ESPERAS
Acabam-se os dias sufocantes...
Hoje regressamos a Luanda Linda!
Vai haver festa nas debutantes;
aiuê, como danças minha Florinda.
As coisas que magoam ficaram
nos dias negros desta guerra;
os nossos corpos já marcaram
os melhores lugares na terra.
Movimentos do corpo delicado
o merengue penetra candidamente
na intensidade do beijo trocado
e as mãos remexem docemente.
É um prazer longo e electrizante
um delírio louco e profundo
de música doce e pungente
que nos conduz ao novo mundo!
Toto, 1962
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OBSESSÕES
Inevitavelmente fascinados e perdidos
nas veredas lancinantes da paixão,
deixámos de sentir toda a certeza
na subtil lucidez do coração.
Infunde-se a incerteza na tragédia
que nos consome a razão de ser
incómoda condição apaixonada
logo a furtiva desconfiança
nos atinge a razão de viver
e deixa as dúvidas sem mais nada
antes ficar de vigília serena
como a Maria da Fonte
manter viva a esperança
para pegar a verdade de fronte
e contemplar o teu misticismo
até sentir o calor do vulcão...
é penoso mergulhar na escuridão
como quem desliza no abismo
sem afecto e sem nenhum sinal
que me possa redimir a alma
a espera em sobressalto, agrava o mal
que atraiçoa a razão da calma
e os olhos... rasos de água
logo despertam a minha mágoa
mas o coração mais sensível
ao paradoxal envolvimento
contamina o sonho aprazível

CATA-VENTOS
Se a vida está no crepúsculo, apela-se aos deuses que prolonguem a magia que traga os benefícios que nos conduzam ao mundo das luzes luxuriantes onde podemos pintar a manta em diversões. Mas se as divindades nos recusam a ajuda, perdemos o sentido de cata-ventos e podemos ficar infelizes por mais tempo. A melhor terapia para o corpo é o diálogo em formato de amor.
VONTADES
Ah, como queria beijar-te
com um largo sorriso
correr p’ra ti e abraçar-te
até sentir o paraíso.
Acariciar teu corpo com vigor
sorver-te ao natural
e prender-te com fervor
para afastar todo o mal.
Viver nos embriões das flores
imunizado contra as dores
comer teus lábios contentes
e sentir os beijos ardentes
sem os maus dias contados
os olhos levemente cerrados
na contemplação deste amor
e fazer de ti a minha flor.
Luanda, 1962

MORREU nova a Graciete
Confesso que este percurso é um mero acidente com a Graciete: fascinava-a a ideia de fazer uma viagem num veleiro, nas próximas férias – era uma jovem professora no Liceu Guiomar de Lencastre. Com ela viajei até Sá da Bandeira, para ver o paraíso dos pássaros nas margens do Cunene. Foram dias lindos, num ambiente fascinante!
Certo dia, já estava-mos na época do cacimbo, encontrei-a na Vila Clotilde, combalida e muito abatida - andava doente devido a ter sido atropelada na avenida marginal. Poucos dias depois, convidou-me para uma viagem à volta da ilha; e lá fomos devagar, apreciando a esplêndida paisagem de toda a baía de Luanda e dos seus coqueiros entremeados de palmeiras ao longo da estrada até ao fim da ilha. Foram 3 horas de deslumbrante prazer onírico. A Graciete chegou cansada à esplanada do Baleizão, onde tomámos umas bebidas refrescantes.
Agora, que regressei da zona de operações em Quicabo, a Drª Hermínia Robert, reitora do liceu, informou-me do fatal desfecho: há poucos dias, a Graciete fez a sua última viagem até ao cemitério novo, na estrada de Catete.
Soube que viajou dentro duma urna preta, numa manhã de bruma cinzenta como a sua curta vida. Mulher determinada e independente, sempre soube contornar as paixões ardentes com a mística do seu endeusamento à cultura.
DELÍRIOS
A vida cheia de sonhos renascidos
balança ao ritmo da nobre sabedoria
que se resume na castrada memória
onde até os prazeres são convertidos
em sensações de leveza ambulatória.
Insubmisso ao cântico dos delírios
mesmo carente de consolo lascivo
basta sentir latejar no teu peito
desejos peregrinos que colhem os lírios
do amor que sabes destilar a teu jeito.
É uma bênção andar neste fado
onde afago a morte com desdém
a guerra deixa-me a vida intercalada
uns dias tristes, de dor revoltado,
outros com gemidos da bem amada.
Luanda, 1962
SOLITÁRIO
Ontem ainda senti a esperança
tocar em meu coração;
em leves passos de criança
passei, como de costume,
no jardim da igreja do Carmo.
O corpo abrasava como lume
que arde com efémera paixão...
qualquer coisa que se sente
quando o amor está ausente!
Tive assim uma tarde triste
sem a ternura das flores...
a esperança ainda resiste
ao vendaval das dores
que me levam ao jardim
onde encontrámos o amor
com as sementes de jasmim,
ainda espero sentir o fervor
do teu corpo sedoso, fogo
a incendiar a chama da paixão!
Quando atenderes ao meu rogo,
não vais iludir mais a solidão
que nos desfoca a imagem
dos corpos em união.
Quero confirmar a miragem
do teu fantasma sensual...
não deixes o lugar abandonado
à espera do novo sinal...
na noite quente ouço uma voz
cantando este nosso fado,
sei que não é assombração
metida no meio de nós...
são os ecos do coração
pedindo ao santo patrono
que me livres do abandono!
Luanda, 1962

