Espaço Etéreo


 

 

 

            TESTEMUNHO DIRECTO

 

     Transcrevo o meu testemunho duma guerra, por dentro e por fora, cheia de contradições e previsíveis desgraças para o povo português.

     O momento histórico da viragem dos ventos que sopram nos horizontes da cena internacional obrigam-me a expressar alguma confiança nas mudanças! Para a grave doença das emoções acrisoladas, há que receitar o remédio da clarificação das ideias e repor a verdade do sentimento dos combatentes anónimos. 

     Estou na frente, embrenhado na zona das operações militares na periferia de Mocimboa do Rovuma, muito próximo dum suposto acampamento da Frelimo, rodeado de combatentes sem convicção. Não é o espírito de sacrifício nem o patriotismo que esmoreceu; nem tampouco falta o ânimo para batalhar caso o inimigo nos perturbe a missão. Há algo que nos diferencia no campo de batalha: estamos razoavelmente apetrechados e bem treinados para as agruras do combate em terrenos pouco comuns; do outro lado temos os guerrilheiros com armas eficazes e uma convicção que os faz combater por uma razão forte contra os usurpadores das suas terras e dos seus bens, e opressores da sua liberdade. E porque nos falta aquela convicção que torna os homens grandiosos e capazes de vencer todas as vicissitudes, sentimos uma frágil crença na vitória desta contenda da guerra. Isto é um factor determinante para vencer, porque é preciso convicção ou, pelo menos, fé.

     Posso não ser muito inteligente; posso até ser estúpido, mediante a minha condição medíocre; mas porque enfrentei os primeiros tempos da guerra em Angola, entendo este alastramento das guerras ultramarinas como um erro grave para a história de Portugal. Não quero enganar-me à procura de argumentos artificiais para justificar a minha ideia; mas o meu pessimismo está aí: na falta de convicção para vencer! Uma guerra para ser ganha necessita do empenhamento de todos os cidadãos que comungam do mesmo sentir patriótico. Se este fenómeno não se dá, há muitas razões para duvidar do verdadeiro sentido das causas a defender.

     Temos um ano de guerra nesta região norte de Moçambique; ainda não vi os “inteligentes” planearem uma acção com todas as probabilidades de eficácia! O meu testemunho representa este momento em que reflectimos sobre os resultados e o desgaste das tropas em operações. Sentimos que muitos combatentes avançam nas picadas bastante agarrados à vida, mais do que sentido patriótico. É natural que assim seja, quando o esforço despendido e as privações das coisas elementares para uma vida sadia afectam todos os intervenientes sem que se vejam os reflexos desses extenuantes esforços na sociedade civil; essa sociedade que vive lá mais para sul, nas cidades rodeadas de boas praias e boa gastronomia.

     Depois, temos falta de apoios logísticos fundamentais para os que sofrem os efeitos da metralha ou dos rebentamentos de fogo inimigo; pois, os que existem são diminutos, antiquados e mal geridos. Assim, estou cada vez mais convencido de que não encontraremos uma saída airosa para o buraco da guerra. Os erros cometidos no planeamento das acções e as incompatibilidades dos meios disponíveis ilustram bem os resultados alcançados face às necessidades mínimas para o cenário da guerra com tantos intervenientes.

     Penso estar lúcido e, com humildade, entender as razões da nossa frieza, salvo raras excepções de heróis inocentes ou homens invulgares que possam destoar deste mar de esmorecimentos. O esforço da guerra deve ser de todos, para ter legitimidade patriótica! Morre-se à míngua de assistência médica, por falta de evacuação aérea. Assiste-se à pilhagem dos bens essenciais que a nação depauperada vai destinando à máquina militar. Há uma nítida separação entre o militar de caserna e aquele que avança na mata de mochila ás costas. Enquanto uns sofrem as dificuldades da progressão na mata, os outros vivem indiferentes a essas dificuldades. Já não há pudor em se blasfemarem missões menos frutuosas. Estamos em decadência quanto à saúde psíquica e moral - há muitos “apanhados” pelo clima. Mal suporto os imbecis que justificam a perda do cadáver de qualquer companheiro, com o facto de não haver helicóptero para fazer a evacuação atempada, sabendo-se que essas máquinas preciosas e encorajadoras estavam a servir para recreio dos “graúdos” nas caçadas em terras pacíficas de Nampula! Então que exemplos de convicção temos na retaguarda? Estamos sensíveis a respostas mais consistentes...  

         

     Muitos dos desabafos que vociferei no meio das matas e ao longo das picadas do Norte de Moçambique fazem parte destas narrativas. Entendo que os fantasmas da guerra só podem ser escorraçados com a divulgação pública das angústias dos combatentes.  

 

  

 

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A PASSAGEM – Nhica-Quionga

 

     Desde o Natal que não há reabastecimento às tropas estacionadas nas proximidades do rio Rovuma, mais propriamente nas povoações que vão de Nangade até Nhica. A povoação de Nhica está isolada e não há certezas se o Régulo ainda é fiel a Portugal. Os temporais de chuvas intensas e o derrube de algumas pontes não permitem a passagem de viaturas. Para agravar mais a situação de carências das tropas aí isoladas, os ataques dos guerrilheiros são frequentes e mortíferos. Nesta coluna dos pára-quedistas vão ser integrados vários camiões carregados de víveres, medicamentos e armamento; bens capazes de melhorar a vida daqueles que vivem em situações muito precárias.

