Espaço Etéreo



REMETENTE

 

Só agora compreendo a fria sensação dos gestos de inimizade!

Nesta aprendizagem exterior libertei-me de muitas coisas que a maturidade não recusa. Tudo aceito naturalmente! Não procuro estradas sinuosas e vou amando a paisagem, entre os seus adornos, fito uns olhos bonitos e um corpo veloz que corre entre as pessoas que passam indiferentes. Na minha contemplação, reparo no rosto pálido de traços regulares que me olha com emoção. Que importância tem a sapiência se a generosa verdade do espelho nos ensina a morrer? Que feliz me sinto ao ouvir o bater do coração; e porque sinto esta emoção, estou vivo para amar...

 

 

ESPERANÇA DILUÍDA

 

A verdade chega sempre no momento

em que a nostalgia diluída na beleza

deixa de nublar os olhos tristes.

 

Envoltos na intimidade da natureza,

fujamos à música funérea do ódio

que amachuca o gozo da felicidade.

Não precisamos de subir ao pódio

para absorver o dom da generosidade

alimento da vontade do combate;

são os fragmentos das virtudes

que temperam as energias dilatadas

e apagam a incerteza do embate.

  

Porque está em perigo a redenção

e o redimir das crenças inconformadas,

não posso deambular perante a razão...

o efeito das tuas palavras íntimas

é como um raio de luz vivificante:

 

transmitem gestos ternos e suaves

e acalentam o futuro deslizante

onde tenho sentido dores graves;

 

mas a esperança sinto-a no carinho

com que toleras a minha demora...

assim me vais aveludando o caminho

até que eu possa sair daqui p’ra fora!

 

                                        Luanda,  1962

 

 

 


 

 

NATAL DOS DESENGANOS

 

        Natal de profundo tédio...

onde a minha tristeza se amortalha!

 

A esta amargura não há quem valha...

a solidão e a morte amedrontam

    nas horas de tormentosas batalhas

    que ensombram os meus dias.

 

Treme o coração e vão-se as alegrias

    nem sei se esta paixão aguenta

um cenário com tamanha tormenta.

 

Os sonhos não passam de quimeras

neste Natal sem uma réstia de claridade,

com as dores do tempo da mediocridade

já nem sei porque me esperas...

 

Um Natal assim, longe do mundo,

a marcar o rumo negro e funesto

limitando o meu sentimento profundo,

atira-me para o ambiente que detesto:

 

bichos misturados com seres humanos,

mistificação das acções determinadas

e os confrontos de virtudes caluniadas

agravam os tormentos e os desenganos.  

 

                               Luanda, Natal de 1962    

 

 

 

                                      

 

 


 

 

CONVERGÊNCIA

 

Procurar nos gestos suaves

a função métrica das palavras

e acentuar os tons mais graves

dum espírito descontente

é alerta-te para que não abras

tua boca a toda a gente...

sem uma longa reflexão!

 

Porque a lira me dá razão

para escrever versos sem flores,

neste gesto de escrever

não vou desafiar os trovadores

... apenas estou a viver!

 

Sem tempo e sem fronteiras

o silêncio detesta o vento

que apaga as fogueiras

dos desejos mais iguais

contidos no pensamento.

Nos percursos quase banais

pelas savanas além

vai a mágoa de alguém

sem os sorrisos distantes

desta vida que passa...

 

Não pode haver poetas radiantes

a descreverem esta desgraça.

 

                          Bembe, 1962      

 

 

 


 

 

 

 

A CAMINHO

 

Eu já mereço deleitar-me

   em sonhos

onde te vejo, enfim!

Fico a cismar nas falas meigas

que me envolveram assim

   na doçura do mel

e o coração sorridente

nas horas da leitura do papel

 

atravesso a selva densa

nesta impiedosa jornada

 

Eu hei-de chegar aí

oh minha amada...

com o coração bem aberto

na floresta não me perdi

 

eu vou pelo ar

que fica mais perto.

 

 

 


 

 

O REPOUSO

 

Toda a noite adormecido na manta

que me safou da cacimbada traiçoeira,

já refeito do suspiro preso na garganta

senti a euforia intensa da fogueira...

 

Logo o turbilhão escaldante do tiroteio

me excitou o cheiro acre da queimada;

avancei como um cavalo sem freio...

já sonhava com o calor da bem-amada:

 

  não tinha missangas no regaço

  mas contorcia as ancas roliças e densas

  quando se envolvia bem no pedaço

  que o sonho lhe oferecia sem ofensas.

 

  A certeza dos bons tiques quimbundo

  acentuava o silêncio mágico das palavras,

  vivia contente e alegre - noutro mundo

  montada nas alucinações ocas das cabras.

 

Esperanças enigmáticas me apoquentaram

durante o sono onde acordo estremunhado,

estão frescas as horas que atormentaram

este meu corpo exangue, desmotivado.

 

                                   Dembos-Quicabo, 1962

 

 

 

 


 

 

VERDADES… do sonhador

 

Os pássaros desafiam as estrelas pardas sem saberem invocar as preces que os deuses apreciam.

Como pode alguém usufruir das mordomias, quando os soldados sofrem os efeitos dos estilhaços a marcar os corpos?

A inquietação confunde-se na vertigem do trauma que as cicatrizes marcam no pensamento do futuro.

Para quem perde uma perna, numa guerra que detesta ou não compreende, pode significar a amputação de todo o futuro – não perde a vida mas já não vive.

Esta ameaça é assustadora e limita a capacidade de viver por objectivos.

Sinto-me ofendido no sentido em que concebo a justiça.

 

 

Levantar a Bandeira

 

Com os olhos fechados sem fingimento

aos corpos expostos ao sofrimento

estendo a mão sem nenhum remorso.

Corpos boiando em cima do medo

que a morte ilude sem nenhum segredo

nos dias de marcha e mochila no dorso.

 

Ameaças são muitas que o corpo sente

quando a metralha ataca de frente

e os soldados pressentem a morte

rompem o cerco, mesmo aos tropeções.

Acaba o sossego, com as explosões,

mas o corpo intacto agradece a sorte.

 

Levanto a bandeira ao som do batuque

que nos traz a magia fácil, um truque

para comemorar a grande vitória.

Ameaças são muitas aos antepassados

nos dias traiçoeiros de ventos trocados

morre a juventude, apaga-se a história.

 

 

 

 

 


 

 

SEM TRÉGUAS

 

Absorvo a mensagem da natureza

que promete um dia de sol…

os primeiros passos na mata

em trânsito entre o silêncio

que me arrasta o olhar castigado

pela angústia dos ausentes.

 

Como um solitário esquecido

nos dias vivo descontente

- porque até as asas esmorecem

e não perdem o jeito de voar…

sinto os companheiros absortos

nos pensamentos das noites de Luanda.

 

Por isso recusei sorrir à súplica

do olhar das crianças famintas

que ficaram abandonadas em Tabi

- uma dor tresmalhada que senti!

Era um olhar tão frágil e vazio

que até o calor ficava frio

e a fome secava as lágrimas

nos rostos sufocados em sofrimento.

 

Nem sequer me deixaram parar

para desprender o meu olhar

nos infelizes desprezados pelo vento

que atiçam a minha vontade

de acabar com esta ansiedade

e derrotar os que fomentam a guerra

que os bandidos semeiam nesta terra.

 

E não vou perder a dignidade

nem dar tréguas aos impostores

porque a gesta desta mocidade

dá lições a muitos doutores.

 

                Quibaxe, 1963

 

 

 


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