ACESSOS
Ao enrolar os ramos da bungavília
na escuridão dos teus cabelos
senti o respirar ofegante...
sinal da entrega em movimento
dos corpos à espera do instante
do sussurro que quebra o silêncio
as mãos já urdiam com mestria
o lençol lindo onde te estendes
e os dedos farejavam a penugem
ao poisar a glande entesada
nas carnes aveludadas do teu ventre
o tempo rompeu os meus sentidos
mergulhados em estranhos ruídos
e depois de vasculhar os acessos
sinti os teus braços travessos
contornar o meu corpo desmaiado
ia alta a noite e o tempo gozado
deixou-me ficar descompassado.
Mussulo, 1962

O PRÍNCIPE CAMPEADOR
Num dia cálido, enleado no vento
da planura imensa do fogo desértico,
com sonhos embriagados no sentimento
das flores magoadas nos joelhos tenros
que os rudes cavaleiros da realeza
não souberam afagar com delicadeza,
na ânsia de colherem o fruto profético,
deixaram marcas nos sulcos da carne
da donzela que se banhava no lago...
Voou o meu corpo com aprumado afago
ao encontro dos lábios duma paixão...
tremiam as mãos ao bater do coração,
sem que ela soubesse do meu empenho,
com a ajuda da lua inventei o engenho
para me por no caminho da dita beldade
que, de cativa, deixou as marcas no chão
onde os pés delicados sofriam a maldade
dos açoites doridos da humilhação.
Com lampejos de esperança em ebulição
correu p’ra mim, Páris de olhos baços,
a bela Helena presa em meus braços...
o grave alarido dos guardas palacianos
com um estrondoso rufar de tambores
atestou o enlevo da estranha união
abençoada pelos deuses em louvores.
Preso ao prodígio do príncipe campeador
fugi com a Helena nos braços tensos
onde a magia do vento levantou a poeira
que protegeu aqueles amores imensos.
Descanso da fuga que trago no peito...
paro os relógios do tempo encantado
e fico com a cativa que tomou o jeito
de me envolver no corpo sublimado
onde alimento os lascivos desejos
com serenidade saboreio os beijos
que a ternura incendeia com sabedoria
no fogo que arde em cada novo dia.

SONHO COM VIDA
Deste-me um palácio no céu
e um sonho de salvação,
a brisa nos teus cabelos
e o corpo com um longo véu,
o teu amor na minha mão
um trono com sol e lua...
quando entrei estavas nua.
Dás-me os sonhos mais belos
como uma brisa de espuma,
eu não quero abrir os olhos
com medo de ver a bruma
e perder o suave instante
desta visão alucinante.
Estendido nos teus seios
como nos sonho com vida
fico com os olhos cheios
de te ver adormecida,
quando voo e aterro fundo
no teu viço sensual...
com os prazeres do mundo
vejo mais brilho nos olhos
e nas noites fora da guerra
deixo-te mexer nos ferrolhos
que me dão gozo na terra.
Luanda, 1962