DIAS de SOLIDÃO – Nacala
E os homens vão sendo aniquilados; uns pela força das armas mortíferas, outros pelo tédio abafado na constância das bebedeiras, pelo álcool fomentador das alucinações que as noites loucas exorcizam com os fantasmas que a morte espalha neste inferno. Poucos escapam a esta devoradora alucinação que se abate sobre os acampamentos isolados do norte, onde não há dias mas sim momentos de vidas destroçadas e pensamentos amordaçados numa rotina de vida embriagada pela sombra da morte.
Sentados na berma da ravina, à espera que o sono os chamasse para a cama, o Armindo conversava com o Botelho sobre os dias tristes de Mueda. Mas o Botelho não se mostrava muito interessado em lembrar horas de sofrimento como as que passaram no vale de Miteda; preferia levar a conversa para as praias do Macuti, onde tem amigos das terras de Penafiel. E, também, algumas noitadas bem passadas, cheias de emoções de arrebitar o pau. Entretanto, apareceu o Ferreira agarrado a uma garrafa de whisky, bebericando a cada dedicatória de gozo à namorada que deixou nas terras do Minho, onde gostava de a acompanhar nas festas de folclore. Dizia, com tristeza remoída:
- Não sei o que se passa com a moça; há mais de dois meses que não recebo carta dela!
Bem, será mais um que deixou de ter razão para sonhar com o amor. De cada vez que levava a garrafa aos lábios, mais se enterrava no deserto das vidas descontínuas: uns dias, sabem a fel, outros são o absurdo da alienação. O Botelho sentia-se comovido com os lamentos do Ferreira; segurava a viola sobre a perna direita e puxou alguns acordes que o ajudavam a manter a postura mental. Bem próximo daqueles três homens atolados na solidão da savana, estavam os pássaros, empoleirados nas árvores viradas para a baía de Nacala, com os sons musicais embaladores e o grasnar das aves de rapina que esperavam a hora do alvorecer para caçar um bom mata-bicho.
O Armindo, com palavras calmas e virtuosas, tentava melhorar o ego e minimizar as dores de corno do Ferreira. Percebendo que os sons dedilhados na viola em ritmo de fado castiço não entusiasmavam a assistência, o Botelho deu uma achega ao bailinho da Madeira.

O Ferreira, já perdido na escuridão das suas mágoas e meio anestesiado pelo álcool, murmurou algumas palavras de queixume e... chorou para dentro da garrafa de whisky. O Armindo, sufocado pelo silêncio da noite e agonizado com os queixumes do Ferreira, já protestava contra os trinados da viola, tal era a sua ausência de normalidade terrena! Não era uma reacção normal, naquele grupo de amigos... quase irmãos! Talvez até estivesse bem no seu subconsciente, numa espécie de voo nocturno para os braços da mulher que amava e que, no intervalo das horas de ensino às crianças que um dia perguntarão porque houve guerras em África, esperava o regresso do seu homem, são e galante. Era grave o abandono do Armindo, nas horas de isolamento; parecia viajar com as estrelas, que cobrem as terras de Nacala, à procura do seu porto de abrigo junto da família no Ribatejo.
São assim as horas de incerteza do regresso dos companheiros, quando as ondas de choque dos rebentamentos atormentam o sossego que cada um merece na hora da partida do avião. Eu só queria avistar as ondas calmas do oceano nas praias do Macuti, sentir a fragrância das flores que rodeiam as casas das miúdas que me facultaram o lascivo gesto de passar as mãos nas mamas aveludadas, porque a vida é cada momento e ninguém sabe se terá dia de regresso.
PASSAR o Tempo
Enquanto ouço o novo disco do Bod Dylon, com temas de country rokeiro paradisíacos, vou esfumando as ideias que navegam na mente ainda perturbada pelos acontecimentos no Cabo Delgado. Gosto de ouvir “John Wesley Harding” com muita viola enternecida. Comprei-o no bazar do Ramschand, esta semana, enquanto os Beatles se passeiam pelos Estados Unidos, arrasando os parques com suas músicas de choque.
