ILUSÕES
O cerco a um acampamento é uma acção que requer perícia e sentido de grupo. O silêncio na aproximação é razão fundamental para o sucesso. Qualquer deslize nestes princípios poderão deitar por terra horas e horas passadas nos trilhos por onde o inimigo faz os seus percursos diários. Por isso, o perigo é permanente e pode ser fatal.
Para muitos dos graduados mais novatos, a falta de experiência na contra-guerrilha pode ser um factor de inquietação, já que tem à sua volta os componentes do grupo sobre os quais tem responsabilidades tremendas. A confiança nos chefes cultiva-se nos momentos decisivos perante as dificuldades. É aí que se formam os grandes chefes. Mas, para outros menos dotados para acções de comando, a crença cega nas suas faculdades é perigosa e terá um desfecho trágico. Estes, que não acreditam nas capacidades do grupo, vivem na ilusão de que são os mais capazes. São conhecidos alguns casos de missões fracassadas pelo simples facto de que o chefe nunca deu percebeu os sinais da colaboração que poderia vir dos seus comandados.
Este reparo pretende, apenas, alertar alguns “senhores” para as necessidades de trabalhar em sintonia com os demais combatentes, porque a vida de cada um não tem preço, mesmo para os mais afoitos. Viver na ilusão de que somos os melhores pode resultar no fracasso das acções. A severidade do clima e à monotonia dos dias e meses dentro do arame farpado ou a calcorrear trilhos por esse planalto causam perturbações mentais capazes de evidenciarem o estado de ilusão factual. A mais estranha ilusão pode ser causada ela aparente normalidade em redor do acampamento! Cuidado, o inimigo anda por aí.
As sentinelas olham o infinito da mata e imaginam o inimigo a rir-se do heroísmo dos nossos soldados que, mal habituados aos rigores da vida nas matas, mantêm uma estranha mansidão. Só na madrugada, quando todos os silêncios se recolhem no espaço sideral, uma onde de bruma reflecte-se na sua tristeza e vêm-lhe à memória os frutos da sua terra, o gozo de se masturbar frente à janela da vizinha, quando ela se despia para o banho, aquele toque nas pernas de seda da namorada que beijou pela última vez já lá vão quinze meses. Olha no horizonte e vê o infinito onde se esconde a distância que o separa do Ribatejo; tantas vezes há-de passar pelo aeroporto da Beira que um dia apanha o avião do seu regresso. Depois irá ter pernas de seda e os seios de âmbar para devorar... guloso!

DIA NEGRO em NAPOTA
Apoio aérea, nem sinal. Helicóptero para evacuar os feridos e os mortos, nem vê-lo! Rádio para comunicar, só dá para cinco quilómetros, quando estamos a mais de cinquenta da base...
O Madriana acabou por morrer às primeiras horas da manhã, frustrando todas as tentativas para o manter vivo com a injecção de soro, coagulantes e coraminas. Uma onda de desânimo caiu sobre os companheiros. A serenidade ajudou a manter firme a resistência às adversidades... mas os meios de socorro não chegavam e os restantes feridos temiam o confronto com a morte que andava por ali.
Pelas duas da tarde, quando a situação parecia permitir algumas horas de repouso para recuperar forças, o estampido de alguns tiros trouxeram de novo o desassossego àquele pequeno grupo de desterrados... O Sousa tombou sobre a própria arma, ferido de morte pelas balas inimigas! Atingido na cabeça, não deu para tentar estancar o sangue. A impotência perante tão brutal desfecho e a raiva contra a incapacidade da tropas em socorrer atempadamente e com eficácia para evitar a perda de mais vidas frustravam ainda mais as expectativas em sairmos dali. Três mortos e dois feridos graves é uma perda irreparável, perante o fracasso dos meios de socorro disponíveis em Moçambique. A inoperância e a falta de meios é demasiado notória para alguém acreditar que se pode vencer esta guerra.
Vendo-se na iminência de mais perdas de vidas, o que restava do grupo colocou os corpos dos mortos ao abrigo da devassa, armadilhando a zona, e arrancou em direcção ao acampamento.