     Está tudo carregado e as viaturas alinhadas na parada do batalhão - são dezassete viaturas, entre Unimogs de transporte de pessoal e camiões Mercedes e Berliets. Perfilados e devidamente equipados para uma jornada de mais de um mês, os pára-quedistas embarcam com a convicção de que estão a prestar um bom serviço à pátria. Os condutores já aquecem os motores; estes homens das máquinas são extraordinários de abnegação: percorrem centenas e centenas de quilómetros por semana, em caminhos poeirentos ou lamacentos, sempre no meio do perigo. E esta jornada é considerada muito perigosa, mas a tropas avança com determinação e confiantes no integral cumprimento da missão: abrir as vias de reabastecimento aos destacamentos do Exército estacionados em Nangade, Namioca, Pundanhar, e Palma-Quionga. Mas o objectivo é chegar até à povoação de Nhica situada nos contrafortes do monte sobranceiro ao rio Ruvuma.

     Até Mutamba dos Macondes o percurso é feito sem grandes problemas. O pessoal da "7 de Espadas" aí destacado mostra o seu anseio na descarga dos produtos alimentares e munições. Nem tivemos tempo para conviver, embora os elementos da Companhia de Caçadores convidassem para uma arrozada de atum, o tempo para chegar a Nangade é escasso e ninguém sabe ao certo o estado das picadas, depois das grandes chuvadas da época. Assim, após a descarga dos alimentos e do combustível, continuamos a caminhada ladeira abaixo até encontrar uma ribeira com a ponte destruída.

     Os caminhos esburacados por acção das chuvas dos trópicos e as pontes danificadas perturbam o andamento da coluna que se estende por várias centenas de metros. Pouco mais de cinco quilómetros à frente, a imponência da linha de água trava o movimento das viaturas. Não há alternativa à passagem, a não ser pelo lamaçal da ribeira. A ponte está destruída em mais de metade do piso, e não oferece garantias de segurança. Uma secção toma posições de defesa, enquanto os especialistas em minas e armadilhas fazem a vistoria, detectando sinais evidentes de que está armadilhada. Logo, é impossível passar com segurança. Para evitar acidentes futuros, faz-se explodir o que resta da ponte que fica em escombros. Assim não engana ninguém! O pó dos escombros vai caindo por cima das cabeças de olhar atento sobre os morros em redor.

 

 

 

    Os Unimogs com guincho de reboque passam através do leito lodoso e são amarrados às árvores mais fortes no lado oposto. Estendidos os cabos de reboque, as restantes viaturas Berliets, Mercedes e GMCs passam, uma a uma, para a outra banda. A operação demorou mais de quatro horas.

     Silenciosamente, as árvores observam o nosso desespero perante as demoras imprevistas e a noite a aproximar-se! Com todas as viaturas alinhadas na picada, ninguém se apercebeu que o inimigo espreitava, comovido! Mas o bom senso dos que também sofrem com a guerra protegeu-nos.

     No morro sobranceiro à ponte está o capitão Chumachuma com o seu pequeno grupo de oito guerrilheiros, que pretendem bombardear o aquartelamento de Mutamba durante a noite. E fala com os seus companheiros: “É só para chatear! O comandante Kavandame gosta de atacar os tropas à noite. Aqui neste tropa não vai gastar morteiro, não. Eu nem sou chefe de brange... já podia ser com muito jeito. Estes tropas estão com azar! Mas ordens é ordens e não vai atacar tropas ali emperrados; meu espírito diz que não deve atacar”.

     Semanas mais tarde, uma secção de pára-quedistas surpreende este capitão e mais cinco guerrilheiros do seu grupo a pescar no lago Nangade; precavendo-se contra eventuais guerrilheiros escondidos na mata, um grupo de quatro homens fica dentro da mata, enquanto os restantes cinco cercam os "frelimo", obrigando-os a afastarem-se das armas que tinham no chão e junto à água. à ordem do sargento Botelho, levantaram os braços, tendo o "capitão" lembrado o cumprimento das Convenções de Genebra para os prisioneiros! Coisa rara nesta guerra... mas, foi avisado de que, o disparo de algum tiro pelos seus homens ocultos na mata, seriam crivados de balas. Foram conduzidos como prisioneiros até ao aquartelamento de Nangade. Na guerra há destas contingências mas também pode haver tolerâncias. Na verdade, perante os pedidos de clemência do chefe dos guerrilheiros, foi feito um acordo que resultou no regresso dum piloto que estava prisioneiro numa base da guerrilha em território do Tanganica.

     Esta é uma missão reconfortante pela alegria que leva aos degradados dentro do arame farpado. Ao anoitecer, avistam-se as palhotas do aquartelamento de Nangade, implantado nas planuras da savana que leva ao lago Nangade. Uma noite para descanso e convívio com os sitiados ajuda a manter a moral das tropas.

     Nos quatro dias que se seguem, a coluna avança ao encontro dos três destacamentos avançados de tropas do Exército, que vivem em condições precárias, nas proximidades da fronteira com o Tanganica. Os reabastecimentos são primordiais para aquele pessoal que mostra uma estranha resignação perante tanto desconforto.

 

 

 

     A progressão é cuidadosa ao longo das picadas propícias a acções de emboscadas. Nos troços do percurso julgados mais perigosos, parte do pessoal segue na frente, apeado e, com alguma perícia e muito cuidado procuram possíveis minas escondidas. Para os pontos elevados do terreno sobranceiro à picada, são destacadas equipas de atiradores que protegem a passagem das viaturas, e só depois tomam lugar nos Unimogs. Ao sexto dia a coluna chega a Nhica/Quionga, onde foi feito um minucioso reconhecimento do local, muito perto da foz do rio Rovuma.

    Encontrámos uma estranha situação de resistência: as autoridades militares sabiam que estariam aí refugiados três guardas-fiscais, mas era desconhecida a sua situação. Para nosso espanto, logo na primeira tentativa de assalto à povoação, mal os primeiros pára-quedistas entraram, deparam com alguns sentinelas negros sentados, de arma ao lado, a ler o Corão! Ao fim da tarde as posições de cerco estão concluídas. Mas o régulo não se amedronta e vem na direcção do grupo que mantém os guardas cercados. Estes até nem estão muito incomodados por verem as armas apontadas! E o régulo apresenta-se aos pára-quedistas mostrando um medalhão dependurado ao pescoço, onde se destaca a efígie do presidente Salazar. No primeiro diálogo, num português bastante explícito, vai dizendo que estão três guardas fiscais naquela sanzala; que está com a tropa e contra a Frelimo e que tem alguns cipaios às suas ordens.

