Espaço Etéreo


 

LONGÍNQUO HORIZONTE

 

Confirma-se o encontro dos corpos

     em desejos convergentes

gestos profundos, longos prazeres

tão intensos que os nossos olhos

se perdem na lascívia das bocas

 

um gozo louco que nos atrai

    nesta escuridão amansada...

uma intensa infusão de amores

envolvendo a paixão extasiada.

 

Com afecto ofereço a gratidão

no momento do merecido devaneio,

esse enredo tecido no coração

é como a esperança do meu rodeio.

 

A tua imagem emerge na saudade

e o meu rosto escreve solidão…

sei que é grande a tua bondade

e não deixarás de me dar razão.

 

No meu silêncio... exposto ao sol

que ofusca o longínquo horizonte

    lá no mar cor do arrebol

ainda não vejo azimute que aponte

o caminho à caravela arfando

mas o suspiro com voz dolente

escuto-o de vez em quando

no bater deste coração que sente...

 

E ao som do mais lindo poema

que os meus lábios cantassem

    no sonho que tenho presente  

    da tua boca pequena

límpidos os teus me beijassem.

 

                                    Negage, 1962

 

 

 


 

 

MERGULHOS

 

Quando abraço o murmúrio

que flutua no teu corpo

em forma de aconchego

na cintura que aperto

a boca solta os mistérios

que me trituram na ausência

construo a cabana do sonho

em cima dos teus seios

e avanço para o escuro

que as ancas me franqueiam

dobro os joelhos tensos

e envolvo-me no teu corpo

escorrego nos vitrais da avenida

toco a fulva de veludo

onde descubro o mistério

das carnes macias com vida

já perdido em espasmos

que me dão gozo sem nexo

navego e perco o pé

com o cio do teu sexo

afundo-me na mesma maré!

 

 

 


 

 

INVENÇÕES

 

Há um tempo marcado em cada vida

que nos amarra às boas memórias,

sonhamos misteriosos dias do futuro

longos caminhos para outros lugares

onde inventamos espaços livres

 

O futuro não se inventa, vive-se

na vertigem que nos enreda

nas emboscadas dos vampiros...

a ilusão desfoca e embebeda

a lenta diluição dos suspiros,

 

O horizonte dos dias de bruma

cruza-se com tristezas e alegrias

do tempo escasso que se esfuma

com a vida ausente das imagens

que a morte traz todos os dias.

 

A vida é sempre o futuro sonhado

sem perdermos o vigor presente

nas coisas íntimas que se escapam

por meio do silêncio dos lábios

que convoco para um longo beijo

onde bebemos o licor do desejo

que passa o muro das convergências.

 

São breves os dias... e as ausências

deixam o corpo inerte e frio,

uma esperança caída no vazio

porque nada se inventa nos olhos...

 

Passa o tempo sem nos magoar,

tão precioso...  continua a passar;

porque vives neste poema,

como um filme em qualquer cinema.

 

 

 

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HISTORIA

 

É infinito o sonho da vida

quando o coração bate docemente,

perdura a amizade sem medida

e o corpo sabe quem está ausente.

 

Os instantes em que aferi a imagem

que desenham as palavras de apreço

foram breves como se fizesse a viagem

com a simpatia, um precioso adereço.

 

A tua voz doce prolonga-se no espaço

e deixou eco nos meus ouvidos,

deu o timbre ao poema que faço

quando a imagem desliza nos sentidos.

 

Habitas no aconchego da memória

onde se renovam momentos de ventura,

o melhor desta benevolente história

é o sorriso calmo da minha ternura.

 

Não sei se entendes a brisa suave

que difundes dos olhos fascinantes,

mas não consideres pertinência grave

quando os sentidos estão distantes.

 

                      Luanda, 1962

 

 

 

 


 

 

CARTAS do LONGE

 

    Aqui onde por descuido vivo, as coisas continuam insípidas e perigosas. Raros são os dias em que não lamentamos a morte de algum militar que enfrenta as vicissitudes da guerra. No entanto, continuo vivo e actuante, crente na bondade da natureza e nas virtudes que nos fazem viver para além do sofrimento. Minha querida, sempre tive esperança de que seremos recompensados com a desejada felicidade. Por isso não vamos desfalecer perante as barreiras que nos limitam as vontades.