FRASES:
A água quente do cantil ainda é um maná para mitigar a sede... porque os locais de águas correntes são uma miragem no planalto dos macondes.
Nas noites de neblina o silêncio reserva algum tempo para os pensamentos que ainda saltam os muros do sofrimento.
Quando a sede faz delirar, só com grande esforço e abnegação os soldados cansados se arrastam nos trilhos até à derradeira oportunidade de escapar à morte e regressar ao acampamento.
Já ouço os sinos nos campanários das igrejas a dar o sinal para o silêncio das almas dos mortos... que não tiveram tempo de pensar no céu e na eternidade dos sonhos!
A UM DEUS distraído...
Um deus deve ser sensível e perceber o sofrimento dos homens, mas não vejo essa sensibilidade para alterar o rumo das coisas dramáticas que aqui acontecem. Um deus deve usar a simplicidade e a sua bondade para que a vida seja uma felicidade permanente até ao encontro final. E quando sentimos este amargo abandono já não podemos acreditar que existe deus, porque se existe, está demasiado distraído para ser Deus.
DESAFIO À MORTE
Foge para longe do sentido
enquanto busco o caminho
que um futuro prometido
encorajou no meu desejo
de afagar os sinais da vida
que se apaga lentamente…
não escarneças o corpo
que sofre amargamente
enquanto unido à alma
é razão da vida de toda a gente
e o desejo absoluto
de manter a unidade calma
está no espaço que disputo
à morte que me persegue
nos contornos do combate
mesmo vestida de grinaldas
não vou cobiçar-te as feições
esculpidas no horizonte sombrio
que anda a desafiar-me…
aos tombos, aos baldões
nas emboscadas, o calafrio
onde passas, fugidia
não tentes surpreender-me
… marca encontro
p’ra outro dia!

LABIRINTOS DO MATO, em Napota
As matas são um labirinto onde se disputa o direito de viver. Em cada emboscada desencadeia-se uma catálise de reacções irracionais, transformando o sofrimento em ondas de raiva por cada soldado atingido pelas balas inimigas. Quebrada a harmonia da natureza, a ferocidade dos combatentes parece recrudescer mal se apercebem do vermelho do capim ensanguentado com o sangue dos companheiros. O terreno fica para sempre manchado na memória dos intervenientes na pugna inconsequente. A angústia sufoca o medo e a coragem é a força que ainda anima o corpo. Mas a fatalidade atinge dois dos meus companheiros, de cujos corpos a vida se esvai com o sangue que mancha a terra de vermelho.
A minha intranquilidade aumenta ao enfrentar aquele olhar suplicante pedindo a vida que se escapa... e eu fico ainda mais triste por nada mais poder fazer do que aconchegar-lhe o corpo à manta que atenua a falta de seiva nas veias do Madriana. A esvair-se em sangue... tive o pressentimento do fim! Ficamos muitas horas á espera do socorro em forma de zingarelho vindo do ar… que não chegou a tempo. Consternados e abandonados entre a morte vinda da orla da mata e o sol escaldante que nos aniquila lentamente, reagimos com a vontade firme de sobreviver ao infortúnio da dependência das ideias voláteis dos nossos chefes que vivem no conforto do ar condicionado. Rompemos mata dentro, com a fúria do leão e pusemos o inimigo em debandada. Avançamos em direcção ao acampamento, percorrendo os trilhos em direcção ao norte, como quem tenta apanhar o "último comboio da vida".
Já libertos do aperto da sanha inimiga, agradecemos a presença das nuvens que começam a cobrir o sol que nos crestava os corpos cansados, como quem põe um manto protector sobre as nossas cabeças. Os homens do pelotão olham-se com satisfação ao perceberem que a mãe natureza nem sempre é agreste. A fila de pirilau encaminha-se pelas matas de brenhas que rompem as fardas já ressequidas pela crosta de poeiras acumuladas com o suor. De repente, dois relâmpagos fazem estremecer a caravana e os homens fingem não estar amedrontados. Mas quando as pingas da chuva batem na cabeça dos combatentes, o Ferreira grita contra a brutalidade da natureza:
- Porra! Agora que estamos cansados, é que se haviam de rasgar as teias que sustentavam a água que voava calmamente nos céus? Esta chuva faz falta mas é para regar as machambas!