     O comandante da companhia conversa com os sargentos das secções que tomaram posições dentro da sanzala, baixa o cano da espingarda para o chão e cumprimenta o régulo. Olha para o espaçoso terreiro que fica no meio das palhotas e manda entrar as viaturas que se dispõem ao longo do terreno. O pessoal do primeiro pelotão toma posições de defesa nos pontos estratégicos, enquanto outros preparam os sítios adequados ao acantonamento para descanso. Seguem-se episódicos actos de confraternização com alguns indígenas e com os cipaios, os quais mostram alguma serenidade e que estão senhores da situação. Os guardas abandonam os buracos subterrâneos onde vivem e encaminham-se ao encontro da tropa, congratulando-se por estarem salvos. Comovidos e felizes, relatam algumas das peripécias por que passaram até serem recolhidos naquele reduto que os protegeu das investidas dos guerrilheiros da Frelimo.   

 

 

 

     Um terreiro com uma cerca de finos toros de madeira e coberto de capim serve para descanso do pessoal, no espaço que serve de escola - e fala-se português nesta escola! Coisa rara por estas paragens. Os guardas (brancos), armados com escupetas 7,7, são apresentados pelo régulo Massinga, dizendo que os acolheu ali, depois da Frelimo ter começado a guerrilha. Vivem num abrigo subterrâneo escavado no lado oposto ao largo rodeado de palhotas do burgo e já se entendem bem com o Corão e o islamismo.

     Os habitantes são reservados e raramente saem das palhotas. Presume-se que vivam aqui umas três centenas de pessoas, cultivando machambas em redor da povoação, onde colhem os proveitos para seu sustento. Está tudo muito bem organizado dentro desta estranha comunidade. O régulo Massinga tem cinco mulheres e três “secretários” que administram as regras da comunidade. Até para comprar galinhas aos indígenas é preciso uma autorização verbal, transmitida por um dos secretários aos pretensos vendedores. O preço estabelecido é de 12$50 por cada galinha. Nos dois dias que a tropa permaneceu no local, os churrascos foram às dezenas.  

 

 

 

 

 

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ASSALTO AO ACAMPAMENTO - Nangade

 

     Assaltámos o acampamento ali dissimulado na antiga serração. Não houve muitos tiros e os indígenas ainda presentes não ofereceram resistência; pois, o grosso dos guerrilheiros já se tinha ausentado. Entrámos de chofre no largo coberto de papaias e logo algumas mulheres saíram da palhota com as mãos em cima da cabeça.

     O guia entrou no meio dos indígenas e começou a revistar; furioso, correu para a palhota a gritar:

     - Bandido foi no mato, cade ele?

     Um homem já de cabelos grisalhos saiu da palhota a responder:

     - Ernesto está muito sevage, não vai no Tanganica nem quer trabalhar no brange. Ué, siô capitão. Julgas que descarrego a mia boca? Nem faz fogo de caniço e tu tens mais guerra. (queria dizer que se incendiasse-mos as palhotas as coisas seriam piores).

     O capitão ficou atónico com aquele desabafo do negro. Preparava-se para demonstrar o seu azedume, puxando pelo cinturão, quando o sargento Acácio improvisou uma pausa:

     - Ele diz que foi secretário no brange; deve saber quem é o comandante! E se déssemos uma volta pela serração a ver se há sinais da presença de homens armados nas redondezas?

     O capitão estava confuso com aquele diálogo de merda. Quis saber quem era o Ernesto, mas o negro deitou os olhos para o chão e nada disse. O capitão atalhou:

     - Não vamos seguir a picada; estamos sujeitos a emboscadas, e porque havemos de andar um ou dois dias no mato se temos aqui a fonte de informações que precisamos?

     Na verdade, o negro calçava umas boas botas de cano em couro com atilhos laterais, vestia uma farda que indiciava pertencer à hierarquia média dos guerrilheiros. Naturalmente que não era apenas machambeiro! Devia saber mais do que queria dizer; só que não estava interessado em falar com a nossa tropa. Então o capitão mandou uma estocada:

     - Tu não tens culpa de estares no mato. Os brancos não são estrangeiros e tu poder viver melhor se trabalhares com a tropa. Com o branco podes ser “civilizado” e deixares de sofrer com esses mandões que te deixam no mato.

 

 

 

     O guia maconde ia traduzindo calmamente, mas via-se o seu rosto assanhado! Ele também queria molhar a sopa nas fussas do homem. Há nossa volta as mulheres estavam de mãos na cabeça, mas a agitação era notória. O medo trespassava a pele e o cheiro a catinga já incomodava. Os soldados estavam dispersos pelas instalações da antiga serração, alguns já procuravam colher mangas que estavam mesmo por cima das suas cabeças. Mas o capitão não dava tréguas ao negro. Queria saber mais, depois do sermão que tinha mandado. Não se viam sinais de colaboração do negro que tinha os olhos brilhantes virados para o chão. Demonstrava nada se perturbar com as palavras do capitão. Este continuou:

     - Se andas no mato, voltas a ser apanhado pela tropa ou podes ser morto. Não passa de um selvagem, um brutinho mandado para o combate sem razão. Não havia respostas nem sorrisos na cara do preto! E o capitão perguntou:

     - Onde tens as armas?

     O negro não deu sinais de entender... resignado, olhou para as botas do capitão e fitou-o dos pés à cabeça.