Está próxima a noite e vou preparar o rádio-giradiscos para levar até Maúa. Hoje vou ouvir uma fita com músicas do Zeca Afonso, que um colega dele do liceu da Beira me arranjou. Tenho também um disco do Johnny Cash, cuja viola é um espectáculo no rock’n’roll. Espero bem que em Maúa, nos intervalos da saída do pessoal para o mato, me seja permitido uns momentos de sossego para ouvir o José Afonso. Hoje ainda vou ouvir um disco com fados da Hermínia Silva. Pode ser uma noite de nostalgia, mas cultiva o ego.
SAUDADES
Alva florida em tons maravilhosos
cheia de encantos e fulgor,
teus seios são tão gostosos
que os saboreio com mais amor.
Se és clarão a dar-me luz
nas estradas desta vida,
creio no amor que nos conduz
à felicidade bem merecida.
Assim, vejo bons os caminhos
longos, largos e suaves,
para encontrar teus carinhos
pois já tenho grandes saudades.
Somos a semente onde há vida
e o senhor nos dá a devoção
para encontrar na alma florida
o efeito da sublime recordação.
Enquanto em nós há ventura
que nos prende nesta afeição,
deixemos que a coisa dura
também tempere o coração!

MOMENTOS DE REFLEXÃO
Três homens sentados nos bidões que guardam o combustível que fará movimentar os Unimogs prontos a transportar o pessoal para as praias da baia de Fernão Veloso, durante o mês de descanso. E todos merecem este repouso para recuperar dos dias trágicos do Vale de Miteda, onde alguns companheiros verteram o seu sangue até à morte.
Em tempo de reflexão, as ideias são mais profícuas e conduzem a observações mais consistentes sobre os efeitos da guerra nas vidas dos jovens desta geração. Estamos em véspera de mais um dia da Restauração da independência e, naturalmente, vem à baila esta anacrónica fase da história, que marca as contradições da nossa condição de colonialistas combatendo a vontade de independência destas gentes que nos são distantes!
O Gil e o Botelho são, talvez, os mais renitentes em continuar na guerra, já que se têm manifestado contra alguns sistemas de poder da hierarquia. Há cerca de dois meses que requereram a saída das fileiras. Ambos têm garantido o desempenho de funções bem mais profícuas para o país. O Gil espera continuar os negócios que o pai desenvolve com sucesso na metrópole; enquanto o Botelho está contratado pela empresa de petróleos SONAREP, com a garantia de um ordenado muito superior ao do seu comandante de batalhão, tenente-coronel Seixas. Fazendo parte do grupo, está o Ferreira, com a garantia de emprego na fábrica de cerveja Manica, na cidade da Beira. São três sargentos ainda jovens, com o futuro hipotecado nesta guerra e que já deram muito do seu saber às tropas pára-quedistas. Todos têm as suas próprias convicções, que defendem com um elevado conhecimento cultural e informal. Com problemas comuns, sabem farejar opiniões para um entendimento dinâmico da situação do país, como atesta o Botelho:
- Por tudo aquilo que se vê nos apoios à tropa destacada desde Macomia a Mueda, passando por Miteda, Nangololo, Negomano e Nangade, é um salve-se quem puder. O mesmo se pode dizer com os meios para evacuação dos mortos e feridos, nas picadas. Os “grandes chefes” estão-se cagando para a malta que morre sem assistência e por carência de helicópteros, e também para os que sofrem os rigores do isolamento e se amolam nas penosas caminhadas de mochila às costas, pelo meio da mata.
Esticando as longas pernas, o Gil atalhou:
- Quem se governa são os “monhés” que exploram o comércio com os brancos e com os pretos; e, mesmo que estes gajos venham a chegar à independência, vai ser um processo muito lento para dominarem os meios de produção e colherem os frutos da sua terra.
O Ferreira, mais integrado na sociedade moçambicana, reconhece que muitos brancos, seus conterrâneos (minhotos), estão a ser escravizados pelos holandeses que mandam nos colonatos e refere:
- Eu fiquei indignado quando visitei uns amigos que trabalham nos colonatos próximo de João Belo. Vivem pior dos que os pretos, sem auto-estima, e poucos chegam a encarregados, porque os estrangeiros os oprimem. Então, nos ordenados, ganham menos de um quinto do que ganham os estrangeiros que vivem em palacetes com ar condicionado e cheios de mordomias, enquanto os portugueses vivem no tabique. É uma autêntica afronta à soberania portuguesa.