As nuvens uniram o céu à floresta que nos absorve... o corpo fica preso nos fatos molhados. Os relâmpagos abrem enormes clarões que cortam as árvores e derrubam os ramos que caem fumegantes... mas os nossos mortos já não sentem nada.
TEMPESTADE
Os abrigos sob a terra poeirenta
consomem as nossas vitais energias
... antes enfrentar a morte lenta
do que sermos flagelados todos os dias.
Cobertos os toros da fortaleza
ai temos a tempestade medonha!
E para aumentar a nossa incerteza
aparecem as mambas e a peçonha.
Espalham um perigo rastejante...
da sua mordedura traiçoeira e fatal
ninguém consegue sair vitorioso,
porque não há tempo para hospital.
Mas já a tempestade se vai...
o sol acorda-nos do pesadelo
quando um raio estrondoso cai
na perpendicular das faias velhas.
Então bebi que nem um camelo
da chuva caída nas selhas;
à minha frente o cenário lunático
que me deixou temente e apático.
Nangade/Napota, Fevereiro de 1966
UM CHEFE PRISIONEIRO – Nangade
Chama-se Massina Chuma, maconde, chefe de guerrilha na região do lago Libele (Nangade) até ao rio Rovuma. Foi preso quando, com mais três guerrilheiros, lançavam redes para pescar no Lago Nangade. Ele pediu por tudo para não ser entregue ao pessoal da PIDE estacionado no destacamento do Exército de Nangade. Aparentemente, parecia um mentiroso bem intencionado; mas, depois de aferidas as conversas com o sargento, este concluiu haver alguma veracidade na história que contou sobre a vida dentro da Frelimo.
Disse que, antes de ser preso, comandava um grupo que teve um recontro com a tropa do exército e perdeu o controlo dos seus soldados quando fugiram. Tendo ficado com o grupo muito reduzido, temeu ser castigado se regressasse ao “brange” (acampamento) sem tropa; resolveu andar por ali. Na manhã seguinte, quando viu um outro grupo regressar da base de treino de Newala, no Tanganica, escondeu-se para não ser apanhado pelos companheiros.
Feito prisioneiro quando pescava no lago Nangade, jurou ao comandante da secção que não seria mais bandido e que só queria ir ao Tanganica para trazer a mulher e os filhos para viver na sanzala do quartel. E mais: que arranjava maneira de devolverem um piloto que foi preso por causa do avião ter caído perto do posto de água 21, trazendo também o avião que um piloto desertor levou para o Tanganica. Dizia ter bons companheiros na Frelimo, que pensavam como ele. Para ser mais convincente, falou que estivera com o seu grupo a observar “os tropas” a passar com as viaturas pelo leito de uma ribeira nas proximidades de Mutamba dos Macondes. Por ver tantas dificuldades para passar os camiões, não atacaram. Também tinham por missão lançar algumas granadas de morteiro para o quartel de Mutamba, porque o chefe Kavandame gostava que chateassem a tropa durante a noite.
Embora sem grandes convicções, o Botelho falou com os pára-quedistas que o acompanharam à água, quase todos concordaram em libertar o homem. Ressalvando:
- Se fores algum dia apanhado no mato, serás imediatamente morto a tiro, para não mentires mais!
Partiu sem olhar para trás, tendo regressado, cinco dias mais tarde, com toda a família. Já integrado no aldeamento de Nangade, conduziu a tropa ao “brange” do seu antigo chefe Mateus Punda, onde ajudou a matar alguns macondes bandidos e o próprio Mateus Punda, a quem tirou a pistola. Quanto ao piloto com o avião, constou que uma semana mais tarde foi recolhido pela tropa e que estava ferido.