     - Sôr capitão, sabe o que é “colonialismo”? Sabe o que é ser escorraçado da sua própria casa? Sabe o que é ver os administradores e os tropas a foder as nossas mulheres e as nossas filhas? Sabe o que é o imposto de palhota, exigido a quem passa miséria no mato? Não sabe não! Vocês são uns danados que ultrajam os pobres desgraçados das sanzalas. Que civilização é a vossa, para matar crianças e velhos desarmados? Queimam as nossas casas! A história já vos condenou.

     - Zás, o capitão solta a sua fúria com o cinturão nas costas do “matumbo”.

     Quem acredita que o negro falou dos movimentos guerrilheiros? E o capitão mais uma vez descarregou a sua raiva com uma bofetada na cara do negro. Aquilo era desumanizá-lo cobardemente; mas compreendia-se a situação.

     O capitão entregou o caso ao sargento Santos e retirou-se para dentro de uma palhota onde já estavam alguns soldados. Aí tentou falar pelo rádio com o piloto de uma Dornier que andava perto. Depois de se inteirar da distância até ao acampamento, dadas as devidas diferenças de cálculo feito por quem vê o terreno lá do alto, pegou na bússola e definiu a direcção a seguir. Virou-se para o alferes Américo e ordenou:

     - Põe o pessoal em movimento rumo a leste, aproveitando esta picada mais batida, e com a orientação do guia.

     Disse ao alferes Coutinho para reunir população, cerca de 16 pessoas, e seguisse rumo ao acampamento. Tomadas as devidas cautelas, com presunção de emboscadas, a coluna andou, andou... sem problemas! O sargento Santos e o pessoal da sua secção não perderam de vista o negro que parecia ser um chefe guerrilheiro com problemas num pé, pois ia coxeando.  

     Era noite quando entramos no acampamento, com os very-ligts a anunciar a chegada. Foram cinco horas de marcha. O pessoal arrumou algumas cartucheiras nas mochilas que estavam nos abrigos, começando a comer umas bolachas e conservas. O sargento Santos não perdeu tempo e arranjou dois soldados mais afoitos para o ajudar no interrogatório ao negro, aproveitando a frescura da noite! E avisou:

     - Se de nada valeram as cinturadas e todo aquele chinfrim, nem o sermão do capitão, já vou arranjar maneira de deitares cá para fora o que eu quero saber!

     Mas o sargento Botelho estava atento e não deixou de interferir no dilema do sargento Santos. Então foi dizendo:

     - Oh pá, deves entender que também há regras para fazer justiça aqui no meio da selva. Basta perceber como funciona este mundo comunitário dos pretos. E por aquilo que sei, há boas razões para tentares ir por esse caminho. O sargento Santos olhou de soslaio e riu-se, enquanto ia preparando o tribunal de inquisição.

     As raízes daquele homem do mato estavam bem seguras e nada o poderia fazer abanar, nem mesmo as cinturadas. Nem as ameaças mais tortas o faziam tremer. E retomaram o interrogatório, com o negro amarrado ao tronco de um cajueiro e sob a ameaça da Walter do sargento. Este disparou duas bofetadas na cara do negro, ouvindo apenas alguns queixumes por entre dentes! Dava para perceber o sofrimento por estar ali sujeito a vexames e preso pela tropa. Até cuspia! Mas de palavras, nada. Um dos soldados foi puxando a laçada que lhe prendia as mãos ao cajueiro, mas só se ouviam os gemidos e os olhos pareciam estalar de raiva, vidrados que estavam. Foram mais de trinta minutos de suplício para aquele homem sujeito à humilhação.

     A noite ia longa, a fome parecia uma charanga no festim do interrogatório do guerrilheiro. A malta que assistia começou a debandar para os seus locais de abrigo. Alguns ainda foram à mochila por umas bolachas da Manutenção e algumas latas de atum que viraram pitéu! Já vão vinte dias no interior da mata, sem alimentação decente. Mas o pitéu foi saboreado como camarão grelhado do Scala de Lourenço Marques. As essências para temperar o pitéu estavam nas escórias que saíam das unhas por limpar havia semanas. O vinho Casal Garcia branco estava no cantil, e foi apanhado há dois dias no charco imundo de Napota. É preciso ter bom gosto para assim manjar estes petiscos frescos, aqui espairecidos no meio dum paraíso com sofisticado gindungo e balázios clandestinos.

     Para a semana, teremos ementa melhorada! Na sanzala de Nangade há umas galinhas sem cachecol, que os radares já detectaram antes de estacionarmos neste paraíso. Ah! boa festa e gente com sapiência ácida no surripanço, que faz deles corsários da selva. Quem não vai gostar é o régulo Chota Sumas. Como general daquele sítio, não autoriza que os indígenas vendam galinhas. E pára-quedista não vai passar fome, tendo o pitéu ali à mão. Isso é que não vai!

 

 

     As machambas pareciam desertas! Manhã cedo, com a neblina do planalto a encurtar a visão para enxergarmos as sanzalas de Nangade, já o Alfredo e o Bilé avançavam atrás da baforada de ar fresco que vem do lago. Ainda não tinham entrado no milheiral e já as aves levantavam a cabeça a cacarejar... como quem zomba dos estômagos vazios! E mais soldados se dedicaram à delicada caça aos galináceos das gentes do régulo sovina.           

     O sargento Santos passou pelo buraco dos Pides, a quem fez entrega do importante guerrilheiro, para os fins que a nação entender... tudo a bem da nação!

 

 

 

 

O  AZIMUTE

 

    Olho as estrelas do sul

como guias do meu caminho,

    é um longínquo espaço azul  

onde não encontro o azimute

que me desvie deste deserto infernal

    desta vida que passo mal!

 

Queria fugir da prevista degradação,

deste disparate de vida ajavardada

em que nos atolamos, perdidos

no destino que a governação traça

para indignação da nossa raça.