Do lado da baía corre uma brisa suave, enquanto o sol se estende para alem das matas lá para os lados de Nampula. Aproxima-se mais uma noite de combate aos mosquitos. Mas a conversa prossegue com o Botelho a proferir a sua breve palestra:
- Pensando bem, não chego a perceber quem é que manda em Moçambique. Pelo que se viu durante o curso de pára-quedismo civil ministrado ao engenheiro Jorge Jardim, respectiva família e amigos, o governador parece ser um “verbo de encher”; quando foi preciso um avião para os saltos, o engenheiro telefonou ao governador e logo este mandou o “seu” Dakota de Lourenço Marques para a Beira. E só foi de volta depois dos instruendos terem efectuado todos os saltos. O mesmo se tem passado com as obras no Batalhão da Beira – quem manda é o engenheiro Jorge Jardim!
O Gil também tem as suas dúvidas:
- Aqui em Nacala, parece que todos obedecem aos poderes de Nampula. Os poderes estão lá instalados, gozam dos oásis em tempo de guerra. As “madames” dos comandantes e da gente fina passam o tempo nas esplanadas em alegres cavaqueiras ou nas piscinas pagas pela tropa, onde mostram as finas peles dos corpos elegantes; logo ao lado, no hospital militar cheio de carências para fazer face à gravidade das situações, os militares, com os corpos estropiados e feridas marcantes para o resto da vida, sofrem por terem trilhado os caminhos e as matas do norte em nome da escumalha da sociedade.
O Botelho abanou a cabeça num gesto concordante e diz:
- Esta é mais uma situação de descarado afrontamento. Há tempos atrás tive um desentendimento com o chefe da Pide de Nampula, só porque o dito cujo entendeu que o bar do Hotel Portugal não deve servir militares que não pertençam aos aquartelamentos de Nampula. E por causa duma fulana que me acompanhava, o filho da puta desafiou-me para a pancada. Não demorou a levar com uma cadeira na pinha, e se não fosse o tenente piloto Malaquias, as coisas seriam mais graves, já que ele se preparava para usar a pistola.
São tantos os exemplos de um poder fragilizado e estratificado em diversos poderes que as cumplicidades dos mandantes se limitam a gerir as suas próprias hortas. Os políticos são uns bacocos ignorantes e amorfos, os administradores de posto uns oportunistas mergulhados na contemplação das raparigas mais vistosas. Enquanto os bens da nação estão à mercê da pilhagem, a maioria da hierarquia militar mais graduada, acomoda-se a esta forma de cumplicidades, esquecendo a tropa de quadrícula que sofre as agruras da decadência de todo o sistema que os devia proteger. Assim temos o país a afundar-se no pântano da miséria dos que vivem no torrão à beira-mar plantado.
O Botelho remata a conversa:
- Não são visíveis movimentos de mudança, porque os chefes não estão vocacionados para a reflexão; limitam-se a elaborar alguns planos de operações e a ler os relatórios. Isso é suficiente para justificar a subida nas carreiras e a exigência de melhores ordenados.

Mutemba - Último Natal no Mato
Enquanto percorremos as matas e savanas do norte de Moçambique, sentimo-nos afastados de qualquer forma de comemoração do que quer que seja, mas o Natal lembra sempre.