Numa entrevista camuflada pelo sargento Botelho, disse que entrou para a Frelimo em 1963, treinando em Songewa no Tanganica. Mas “nunca confiou muito nos chefes, porque havia muitas rivalidades e matavam-se uns aos outros, tal como aconteceu com um seu grande amigo e jovem revolucionário Mário Jair que conheceu em Belantyre em Setembro de 1964, quando chegaram dum campo de treino no Ghana. O ódio entre alguns chefes destruía a confiança no centro da comissão organizadora das primeiras incursões violentas contra algumas populações para as obrigar a reforçar os quadros da UNDEMANO, tais como Lawrence Milinga e Mateus Mole. Alguns colaboravam com tropa do Tanganica e ficaram lá como o chefe Oscar Kambona. E foi devido a esses ódios que alguns descontentes criaram um novo partido que tinha como chefe um homem bom e com muita força e amigos americanos e africanos.”
Tratava-se, efectivamente, de Eduardo Mondlane. “Quando treinava no campo de amigos, no Ghana, ouviu falar que a Checoslováquia e a Rússia estavam a mandar armas boas; a América, a Tunísia e Marrocos mandavam dinheiro; a China, a Argélia e o Ghana davam treino militar de guerrilha, onde aprendiam a combater no mato e a fazer sabotagem ou emboscadas. Com tantos apoios, alguns chefes separaram-se e organizaram movimentos como a COSERU, para restaurar a UDEMANO; depois vieram a MANU e MANGO, que não tiveram quem os seguisse, nem mesmo o chefe Adelino Gwambe, que já tinha ido para a base de treino de Htwra por não gostar do chefe Rosário Kavandamme. Algumas semanas depois de ser conhecido o novo chefe, houve uma revolta e as instalações dos soldados da UDEMANO passaram a ser utilizadas pelos chefes da FRELIMO para treino de combate.“
“As revoltas entre chefes continuaram, porque alguns aproveitaram a confusão e fugiram com dinheiro. E ninguém gostava dos chefes que matavam e não tinham alma de Macondes, para serem governantes. Muitos combatentes desertaram para o Quénia e para outras terras do Tanganica, porque os chefes nunca resolveram o problema das famílias dos soldados.
- E como tem sido a tua vida no mato?
- Eu tinha mulher e filhos sem assistência e os nossos chefes achavam que eram cães, frisou. Muitos já não acreditam nos chefes que dizem “mal pusermos os brancos fora de Moçambique, a terra será dividida e toda a gente vai ficar rica, com vida de presidente.” O que mais faz doer o coração do Maconde é saber que os seus filhos morrem com doença e os chefes bandidos só querem combate.
- Se é assim o descontentamento, como chefe Massina Chuma, muitos mais vão fugir da FRELIMO para se entregarem às tropas portuguesas. Aguardemos!
O Jornal de FRELIMO é o “25 de Setembro”, sendo director Dinis Moiany.

O INTERROGATÓRIO
Quando se interrogam prisioneiros, aparecem sempre os “fortalhaços” para molhar a sopa. Aproximam-se dos presos e tentam dar umas bofetadas por conta.
Mas hoje não vai haver estalada... o capitão já avisou:
- Não quero mais gente junto desta palhota, a não ser os da secção que guardam os presos. E ninguém se aproxime das miúdas. - gritou!
Mais de vinte homens, mulheres, raparigas e crianças estavam retidas dentro da palhota grande no meio do acampamento temporário.
O capitão proibiu acções desumanas durante o interrogatório. Até porque já estava confirmada a veracidade das informações fornecidas pelos dois presos considerados guerrilheiros. A aldeia assaltada pelo 2º pelotão foi localizada através dessas informações.
- Acabou-se a bagunça. Só o sargento Figueira e o cabo Silva podem interrogar os presos, um por cada vez; e pode ser utilizado o cinturão para castigar os turras mais renitentes.
Atados de pés e mãos, os perigosos prisioneiros não tinham hipóteses de recusa às sevícias. O sargento mandou o cabo Silva atar as mãos do primeiro preso nos grampos da traseira da Berliet; o sargento fazia as perguntas da praxe e o cabo dava o castigo, se houvesse demora na resposta! Uma cinturada nas costas magras, fazia arregalar os olhos ao desgraçado. Prolongou-se por mais de uma hora a tentativa de sacar algumas informações que interessassem à tropa. Quando o preso não colaborava, o cabo apertava mais a corda contra a Berliet, até o negro deixar de ter folga para se mexer. De cada vez que apertava a laçada, o cabo ironizava:
- Ferros curtos, é o que tu precisas, sacana.