 

O sol já nos atinge sem dó

nesta terra pardacenta

onde a vaga de calor com pó

seca a nossa garganta...

navegamos até ao esquecimento

da razão deste esmorecimento!

O pensamento voa com o vento

e as saudades... tantas, tantas

    olhos postos na distância

que nos separa da terra-lusa...

emoções fortes da nossa infância

    onde a vida era mais difusa!

 

Cada momento é um desafio ao futuro...

    neste percurso difícil e sinuoso,

tudo fica suspenso... mais duro

e o corpo em movimento ondulante,

abriga-se à sombra do cajueiro mimoso,

para absorver a força dum elefante...

 

Aqui espero que o milagre aconteça

enquanto tenho o futuro à espera,

quero que a vontade não esmoreça

porque da morte ninguém recupera!

 

                                                                        Nangade, Fevereiro de 1966

 

 

  

 

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UMA FATÍDICA missão –  Mendire-rio Mulanga

 

     Passava da meia-noite quando a tropa procurava a melhor posição para um curto descanso, antes de regressar ao acantonamento de Napota. Com mais de 26 horas de marcha até ao vale do rio Mulanga, onde assaltamos um acampamento com guerrilheiros que deram luta, os corpos mereciam repousar e recuperar energias. Foi um dia de sede danada; alguns soldados, mal puseram as mochilas no chão, encontraram dois potes com água, casualmente ali à sua mercê. - Reserva do inimigo, só podia ser! O tilintar dos cantis em busca de um bocadinho do precioso líquido levou outros a precipitarem-se na direcção do milagroso oásis. Houve alarido, enquanto tentavam apanhar algumas gotas.

     Inesperadamente, dois ou três tiros disparados do exterior daquele largo, deixaram toda a gente em sobressalto. Alguns dos pára-quedistas que estavam a tentar recolher água atiraram-se para o chão e outros rastejaram para fora do centro da zona pelada, temendo o rebentamento de granadas atiradas pelo inimigo. Pois era o inimigo que estava ali, mesmo a rondar o poiso provisório. 

     Passada a surpresa do ataque, os gemidos fizeram ouvir o pedido de socorro! Três soldados prostrados no chão; um morto e dois gravemente feridos, já sem reacção nos corpos ensanguentados. Situação confusa e insegura, porque havia pára-quedistas desarmados e fora da zona de reunião, que limitavam a acção dos que mantinham a segurança. Então, o capitão avisou:

     - Todo o pessoal que está fora, salte já para junto das respectivas equipas.

     E logo se ouviram os corpos a rastejar com rapidez. As equipas de segurança, abriram fogo em círculo, tentando apanhar algum dos guerrilheiros que haviam disparado. Os enfermeiros tentaram reanimar os dois feridos, enquanto se constatava a morte do terceiro atingido friamente. O local não oferecia segurança, porque não tinha pontos de abrigo. O capitão mandou providenciar a remoção do morto e dos feridos para um local mais seguro. Cortaram-se alguns ramos de árvores para, com as lonas das tendas, improvisar macas; os enfermeiros injectaram coraminas e coagulantes nos feridos, além de improvisarem a administração de soro. Um dos feridos começou a mexer a cabeça e perguntou o que estava a acontecer! O enfermeiro deu-lhe duas palavras para acalmar!

     Mais de setenta pára-quedistas, cansados, amargurados, seguiram mais para norte, transportando o infortúnio cravado nos corpos em luta contra a morte. Uma grande machamba com um milheiral viçoso serviu de poiso àqueles valentes do mato. O capitão decidiu que ali ficasse o pelotão com o morto e os feridos, até serem evacuados, provavelmente no dia seguinte. Os outros dois pelotões continuaram a marcha até ao acantonamento de Napota, onde tinham possibilidade de comunicar via rádio com o comando de Mueda e providenciarem a vinda do helicóptero para evacuação e aviões para cobertura e segurança do pelotão sitiado. Assim se fez, e o pelotão destroçado ali ficou à espera de socorros...

     Durante a noite manteve-se um extenuante esforço para reanimar os feridos, já que o morto estava em paz! O Botelho ia preparando os frascos de soro que o Valente segurava na mão direita, enquanto o enfermeiro transferia o tubo da agulha para o novo frasco da nossa esperança. Eram quatro horas da manhã quando as aves vindas da mata ensaiavam os primeiros gorjeios. O corpo do Madriana estremeceu, respirava com muita dificuldade. As pulsações imperceptíveis e o sinal da morte atemorizaram os socorristas. As injecções de coramina não estavam a resultar e as hemorragias internas não foram estancadas. Na agulha encravada no braço já não circulavam gotas de soro, nem se detectava a cana da veia para meter outra agulha. Num arremesso de desespero, o Botelho tirou a navalha do bolso, passou os dedos pela lâmina, dizendo ao enfermeiro que só puxando a veia do pulso para fora se poderia meter a agulha. O enfermeiro segurou o braço esquerdo do moribundo, com o bico da lâmina e o Botelho conseguiu enfiar a agulha. Do frasco caíram algumas gotas, numa lentidão de recusa à vida! Entre os dois socorristas cruzaram-se olhares de esperança. Mas as gotas pararam de correr e o corpo definhava a olhos vistos. A uma nova tentativa para injectar soro, o corpo já não reagiu e esmoreceu definitivamente. Não tinha sinais de vida!

     O sol começou a aquecer quando se esgotou o sangue nas veias do ferido e este se finou perante os olhares incrédulos dos presentes. Apesar das tentativas para o manter vivo, as hemorragias internas determinam o fatal desfecho. O enfermeiro, desalentado, sentou-se no chão. O dia nasceu lentamente, mas o corpo do Madriana já não respirou o ar da manhã. Ainda com as lágrimas suspensas, perguntámos ao Deus omnipotente, porque deixou morrer jovens naquelas condições. E nem a bondade do Senhor nos deu resposta! Os corpos jazem mortos e inocentes.