Acantonámos no destacamento do Exército onde encontro o Candeias, meu amigo do tempo do curso de química. Não tem saído para operações com os caçadores, por estar no fim da comissão. Pelo que vejo, está mais homem e musculado, depois de 23 meses por entre matas e capim. Nem as moças vão conhecer este Candeias, que não sendo candeias às avessas, esteve afastado das lides aventurosas junto das escolas do Porto. Não deixou de contar a sua última peripécia de combatente, e relatou:
- Quando regressávamos de um reconhecimento, ouvimos um alarido grandioso e estranho para os lados daquele morro. Já era noite, a malta organizou um pelotão e fomos ver o que se passava; subimos ao alto com algumas precauções, e avistámos fogueiras e uma grande festança da Frelimo. Era o 25 de Setembro em Mutenda. A tropa atacou de surpresa, com morteiros e granadas bem certeiras, que até aumentaram as fogueiras. Vimos muitos a fugir com gritaria e insultos. Fomos reforçados com mais duas secções e ficámos até de manhã. Ainda o dia despontava, já estávamos a entrar no acampamento onde encontrámos vários mortos e algumas fardas. Não vimos armas, mas vimos sinais de sangue dos feridos que foram levados, ou fugiram! Desta vez, acabaram mal as comemorações.
- Olha que nem sempre as coisas correm bem, quando há deslocações nocturnas. Ainda bem que a sorte esteve do vosso lado.
- Já estou em tempo de voltar, mas a guerra está ali à porta e dentro do arame farpado. Às vezes, os guerrilheiros gostam de chatear os “velhinhos” que terminaram o tempo nos trópicos; além disso, um gajo começa a ficar mais cacimbado, não bastam as noites frias para arreliar os ossos enquanto estamos vigilantes. Se o jornal da caserna falar verdade, daqui a duas semanas estarei a caminho... Estou cheio disto, até porque chegou há dias um alferes que mais parece um garoto do orfeão, tem estragado o ambiente de camaradagem que havia entre a malta. Então o sacana, traz uma bandeira da mocidade portuguesa e tentou iça-la no mesmo mastro da bandeira nacional! O pior é que o comandante autorizou e ficou muito chateado quando os sargentos se impuseram contra tal estandarte.
- Espero que tenhas um regresso sem incómodos, para estares em condições de contar aos amigos da Carvalhosa como passaste estes tempos na companhia da G-3. Ainda te digo, amigo Candeias: não deixes de transmitir alguns dos teus conhecimentos aos “checas” que estão a chegar, porque as matas de Moçambique também nos deixam algumas lições de vida. Além do mais, aqueles que deram provas de competência, aumentam o seu valor mostrando ter autoridade moral como chefes.
Assim passei este Natal de 1967, falando de tempos de aprendizagem que hoje ajudam a entender melhor o mundo.
SAUDADES DO LONGE
Ouço o eco longínquo
Perdido do outro lado do mar…
A minha carta perdida
dentro da carlinga do avião
vai espalhar esperança no céu
que me enfeitiça de manhã
nesta lonjura africana
que embriaga as distâncias
sem um gesto de ternura
fico extasiado na frescura
das florestas com fragrâncias
assim estendo o pensamento
nas águas do mar peregrino
acreditando que o tormento
dissolva as lágrimas do menino
sentindo a vontade do mar
que o navio deixou longe
sigo ao sabor do vento
que balanceia o pensamento
que me não deixa naufragar.
Encontro conforto na esteira
desta amarga solidão…
pode ser a loucura derradeira
que me engana o coração!
CARTA para LONGE
Beira-Moçambique
- A natureza também tem os seus caprichos. Neste caso, as chuvas torrenciais que atingiram o país causando a tragédia que se apresenta dramática na região de Lisboa, roubou a vida a muita gente e arrastou consigo o drama dos desalojados. Geralmente são os menos afortunados que sofrem com mais rigor os temporais que se abatem sobre as suas residências de telhados mal seguros e paredes esburacadas. Espero que tudo se recomponha depressa, e que o governo desvie algum dinheiro, que a máquina de guerra vai consumindo inutilmente, para ajudar a socorrer os desalojados e reparar os bens destruídos. Era uma acção de merecida justiça, porque muitos dos desalojados já perderam anos das suas vidas neste emaranhado de sofrimento que a guerra nos trouxe.