Os olhos brilhantes do negro não mostravam ódio mas penetravam na consciência do sargento, que perguntou:
- Quantos homens estavam no teu grupo de combate?
O negro atirou os olhos ao chão e manteve o silêncio que incomodou o sargento!
- Solta-lhe a corda dos pés, para ver se o gajo fica em melhores condições para falar. - ordenou o sargento.
E o cabo desapertou as laçadas lentamente, atento às reacções do negro. Este endireitou o corpo e agradeceu com um olhar de alívio e conformado.
- Se não respondes, vais ver como elas doem. - avisou o sargento.
- Quantos companheiros fugiram do teu grupo de combate?
Manteve-se o silêncio na boca do prisioneiro, que já mostrava a espuma esbranquiçada no canto dos lábios. O cabo passou-lhe a corda pelo pescoço; ele estremeceu assustado. O sargento tirou o punhal da bainha, encostou a lâmina aos lábios do negro que se encrespou. Depois acendeu um cigarro e lançou uma lufada de fumo contra a cara do prisioneiro, que se engasgou a tossir.
- Dá-lhe molho para ver se ele entende que não estamos a brincar. – ordenou o sargento.
O cabo Silva não perdeu tempo, puxou o braço direito para o virar contra a Berliet e zás, uma cinturada bem assente que deixou as ferragens marcadas nas costas do negro.
Ouviu-se um alarido vindo de dentro da palhota dos prisioneiros. Eram os companheiros do desgraçado a resmungar. O sargento Botelho aproximou-se do local do suplício e, com a máquina fotográfica a tiracolo, interpelou o sargento Figueira com uma pergunta mordaz:
- Oh pá, achas que tiras algum proveito em sacrificares o gajo? Eles são mais firmes quando tratados a mal. Vou falar ao capitão e trato eu dos interrogatórios.
O sargento Botelho tinha alguma experiência destes rituais e sabia que, raramente, davam resultados positivos. Foi falar ao capitão e recebeu autorização para tratar do assunto à sua maneira. Chamou o cabo Silva e mandou dar água ao preso. Foi à mochila, tirou a pistola Walter, pegou no caderno dos apontamentos, de caneta na mão, aproximou-se do preso. Os companheiros ficaram pasmados com os propósitos do sargento, em jeito de repórter fotográfico!
- Cabo Fonseca, prepare uma equipe de quatro homens para estarem alerta à saída para a picada do poço da água. Como vou desarmado, preciso de vigilância. Vou deslocar-me para debaixo daquela árvore e falar com o preso.
O cabo silva desatou as cordas que prendiam o matumbo à Berliet; atou-lhe as mãos atrás das costas e deixou o prisioneiro por conta do sargento Botelho. Atrás das palhotas, foram tirados duas fotografias; depois caminharam para junto da árvore que ficava fora do acampamento. Com mais uma fotografia, o guerrilheiro deixou transparecer um sorriso... que tanto podia ser de confiança no sargento como indiciar tentativa de fuga. Para melhorar o clima de confiança, o sargento tirou do bolso uma lata de ração com sardinha, que abriu; aproximou-se do interlocutor e meteu-lhe uns bocados na boca, que o prisioneiro mastigou calmamente.
- Esta guerra não é boa para ninguém. Se matam os teus amigos, os meus também têm morrido. - disse o sargento, pesaroso.
Depois de acabar de mastigar os restos da ração, o negro pediu água; o sargento abriu a tampa do cantil e deitou um pouco de água na lata da conserva e levou-a à boca do negro. Ele bebeu sofregamente...
- Vou tirar-te mais algumas fotografias. Trabalho para um jornal que as vai publicar, e tu vais estar no jornal, pá.
A máquina Cânon recolheu mais duas fotografias de corpo inteiro. O preso respirou de alívio, levantou a cabeça e olhou em redor, o que não agradou ao sargento; pois não seriam os arbustos que serviam de cenário a interessar... a não ser para tentar a fuga! Mas deitou palavra:
- A guerra só traz miséria. Os família sofre muito: não tem comida, tem doença... morre cedo.