 

     

     O desânimo era total entre aquele pequeno grupo de homens bem preparados para a guerra, mas incapazes perante a morte. A desafortunada vivência piorou quando o outro ferido começou a sentir-se desprotegido contra a sanha da morte que o rodeava; e lançou uma exclamação que aumentou a nossa inquietação:

     - Meus irmãos, vejo que está próxima a minha vez, mas só vos peço que não me deixeis nesta terra longe dos meus pais.

     Os efeitos da sede já enevoaram os registos do cérebro e os olhos deixaram de enxergar os perigos que se ocultam na mata... é sempre em frente!

     O Gomes tremia muito, perante a triste realidade dos mortos que definharam a seu lado. Mas não tremia de medo... porque a morte passou e poupou-lhe a vida nesta última viagem! Mas o sangue que se escapava da ferida aberta no seu peito era uma grande inquietação. Os borbulhões vermelhos fragilizam a coragem de qualquer corpo ferido. E a alma sentia-se ameaçada pela perda do seu suporte num corpo em sofrimento; por isso, tinha que tremer... O corpo do Gomes tremia, e cobri-o com a manta; mas o calor do sol era forte! Um absurdo de remédio!

     A fome e a sede perturbam a lucidez, como é natural; e alguns sentiam os efeitos das alucinações que os levaram ao delírio! Era preciso procurar meios de sobrevivência, porque as rações e a água acabaram no dia anterior. Passava do meio-dia e não havia sinais de apoio aéreo, nem de quaisquer outros meios. Os sitiados pára-quedistas, desalentados e fracos, cada um a seu modo, procurava proteger-se do sol abrasador, cortando milheiros para se cobrir atrás dos minúsculos peitoris de defesa escavados na terra dura.

     O sargento Botelho chamou o prisioneiro que se dizia ser capitão Simango da Frelimo. Foi apanhado nas proximidades de Pundanhar e entregue no aquartelamento de Nangade. Servia de tradutor, mau grado a nossa desconfiança. Era legítimo que obrigasse o prisioneiro a indicar onde haveria melancias ou outros frutos, uma vez que conhecia a zona. Mas o capitão Simango só aceitava ajudar na procura de alimentos se lhe déssemos uma arma para as mãos - dizia ter medo dos ataques e não poder responder! O aparente sossego contrastava com o desânimo que se abateu sobre os dezoito homens que ainda restavam do pelotão, com condições de reagir. Não havia tempo a perder e foi combinado entregar uma arma ao prisioneiro, mas ser o sargento a transportar o carregador. Ainda foi feita uma recomendação:

     - Meu caro capitão Simango, se tiver o azar de fazer algum gesto ameaçador, será morto imediatamente, porque vai seguir na frente das nossas armas.

     Foram quatro homens famintos à procura de alimento. Passados mais três campos de milho, lá apareceram as melancias verdes que fizeram sorrir os olhos. Cada um colheu as que pode guardar dentro do camuflado, em redor do corpo viscoso de suor. E logo regressaram, para matarem a fome e a sede que era causa de desespero nas cabeças de alguns mais frágeis. Pois, nem todos têm a mesma resistência ao impiedoso calor e à tragédia que se abateu sobre aquele punhado de homens abandonados no meio da mata, à mercê da sua sorte.

 

 

 

 

 

PORQUE  PROTESTO

 

Meu companheiro de infortúnio,

Madriana exangue que te finas...

já nem encontro o teu sangue

que se escoa das veias finas.

   O sol não ouve o meu apelo

   depois duma noite dolorosa,

   o teu corpo arrefece, pesadelo

   da vida que se escapa desditosa!

 

As palavras presas na garganta

aumentam o perturbante silêncio,

mas o protesto contra as balas

não ajuda a conjugar a razão

   porque jazem os heróis frios

   em terras onde a pátria apodrece

   com a degradante governação.

 

Horas da raiva que se desvanece

neste cenário onde o prumo esquece

o desejo de fazer o que não faço:

- bater a todas as portas e janelas

e afugentar a corja do Terreiro do paço,

para acabarem as nossas mazelas!

 

                       Napota, Março de 1966

 

 

 

 

 

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A MORTE do SOUSA

 

     Ouvi dois estampidos secos. Olho nessa direcção, já estavas a tombar com a cabeça a roçar a Armalite. Ainda ouvi os teus gemidos de fim de vida. A cabeça estava trespassada pelas balas; num arrebatamento doloroso, tento segurar-te a respiração, mas já não encontro o fio, porque a morte te roubou a vitalidade e surpreendeu-te no posto de vigia. O sangue ainda fresco a misturar-se com a terra parda da machamba, onde poucos minutos antes acabaste de comer uma verde melancia que essa terra pariu para te matar a fome e a sede, entregou o corpo à pátria longínqua. Agora, esta terra que deu os frutos para te ajudar a viver, absorve o teu fluído vital que se escapa, do corpo, sem retorno! Assim te choramos, amigo Sousa. Os pára-quedistas ficam mais pobres, nesta luta pela vida.

     O alvorecer na machamba grave e quente, não esmorece o desejo de vingar a morte e o drama que se abateu sobre os companheiros Madriana, Farelo e Sousa. Ainda mal refeito, com as lágrimas inundando o pensamento e as mágoas a esmorecer a vontade de sobreviver à desdita do combate da ilusão que anima os jovens que me seguem, tento recompor-me das emoções serenamente contidas no reduto da precária obediência; sinto o coração chorar no silêncio da canícula que decompõe os corpos trespassados pelas balas dum inimigo emboscado e não posso desabafar a minha revolta interior, que a ninguém pertence mas que se manifesta.