Se o homem se sente inútil e incapaz de se opor à devastação causada pelos temporais; também deveria reflectir porque é que sente a mesma incapacidade para dominar o ímpeto das suas loucuras. É por isso que devemos meditar em recolhimento com o nosso interior, sem sinais de renúncia ao entendimento da mãe-natureza; porque a natureza vai mostrando o seu fantástico poder, e dá-nos lições de humildade e da sua bondade pelas coisas belas que nos proporciona. E quando não ouvimos as suas mensagens nem meditamos sobre os seus poderes, a natureza ri-se dos loucos e dos imbecis que não são capazes de atenderem ao seu chamamento para defender a vida natural, valorizando a beleza do ambiente.
DESCOBERTA
Se soubesse o que tens no peito
fugia da solidão que me prende,
para encontrar qualquer jeito
de te enviar esta mensagem...
embrulhava-a na minha certeza
de fazer a fantástica viagem
e voar ao sabor da natureza!
O meu coração está triste
por ter perdido a tua imagem
e nem a esperança resiste
ao chamamento doutro carinho
que se cruze no meu caminho!
Se ainda és a flor que eras,
vou procurar viver a fantasia
do meu jardim de quimeras,
até te encontrar algum dia.
Beira, Agosto de 1967

OS NOSSOS COMBATES
Esta “guerra” só acabará quando morrer o último soldado regressado com saúde para viver até ao fim da vida determinada no acto do nascimento “de nascer”.
Eu hei-de ver fugir atabalhoadamente essa corja de ladrões das nossas alegrias, porque se riem das minhas tristezas; gozam a segurança ques lhes empresto com o sofrimento nos caminhos no sertão e nos trilhos que cospem estilhaços que esfacelam os corpos dos soldados.
Sem ódio mas ressentido, irei mostrar a indiferença aos padecimentos perturbadores do abandono, perante aqueles que gozam com as angústias dos combatentes.
Eu vou fazer que não vejo o caos que se adivinha com a libertação dos povos que combatemos, porque os prevaricadores que atiçam as guerras insultam os soldados, esquecendo-se de que são eles que agonizam até ao último suspiro por causa das balas que lhes deram.
Naturalmente, só me vou preocupar com os foragidos inocentes que ainda vivem na esperança de que a guerra trará a paz serenamente, porque vivem na paz dos inocentes! Mas, para a escumalha que hostiliza a tropa, esquecendo que as horas de agonia tolhem os valores da coragem, é compreensível que lhes deseje o inferno.
Quando sinto as emoções laceradas pela angústia do sofrimento que me atinge gradualmente, perco a vontade de investir as forças que me restam da liça pela sobrevivência ao poder das engrenagens que tentam linchar-me no sossego da prisão.
Estou de olhos abertos contra a denúncia infundada que me afronta na tenebrosa teia urdida a despeito das minhas naturais convicções de liberdade. A resistência à ofensiva dos detractores não poderá falhar, porque me sinto iluminado pela sabedoria e imbuído de energia suficiente para alimentar os pensamentos que produzam a reflexão tendente a ultrapassar os desafios.
O meu combate será aqui junto dos companheiros, mesmo longe da terra portuguesa, até que a liberdade se instale nos corações da minha gente.
Sinto que estou exilado não sei aonde… mas estou vivo e actuante para defender a liberdade.
Ó PÁTRIA MINHA
Minha Pátria, minha paixão,
sei que horas amargas virão
longe do tempo presente
com espaços vagos e ideias ignotas
acções audazes inevitáveis
nas límpidas forças do coração
aqui espalhadas nestas palhotas
onde os corpos com feridas irreparáveis
ao criador estendem a mão
em luta contra o tempo da desonra.
Ao sabor das virtudes ainda vivas
vou cavalgando sobre as savanas
sem piedade pela pátria moribunda
onde um dia sabujos escribas
dirão que estas atribulações insanas
foram causadas pela tropa imunda.
As caminhadas dos invisíveis corcéis
de rostos com lágrimas furtivas
ficarão para sempre gravadas
nas irresponsáveis decisões dos coronéis
que urdiram as logísticas esquivas
e atiraram os soldados às emboscadas.
Ó pátria minha, do coração,
por ti, sinto a fúria da poeira
que me tolhe o corpo cansado,
tento fazer valer a minha razão
reclamando o fim da fogueira
até que o tormento seja extirpado.
Mueda, Agosto de 1967