O sargento ouviu com atenção, e logo quis deixar saber o que pretendia:
- Diz-me como é a vida dos guerrilheiros da Frelimo. Como é que vieram para a guerra; quem vos dá as armas e onde estão as bases? Vais responder com verdade, certo?
- Vida de guerrilheiro ser muito mal. Os família estar Tanganica, muito dia sem ver... chefes só no brange grande.
E continuou a divagar:
- Muitos dia sem ter comida; os tropa também sofre. Comandante Kavandame mandar atirar granada do morteiro em cima dos tropa; toda noite assim. Arma tem muito no brange de Tamba.
Assim continuou a conversa aberta por mais de vinte minutos. O sargento Botelho anotou os desabafos com informações a confirmar posteriormente, depois conduziu o negro até às palhotas da “reclusão”. Os curiosos quiseram saber como foi a conversa, mas o capitão interrompeu a reunião e mandou o cabo Fonseca conduzir o outro preso para junto da Berliet, para ser ele a fazer as perguntas. Mas o soldado Estrias deu uma sugestão dos diabos:
- Acho que tenho uma maneira mais eficaz de pôr os gajos a falar. Eu e o Meireles apanhamos uma cobra mamba que prendemos dentro duma lata do azeite; vamos pô-la à frente do preto que ele fala logo, logo!
O capitão concordou e o Estrias andou lesto, perante a curiosidade dos companheiros. Sabiam que ele era perito em apanhar cobras, mas as mambas não são para brincar. Uma picada é morte certa, se não for aplicado rapidamente o soro adequado. Tudo pronto para o interrogatório; o capitão, sentado no bidão do combustível das viaturas, frente ao prisioneiro, com o soldado Estrias a mostrar a cobra que se contorcia e procurava um buraco de escape. A mamba verde arrepia qualquer um, e o preto arregalou os olhos em direcção à cobra, quando o capitão fez a primeira pergunta. O Estrias chegou a lata bem junto da perna do preto, quando ele começou a ficar esquisito e mudo; puxou a abertura da lata até ao peito do preso que, ao ver a cobra bem perto, arregalou mais os olhos aterrorizado... e disse:
- Eu vai falar tudo, tudo mesmo. O chefe do brange Gaza, meu grupo, é o maconde Fimau Iawli. É bem longe do Napota, mais no Muatide. Tem um chefe da secção das minas que chama Ernesto Cabanga, do Mocimboa da Praia. É gente Mongawai (cobra). Alfani Hassan, é chefe da zona Mocímboa da Praia a Quissanga e rio Messalo.

Mas que impressão azarenta sentir as galinhas esvoaçar para a machamba de baixo. O esforço era grande, quando até o cinturão caiu das calças! Gostos são gostos e estes afiam a arte. Passados dez minutos, quando já esmorecia a ideia e ninguém acreditava no pitéu, aparecem o Bilé e o Sousa com um sorriso anedótico; eles eram mesmo assim. Que desilusão - dentro dos casacos, traziam seis melancias ainda verdes.
- Então onde estão o Alfredo e o Pinto? - perguntou o sargento Gonçalves.
Todos encolheram os ombros. Reticências? Alguma coisa de estranho se estava a passar entre os quatro soldados que continuaram no encalço das galinhas!
Ah talentosos rapazes. Chegaram os soldados Alfredo e Pinto, sacaram de dentro dos casacos seis galináceos de respeito, já sem cabeça. Não demorou nada que a coluna toda entrasse no aquartelamento do exército onde nos amanhamos toscamente debaixo de um coberto de chapa presa nuns troncos de árvores ali junto à avenida principal. Não demoraram a acender o braseiro, enquanto os peritos prepararam o molho picante para tratar aqueles bichos ainda mal depenados e mortos à dentada.
