do Cabo Delgado. Além do clima ser mais ameno, a Frelimo não está tão bem organizada. Mesmo ao lado de Metangula, a pequena pista serve de aterragem ao “pássaro ligeiro”, que traz o correio e outras coisas mais necessárias.
Do lado oposto ao lago ficam, lá longe, as montanhas de Mecalage, onde se podem acoitar os turras. Diz o sargento Bilac que a cantina é o seu principal posto de reabastecimento. Aí, saboreando umas cervejas, recordámos os “fusos” que subiram a serra do “Mapé” e as escaramuças que tivemos com os turras, especialmente quando tínhamos que evitar descansar debaixo das árvores, porque a chuva de estilhaços das granadas que rebentavam por cima era perigosa. Mas fico admirado com o trabalho feito por esta malta; têm piscina e campo de jogos, construídos com o esforço da tropa, que agora servem de recreio.
Uma passagem por Cobué animou o destacamento onde um punhado de homens vive isolado há mais de onze meses. Fazem batidas até Tenente Valadim, onde já sofreram três mortos nas emboscadas.
A resistência à solidão do medo estava latente no empobrecimento das ideias sem espoletas. Havia um acumular de receios crescentes com a escuridão quando já não há ânimo para aguentar outros flagelos, o que transparece das palavras do sargento Pereira:
- Se não arrancarem para Vila Cabral, ainda vão assistir à festa da noite, que não tarde muito. Os ninhos dos morteiros instalados nos morros começam a vomitar as bombas que nos fazem tremer os testículos, deixando-nos moles. O corpo sente-se encurralado numa mórbida agonia, sem identidade e sem noção da pátria.
Olhei para o piloto, com vontade de acelerar o avião para sair dali. Pela minha cabeça passavam ideias com vontade de animar aquela malta, que confundia os interesses da Frelimo com os mandamentos de Deus, já estavam descrentes da família, por terem recebido só sete cartas para trinta e seis homens.
Perdido o ânimo e a coragem, resguardados pelas sebes e tabiques, ocultam na memória os rostos dos companheiros aniquilados na emboscada que nos dias antecedentes os apanhou na estrada de Maniamba. O furriel Rebelo não esquece os últimos momentos antes dos mortos serem levados para Vila Cabral:
- Aqueles rapazes jaziam nos olhos do comandante, enquanto se polvilhavam os corpos com os resíduos da cal existente, porque o helicóptero tardava e o ânimo já não resistia à lastimosa decomposição dos restos mortais dos combatentes.
O sargento Pereira, de olhos húmidos, parecia filosofar:
- O êxtase espirituoso da crença mitigante não abranda o desejo de continuar vivo, embora a emboscada me tenha marcado com a chancela temível do medo, enquanto a hiena lançava o seu riso irónico e perturbante! Será, isto, uma opção de sobrevivência ou estará subjacente no idealismo subsequente?

Ao ouvir estes desabafos sinto que a vontade de ter coragem é admirável e justifica o apreço que desatamos às nossas convicções, se ainda existe algo acreditável. Enquanto a afronta dos acomodados nos desespera, atrofiando a razão, tento perceber se ainda tenho alma! Mas a vontade é quase um descalabro sem crença patriótica, porque a contenda leva-nos a retroceder nos princípios virtuosos aferidos nos padrões éticos da conduta castrense.
Ao voar para Vila Cabral, penso: que raio de maldição nos anda a tolher as causas que determinam a razão da existência como militar? Não consigo desvendar o mito desta perda de identidade, quando sinto o desconsolo da percepção desta decadência que limita as melhores intenções. Estarei diante do facto fatídico da história que nos desmobiliza do combate e alerta o espírito subjectivo para a perda das virtudes? Serei eu um refém inconformado com o definhar da pátria, que se insurge contra o refinamento bacoco dos apegados ao poder, tentando inventar um mundo diferente, confinado ao prodígio dos sobreviventes? Ao escutar as palavras amargas dos que vivem no isolamento do interior, longe de toda a civilização, percebi que nem todos estão enganados quanto aos resultados da guerra.

LACAIOS PERVERSOS
Em frente de mim, os olhares
tresmalhados dos soldados
estão prontos para avançar
sabendo bem que qualquer dia
nas picadas podem lerpar!
Então começo a meditar…
escrevo o que vai na alma
de cada um de nós, vivo!
Ao dever nunca me esquivo
na esperança de viver mais;
começo por escrever a vida
que entrego nos jornais
com sentimentos e emoções
destas vidas aos trambolhões.
São os momentos da verdade
com imagens nuas e absurdas,
ténues amostras da realidade
onde caminhamos às escuras.
São também um protesto
contra a guerra que detesto
e que engendro mudar…
mesmo um bocado que seja!
Pode o vento perguntar
porque a liça se prolonga
quando a desgraça faz moça
e a nossa jornada já longa
só serve os lacaios perversos
que censuram os meus versos.
Maúa-Marrupa, Fevereiro de 1967