 

Estamos em viagem permanente

e não devemos renunciar à vontade

nem à esperança que a gente sente

para alcançar a plena felicidade.

Amar é vencer com afagos

aquilo que nos é querido

é caminhar sobre os lagos

quando a vida tem sentido.

A distância não nos pode fechar

nas encruzilhadas desta guerra

enquanto tiver forças para lutar

hei-de regressar à nossa terra.

E a glória de vencer com amor

está nas virtudes da esperança

que renovamos com fervor

até ao dia da esperada bonança.

O fluxo do sangue ardente

movimenta o coração sonhador

para o aconchego permanente

do meu único grande amor.

Chega de ingrata ausência

nesta sequidão desoladora

vamos reavivando a paciência

até chegar a ternura criadora.

Está próximo o dia sonhado

para que os corpos carentes

promulguem o fim do passado

e nos devolva os sonhos ardentes.

 

        Luanda, Janeiro de 1963

 

 

 


 

 

ENSEADA

 

A noite vem devagar…

     ao longe

estão as enormes queimadas

majestosas labaredas a brilhar

desfazendo o capim descuidado!

 

Ouço além as batucadas

    do chingufo a murmurar

marcando a magia do feitiço

que mexe as vidas trocadas

e só a saudade faz sonhar

com o fim de tanto enguiço.

 

Na enseada já vejo um navio...

a esperança do meu desejo

é navegar até ao tempo frio

levando comigo o último beijo.

 

As estrelas ficam nos teus olhos

     como eu ficarei em ti

brilhantes como as lantejoulas

dos outros sonhos que já vivi. 

 

                                       Luanda, 1963

 

 

 


 

 

ESPERO REGRESSAR

 

À Minha Amada...

 

A vida é bela, desde que saibamos vivê-la.

Para desvendar os teus segredos salpicados de mistérios, recorro aos gestos flutuantes que tocam na ternura que sinto nascer em cada emoção que transparece dos teus gestos enigmáticos. Com jeitinho na imaginação, espicaço os teus sentidos que despertam como as sentinelas da tua alma e vejo a limpidez dos sentimentos. Sabes que não tenho jeito para dançar sozinho; o ambiente da cidade de Luanda agrada à vista e convida ao envolvimento... se não tropeçar, estarei aí na próxima Primavera!

 

 

ATRACAGEM

 

Quero apenas regressar límpido

para escutar a voz dos ventos

regeneradores da minha alma;

vou renovar os sentimentos

dentro do meu corpo cansado,

absorver a beleza com calma

persistir no desejo sonhado

na esperança próspera da vida

que encontro nesta viagem

onde esperas, rosa florida,

os meus braços de atracagem.

 

O encantamento dos teus olhos

sempre cheios de magia

tão reais como os abrolhos

    cobertos de poesia...

 

Gestos longos que gozámos

    com a vida em fantasia

sempre que o teu corpo se deita

no horizonte dos meus olhos

logo o deslizar dos dedos

vai de encontro aos teus seios,

neste encanto dos desejos

dos corpos entrelaçados,

    os olhos são diamantes 

    nos rostos esfomeados

jóia mágica dos amantes.

 

                    Luanda, 1963

 

 

 

 

 

 

 

O REGRESSO DO GUERREIRO

 

                       1

Na noite fresca das memórias

impressas no fervor do combate,

atrevo-me a percorrer a picada

   fugir ao abandono da vida...

enterrar a violência em movimento

   até sarar a dolorosa ferida!

 

Abrir novos caminhos ao vento,

resgatar os corpos abandonados

reabilitar a alegria dos soldados;

 

construir caminhos longos, serenos,

    límpidos dos ódios e da morte;

absorver o sol nos dias amenos

desvendar as atrocidades do norte

construir um barco transparente

e embarcar em paz com toda a gente.

          

                           2

O regresso é motivo de alegria,

mesmo ao toque da metralha,

quando é passado mais um dia

sem cair na sepulcral mortalha.

 

  Na chegada o abraço da malta

  e a alegria do silêncio sobressai,

  do companheiro noto a falta...

  até o bater do coração descai.

 

É bom adormecer na nossa cama...

acordar ao ritmo do cantar primaveril,

enquanto a manhã soalheira me chama

... eu já estarei bem longe do Grafanil.

 

                                Quicabo, 1963

 

 


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