HÁ DIAS ASSIM! – Pundanhar-Nangade
Entrámos no acampamento de rompante. À nossa frente dezenas de crianças assustadas, outras chorosas agarradas às mães, muitas mulheres juntas, com olhar triste como a nuvem que encobre o sol! Os homens deveriam ter fugido para o mato... ou para a Frelimo. A secção do Figueira fez o envolvimento do lado da mata e montou segurança; o Vicente avançou com os seus homens até ao vale. O Sousa ficou pasmado à entrada do acampamento... uma mulher estava a dar à luz ali mesmo frente aos seus olhos.
- Que merda de guerra, que nem há tempo para parir meninos! – exclamou o sargento Vicente.
Logo o soldado Ginja deu a sentença para o problema da gritaria do bebé:
- Corta-se já o pescoço, antes que grite e denuncie a nossa posição aos turras. Afinal sempre morre...
O Vilelas, que ia à frente, viu dois homens em fuga pelo leito da linha de água. Abriu fogo mas na incerteza de os ter atingido. É sempre um dilema matar inocentes!

O grupo do Botelho ficou a resolver o desassossego no acampamento, atentos a qualquer manobra que indiciasse perigo para a tropa. Parecia um dormitório de guerrilheiros em trânsito e reabastecimento à linha Nacatar-Muatide e vale de Miteda, tais eram os sinais nas picadas bem usadas. O material apreendido era fraco; mas cumpriram-se as regras humanitárias. Éramos cerca de sessenta pára-quedistas para conduzir mais de setenta indígenas, sendo a maioria mulheres com filhos e alguns velhos. Foi complicado conduzir tanta gente, e correram-se alguns riscos para os levar apeados num percurso com mais de vinte quilómetros, até ao acantonamento provisório. Feita uma primeira observação às pessoas mais debilitadas, vimos alguns doentes com lesões devidas à lepra; havia, também, mulheres grávidas (ainda dizem que em tempo de guerra não se limpam armas!).
Tivemos que tomar uma decisão difícil e rápida... As ordens oficiais eram claras: “população encontrada no mato não pode ficar lá! Ou se abate ou é conduzida até aos acampamentos do exército onde se instalam nos novos aldeamentos”. Perante tanta gente com dificuldades para aguentar a marcha, a solução mais prática, mas também mais dolorosa, seria matar tudo. Mas os olhares aterradores daquelas crianças mereceram contemplação, e o comandante arriscou. Sem perda de tempo, dois enfermeiros fizeram curativos, colocaram pensos nos pés e mãos com feridas mais graves. O capitão ordenou que transportassem as trouxas como pudessem. As secções enquadraram toda aquela gente em grupos de três a cinco, entre cada equipa de combate, enquanto o comandante fazia um aviso imperativo:
- Nada de barulhos! Evitar o choro das crianças! Portanto, vamos andar em silêncio, e tudo correrá bem...

Mandou bater a zona, para confirmar que não havia guerrilheiros nas proximidades. E três secções prepararam a segurança na direcção do acantonamento de Napota. Pára-quedistas e indígenas encaminharam-se pela picada fora, sendo as trouxas transportadas pelas mulheres com filhos maiores, e os estropiados pela lepra foram-se arrastando com ajuda dos paus que serviam de bengala. Uma progressão difícil, com toda aquela gente na procissão dos renegados pela sorte...
Em Napota, os indígenas foram distribuídos por três grandes palhotas velhas, e os feridos e doentes foram tratados com dignidade. Embora no vigésimo dia já se fizessem notar dificuldades na logística, ainda se arranjaram rações e sopa para matar a fome a mais de 120 deslocados. No dia seguinte, foi organizada uma coluna com três unimogues e três berliets para os levar até Nangade, onde foram entregues ao exército.
Passados mais uns dias recolhemos mais gente, que teve o mesmo destino.
CÉU NUBLADO
Olho à volta, o silêncio
dos companheiros calados
olhares transparentes...
olhos molhados
dores silenciosas e sofrimento
tolhem o pensamento
e os sonhos consequentes.
Viagens com tragédias embarcadas
fantasmas tranquilos
que nos rodeiam
nas noites sossegadas,
sem tempo para sonhar amores,
dedilhar os tenros mamilos
e lambiscar os seus sabores.
Nangade, Fevereiro de 1966