     O soldado Farelo entrou no mundo da escuridão e não teve regresso; o Madriana deixou de pertencer ao mundo dos vivos, já os raios solares nos atingiam sem compaixão, após um longo definhar na luta contra o esvaziamento das veias que se esgotaram; mesmo perante a nossa persistência em lhe fornecermos soros e produtos farmacêuticos adequados, além duma transfusão directa com o sangue generoso do Sousa, tudo infrutífero.

     Já o sol estava a pique crestando o nosso corpo fraco e extenuado, quando caímos num leve repouso de recuperação... por algumas horas. A surpresa foi tal que nem queríamos acreditar! Dois tiros secos e certeiros se fizeram ouvir e a desgraça ainda mais nos atormentou - o Sousa caiu morto e agarrado à arma no seu posto de observação.

     O Sousa, que fazia a vigilância do sector da mata, foi atingido por uma bala certeira e mortal na cabeça, deixando-o prostrado e imóvel já sem vida. Perante o nosso desalento, ali estava de olhos arregalados e mortiços. Esgotados e desidratados, caímos na realidade da nossa tragédia.

 

 

 

      E agora companheiros que perdestes a vossa vida nesta guerra? Não pode haver toque de sinos... estão longe! Os vossos corpos putrefactos, na inevitável decomposição da seiva que vos abandonou nas terras agrestes dos macondes, irão voar para Lisboa. Será a vossa morte a derradeira? Vós ides partir para a terra-mãe, para serdes enterrados ao som da funérea detonação dos últimos cartuchos em pompa militar! Nós, continuaremos com a esperança no entendimento dos princípios que definam o fim da colonização e a libertação das vontades de todos os povos. Esta é que é a razão do nosso sofrimento.

     Somos cada vez mais a ver a verdade da história moderna, porque o tempo determina. Estamos a caminho duma maior clareza das coisas da humanidade; esse é o meu caminho, com muitos outros a acompanhar, até que a guerra termine! Quantos de nós chegarão ao fim e terão a coragem de enfrentar a engrenagem, mantendo a firmeza da fé.    

     A magia da selva solta gemidos que encantam, e os ouvidos ouvem longe os gritos das mães que já não recebem os seus filhos que aqui vertem o seu sangue que ainda tentamos resgatar! Antes que a memória se apague e durma a noite derradeira, vou clamar ao vento o meu pensamento agreste.

 

 

 

 

UM  TERRÍVEL  ABANDONO

 

Ouvi o rumor do vento atravessando

     as savanas...

enquanto descia a noite

o silêncio dos companheiros

estremeceu o milho das machambas

regadas com o sangue vermelho

que a morte percorreu na fatídica hora!

 

Ninguém pode sair daqui p’ra fora!

    os corpos esgotados...

abandonados na terra pardacenta

que cavámos para refúgio

    das consciências tensas...

ali mesmo sente-se a morte lenta

a sugar o sangue derramado

    amargurado sofrimento...

 

Todos perdem a própria razão

    surdos ao rumor do vento!

Reprimimos a violenta respiração

e logo o dedo imprime a força

no gatilho percutor da morte.

   Mais um que não teve sorte...

 

Sente-se uma estranha recusa

entrelaçada no vazio das ideias

que nos consomem em terra lusa!

Quero atirar fora estas peias

urdidas por escabrosos vultos

que nos querem assim matar...

joguetes de interesses ocultos

nem os mortos querem enterrar! 

 

              Napota-Nangade, 15 de Março de 1966 

 

 

 

 

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A TRAGÉDIA na ESCURIDÃO

 

     Morreram em silêncio, com as pálpebras semi-fechadas já de corpo rígido. Senti o bafo da morte que cumpria o seu rito solitário e fiquei desolado com o finar de três jovens soldados. O sol escureceu no meu peito e senti-me entrar nos subterrâneos da loucura.

     O Sousa não sentiu a mordidela da bala que lhe perfurou a cabeça, deixando esguichar umas escassas gotas de vida e ficou cadáver a olhar para o céu! O Madriana esperou oito horas que um deus qualquer o sossegasse, e o pássaro não apareceu para alimentar a esperança! Já o Farelo se finou sem sequer beber as gotas de água com que tentava minorar a sede. Era meia-noite e, em vez do cantar dos galos, ouviram-se os estampidos dos cartuchos de zagalotes!

     O pássaro gigante já esvoaça por cima das nossas cabeças e a turbulência das hélices afasta este cheiro pestilento dos corpos que espalharam a seiva da vida nesta machamba de milho verdejante. Alguns companheiros sofrem os efeitos do pavor que se abateu sobre a companhia, quando algumas balas traiçoeiras perfuraram os corpos que agora nos agoniam. As imagens que nos ficam na mente não podem ser mais marcantes. O espectro da morte está ali ao lado, bem visível nos corpos dilacerados que o absurdo desta guerra atirou por terra, sem contemplações das crenças no além, e passados três dias, apodrecem longe da pátria-mãe, deixando-nos dolorosamente incapazes de protestar.

     Assim é em Napota, terra de Macondes, neste dia 14 de Março de 1966, quando se desliga o fluxo da seiva que se escapa nesta penúria da guerra. De que vale sermos afoitos e eficazes no cumprimento das missões, quando os meios de apoio não existem, os grandes chefes nos ignoram e as distâncias nos deixam à mercê da sorte, porque um corpo perfurado perde a seiva da vida e jamais terá hipótese de receber os necessários socorros.

 

 

 

 

 

 

DESÂNIMO

 

Tento aliviar o desânimo que me atinge

na profundeza das lágrimas clandestinas!

 

quase perdido no lastro do caixão

moribundo que a vida finge

confortar num sonho mágico

que não acalenta meu coração.

 

Vieste participar no circo trágico

que nos atira para a engrenagem

miserável da nefasta guerra...

mas sem dares conta da miragem

os teus gritos a favor da paz

ecoarão até aos confins da terra.

