Espaço Etéreo


 

DIFERENÇAS

 

Vestido de nuvens, acordei na rua

com água a correr nas veias...

uma vontade enorme de te ver nua

para os festejos do gozo a meias.

 

Sei que percebeste o meu recado

quando recolheste aquele beijo,

os lábios deixaram-me intrigado

e o sabor adormeceu o meu desejo.

 

Há alguma desordem nesse riso

que difundes da casta inocência,

a condição das entranhas que piso

respira os gestos da boa decência.

 

A aragem despenteou os cabelos…

o corpo bem aconchegado ao meu,

sem precisar da cumplicidade do vento

deixou a minha mão passear

nos contornos dos teus segredos.

 

Os sentidos farejaram os alimentos

que excitam a pelugem que se abre

aos desejos retocados pela fome

dum orgasmo impaciente, gostoso

na usura do sulco espumoso.

 

Ficaste com a blusa bem diferente

a encobrir os gestos dengosos 

e os teus seios mais garbosos

a comporem a imagem refulgente.

 

                              Luanda, 1961

 

 

 

 

 

 

CORRENTES

 

O amor suspenso no espaço

é um bem estar permanente,

aproxima outro ser ausente

na languidez do infinito laço

 

Para quem espera um afecto

e respira o solene momento

é bom que acerte o projecto

para asfixiar grave tormento

 

É a aragem que não se esquece

o amor  uma chama permanente

calor ardente que permanece

mesmo com o corpo ausente

 

É uma corrente em dois sentidos

deslizando na noite de olhos fechados

cascata de sussurros aos ouvidos

música dos corpos em seus pecados

 

É um sentimento de seiva a fluir

nas noites ternas de calma  bruma

movimentos nas sombras do porvir

com os corpos cobertos de espuma.

 

 

 

 


 

 

OS DIAS DA CUCA

 

Impões a afirmação graciosa de toda a pujança dos atributos sensuais em forma de armas capazes de derrubar qualquer combatente, com a mesma autenticidade que te faz viver a paixão; como te apresentas radiosa, em todo o esplendor, irradiando uma luminosa felicidade, há uma saga ardilosa misturada com algum  fulgor. Então cantas:

        

                    

O  RECADO

 

Tome conta de mim agora,

enquanto sou bonita

hoje tu gostar muito gostosa

logo logo, mais velha

tu não vai gostar mesmo catita

nem que esteja descascada.

 

Agora tu come tudinho

sem reclarmá a ração

depois não quer saber

nem qui ponha na mão.

 

Tenho ideia e corpo de cabrita

tu gosta mesmo, mesmo,

até chamam a mim de bonita

aiuê, gosto de ter marido

não tenho curpa de comê

de ficar com pêro durido.

 

                    Luanda,  1961

  

 


 

 

Da JANELA do Refeitório do Hangar Velho, onde almoço, assisto à saída das jovens estudantes do Liceu Guiomar de Lencastre.

Conhecendo a vida enviesada de algumas delas, escrevo:

 

 

 

POMBAS

 

Pombas brancas

   passeiam

   rodopiam...

 

Pombas brancas

      voam!...

De asas brancas

   voam... voam...

Sonhos róseos voam...

 

Lírios puros

entre muros

vivem longe!...

 

Pombas brancas

    a sonhar!

voam... caem...

Precipitadas...

...coitadas!

 

E lírios brancos

   murcham...

Caem pétalas...

... na lama!

Lírios secam...

negros...negros...

Sombras negras

   duma vida!...

... Desta vida.

 

            Luanda,  1961

  

 

 

 


 

 

LINHAS TROCADAS

 

O batuque aquece as ancas

no mexe mexe da terra parda,

onde se misturam as melodias

e os gemidos das mulatas

com a ternura das tarimbas

 

Passada a linha da guerra

   lá longe do reboliço das cidades

acabam-se as bebedeiras malucas

e a lubricidade das damas loucas

que se espreguiçam de cio...

 

Há um tempo abandonado

no sustento a ilusão de vencer

quando ninguém quer perder...

os negros murmuram em surdina

convictos da sua razão:

- Deixa dançar minha menina

antes que morram os sonhos,

mereço alguma alegria, patrão!

 

Andam por aí ódios medonhos

que vão destruir o que resta

desta África a despertar.

- Deitei fora o que não presta

ficou só o Julião a incomodar

esta raça de bailundo.

 

Quem cultivar a nova esperança

e apagar o fogo dentro dos olhos

poderá regressar à paz da sanzala

e acender uma luz em cada criança,

pode ouvir a melodia da tarimba

desta Angola que nunca se cala..

 

                                           Luanda,1961

  

 

 

 


 

 

MAGIA do Bengo

 

Será a água do Bengo que vos deixa exorbitar, quando deixais sair da boca as frases lúbricas e provocantes? E os seios soltos na transparência das blusas que fazem tremular meu olhar, serão oferta ou recusa? Há! Mas os vestidos cingidos nas curvas dos corpos que se mostram nas ruas de Luanda, serão propostas subtis e encobertas que excitam sem proveito? Naturalmente que, tanta oferta e gentileza, mostra também os defeitos que prejudicam a vossa beleza! Depois, vão os pais reclamar:

 

 

A SENTENÇA 

 

“Aceitas a claridade das algemas,

mesmo que partas o coração...

ou dormirás no escuro da prisão!”

 

Se o encontro avança e anima

a aventura ganha asas,

há sempre um beijo com estima

carícias quentes como as brasas

e todo o corpo se inflama...

 

Mas se avanço na loucura da invasão,

logo a família exige e reclama

aceitas a claridade das algemas

ou vais dormir no escuro da prisão!

 

 

 

 


 

 

 

 

 

DESENGANOS

 

Embarcámos na noite escura,

    como de costume...

em busca do amor que escasseia

    já pressentia

    a noite que se refugia

no negrume dos sonhos em mistura

dos gestos secos, inconfundíveis,

    e a coisa fica dura...  

na curta história dos corpos fechados

    com emoções invisíveis;

 

desejos vadios e fingidores

entrelaçados nas nossas dores,

passam o tempo em volta de nós

    bocas serenas, quase sem voz;

    danças feliz, quase louca…

se queres servir-te de coisa pouca

    estamos sozinhos no parque

aproveita agora que não é tua...

    antes que eu embarque

      e apague a lua!

 

                              Luanda,  1962

 

 


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