 

Companheiro Sousa que caíste

trespassado pela bala inesperada,

tal era o teu cansaço que não viste

a morte na ausência decretada!

 

Só limparei o desânimo se tiver

atirado com a mordaça ao inferno,

porque a memória me faz viver

e o teu corpo jaze no sono eterno.

 

                   Nangade, Março de 1966 

 

 

 

 

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NEM TODOS REGRESSARAM!

 

     Depois de trinta e quatro dias em campanha extenuante e demolidora para a nossa condição de homens, o comandante do sector militar da zona teve o desplante de exigir ao capitão Pessoa um último sacrifício; através do rádio, disparou:

     - Senhor capitão, depois dos seus homens serem atacados já no fim da missão, com vários mortos e feridos a lamentar, temos a certeza de que o inimigo ainda está muito forte e precisa duma boa resposta!

     Junto à palhota do rádio, toda a gente estava espantada com o discurso, que continuou: - Não é aconselhável abandonar a zona sem eliminar o perigo; portanto, ordeno que continue em operações até limpar a zona de inimigos.

     Todos se olharam incrédulos com o que ouviam! No meio do acampamento, as Berliets já se alinhavam à espera que os motores fossem postos em marcha, com destino a Mueda. E o comandante de sector esperava:

     - Escuto! Escuto! Ninguém responde?

Mas o capitão olhava para os seus soldados e não tinha palavras... Farto de ouvir aquele rufar de tambores carunchosos, agarrou no microfone e disse, em tom zangado e forte:

     - Meu comandante, já ultrapassamos o tempo previsto da nossa missão, não temos alimentos... temos viaturas e regressamos hoje mesmo a Mueda. Terminado!

     Uma hora depois estávamos a caminho de Mueda, cujo percurso era perigoso e para várias horas. Chegámos às dez da noite. 

     Regressados a Mueda, cansados das longas caminhadas, apeados e em viaturas, dos dias tórridos no meio da savana, das noites frias entre as matas; manhãs de sonhos em cenários de morte, com os corpos esguios e as carnes ressequidas de magreza, os rostos crestados pela dureza das jornadas; ainda nos esperava o ritual da embalsamação dos mortos. Quatro dias depois da recuperação dos cadáveres pestilentos, este inesperado trabalho aumentou a nossa agonia.

 

 

 

     O médico do posto de socorros de Mueda esperava a ajuda dos pára-quedistas para as formalidades da identificação dos defuntos e para o fecho das urnas. Com umas ligaduras molhadas a tapar as narinas, uns iam espalhando cal à volta dos restos mortais e outros colocavam as tampas nas urnas. Trabalho ingrato, que ninguém aguentava mais de cinco minutos seguidos, sem ter que sair para respirar ar puro! Além dos três pára-quedistas mortos em Napota, havia mais dois do exército que morreram numa emboscada, quando transportavam o reabastecimento para os destacamentos de Sagal e de Diaca. Após o trabalho de soldadura do chumbo de cada urna, o sargento enfermeiro pregava uma pequena cartolina na tampa, com a identificação do defunto; além disso, riscava com a ponta duma tesoura o número e o apelido na madeira da urna.

     Uma mina cuspiu o seu sopro bruto e atirou pelos ares o Unimog que se estatelou na berma da picada já bem perto do Sagal. Cinco soldados e o condutor voaram como penas ao sabor da explosão, tendo dois deles ficado entalados no meio das ferragens fumegantes da viatura e os restantes estatelaram-se no meio do capim sofrendo pequenas escoriações. Aquela curva da morte tem vindimado a vida de muitos militares; muitos deles, morrem inocentes, sem saberem porquê.

     Depois de prontas as urnas para seguirem para a santa terra, fomos indagar da razão da falta de apoio aéreo, enquanto estivemos sitiados em Mendire; e porque não foi lá o helicóptero buscar os feridos e os mortos?

     Após algumas recusas, o chefe da esquadra respondeu que não dependia dele dar respostas! O comandante do sector militar da zona é que manda no helicóptero - único operacional na região. Muito pouco, dizemos nós! O mais grave estava para ser revelado pelo mecânico de serviço no fim-de-semana:

     - Por ordens vindas de Nampula, o helicóptero Alouette II foi requisitado para andar por lá, Sábado e Domingo; mas só veio na Segunda-feira às quatro da tarde. Vinha com uma hélice empenada, pelo que tivemos que a endireitar.

     Normalmente, alguns grandes chefes passam os fins-de-semana em caçadas de recreio. Desta vez foi com o helicóptero! Desgraçada pátria que tais comandantes tens! Desgraçados daqueles que dependem desta logística...

 

 

 

 

 

TORMENTOS

 

A noite de sono atormentado

em que dormimos acorrentados

à desgraça da pátria incapaz

de saber se ainda existimos…

abandonados nas terras recuadas

dos milheirais das machambas

      onde mergulhamos

no lodo das incompetências

dos poderes soterrados em S. Bento.

 

A sorte que nos cabe no momento

já se esboçava no desenlace

      que a tragédia adiava

contra os combatentes cansados.

 

O pesadelo é uma eternidade

      que a manhã acordou

quando a morte amarfanhou

mais um soldado valente…

 

o socorro é a ínfima esperança

para nos livrar do tormento

que nos devora os sentidos

para reinventar-mos a vida

que nos foge com o tempo

no prelúdio da sepultura…

 

o silêncio dos olhares

deu alento à tormentosa decisão…

levar os feridos aos ombros

     e caminhar pelo sertão

fugir do ambiente hostil

     que nos mordia a vida

alancar até Napota

     nossa terra prometida

acertar contas com os sacanas

que nos atiram p’ro inferno

por abandonarem nas savanas

os mortos no sono eterno.

 

              Mutamba dos Macondes,  Março de 1966

 

 

 


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