Espaço Etéreo


 

TOCAM OS CLARINS

 

O céu não tem fronteiras

para as asas do partir!

Os clarins tocaram às bandeiras

quando nós, gente do povo,

embarcámos sem vontade de sorrir...

crentes em regressar de novo.

 

Não importa aos heróis vencer metralha!

Nos horizontes da nossa memória

temos as pestilentas cubatas de palha

e outras gentes com história...

 

Sentimos a liberdade de julgar

com perfeito sentido de rectidão,

mesmo na guerra não há lugar

para vacilar... à vontade do coração.

 

Só quebrando as lanças da agressão

teremos mais livre o destino   

para eternizar a vida em harmonia.

Os povos que andam em desatino

por força do sangue que os desafia

nos caminhos da liberdade...

 

Se temos honra e dignidade,

vamos procurar a paz... sem guerra

nos mares, no ar, em terra!   

 

                        Bembe, 1962

 

 

 

 


 

 

ACORDES DA MUDANÇA

 

Sinto uma estranha penumbra

a ofuscar as coisas soltas

que trago perdidas na memória:

o misterioso aconchego da mente

prenuncia tempos sofridos...

sinais que muita gente sente

perturbadores da nossa história.

 

A mente não se cansa da verdade

que afronta muita cobardia

e alguma falta de humanidade

no trato cada vez mais grave!

 

Abro a mão com esta achega suave

para as carpideiras da desgraça...

não serão os briosos combatentes

a esquecer a dimensão da raça.

 

Podemos estar descontentes

nesta luta contra a ansiedade;

pois há por aí muito sacana

a achincalhar o brio e a vontade

dum povo que muito se ufana

na defesa dos nobres valores

e de Angola com bons gestores.

 

Somos a geração que trava a luta

contra a desgraça e o perjuro...

as excelências tramam na sombra

os alicerces de qualquer futuro,

tratam-nos como filhos da puta,

poluem os valores da sociedade

e corrompem a nossa vontade.

 

                            Luanda, 1962 

 

 


 

 

EXORTAÇÃO

 

Sem temer as longas jornadas

embrenhados na exótica vastidão,

com o esforço nas faces suadas

e a beleza que nos prende o coração...

 

Em saltos rasantes, prazenteiros,

parecem aves em voos certeiros

caindo do azul do céu...

espíritos refulgentes e audaciosos

não temem rastejar em noites de breu,

depois de lançados em voos perigosos

onde desenham os leves perfis

no desafio às condições hostis!

 

São macabras as bestialidades

nas florestas de suaves tonalidades,

corpos decepados e retalhados

deixam marcas tristes na memória,

dias de amargura e de saudades

da aldeia de caminhos orvalhados.

 

As poeiras esquisitas e molhadas

encobrem a dor dentro dos olhos;

uma imensidão de finos escolhos

limitam o percurso nas “picadas”...

 

Senhores, deixai viver os soldados

forçados à condição de batalhar

com os corpos tensos e cansados

e a alma desejosa de voltar...  

 

                                     Toto,1962                        

 

 

 

 

 


 

 

SENTINELAS

 

Todos nós somos atentas sentinelas

que se embrenham nas matas traiçoeiras

é um infindo caminhar sem ver janelas

para observar as estranhas fogueiras.

 

Não há chuva para acalmar a poeira

que nos deixa inquietos na madrugada

é um lento caminhar, sempre alerta

neste lodo da margem camuflada...

temos a boca seca, que o pó salpica

os reflexos da atenção que se degrada;

sente-se o momento em que nada fica

como estava antes da explosão...

 

Roçando os taludes da margem

os corpos arrastam-se pelo chão

até que a vida seja ausência

e o mármore a sua última viagem.

 

Perdidos nas picadas infinitas

ausentes dos afectos dos amigos

nem vemos a planura da madrugada

que nos convida a gritar...

contra este abandono do olhar

virado para a derradeira cilada

escondida na bruma da manhã!

 

                  Nambuangongo, 1962

 

 

 

 

 


 

 

NOVOS  VENTOS

 

Não é preciso ser um iluminado!

basta perceber o fogo cruzado...

 

a essência da transparência do sol

    mais cintilante na cidade aberta

e as ideias da gente feliz;

o sonho iluminado sempre acerta

    na verdade que deus quis.

 

Enquanto caminho na escuridão

    encontro gente ainda triste

    vagueando na contra-mão...

com pensamentos amorfos, afogados

nas bebedeiras de tanto infeliz,

    perdidos, quase tresmalhados,

nos rastos de qualquer demanda

que os tire das noites de Luanda.

 

Vejo os camaradas inconformados

    crispados pela estranha euforia,

sem grande vontade de combater...

sofrem dos perigosos desalentos

    e das traições de cada dia:

 

são graves os insultos e os tormentos

da cidade às matas de cada alvorecer

mesmo com a afronta dos novos-ricos,

    em qualquer dia podemos morrer

porque entendemos a força dos ventos

que vai partindo as asas dos penicos

mas ficam livres os pensamentos…

 

O imparável evoluir das armas inimigas

    nefasto efeito da cumplicidade

aumenta a dor das nossas fadigas…

 

Adensa-se uma grave intriga na cidade

    que nos causa intensa dor difusa:

atiçam ondas de ódio contra a malta,

    desde os bares até aos Coqueiros...

porque nos toca fundo, sem recusa,

aceitamos o gozo que nos faz falta!

 

Bem longe dos ambientes foleiros,

contemplamos o corpo da moça bonita,

   mística de encantos brejeiros

e nele mergulhamos em dose infinita.

 

                      Quicabo,  1962 

 

 

 

 

 

 


 

 

PRECES

 

Nesta noite que não termina mais

sinto a alma esfacelada...

com o corpo aos trambolhões

gritando bem alto os seus ais!

 

O ribombar das detonações

em diedros devastadores

incendeia o ódio e o terror

e destroça os corações...

 

Asas nos céus em tons de prata

por cima dos morros de Quicabo

deixam um campo de cadáveres

pintados no quadro que não acabo

antes do alvorecer tempestuoso!

 

E as mães de coração ferido

deixam espalhar na floresta

o clamor do seu grito dolorido

ao perderem o sangue que resta.

 

Vejo a criancinha estonteada

no meio do fogo da sanzala...

com o fumo a encobrir o dia,

reneguei a farda enlameada,

perante o temor duma bala

e perdi todo o fulgor de valentia!

 

                           Lucunga, 1962

 

 

 


 

 

 

NOITE INFERNAL

 

Esta mágoa em noite de cacimbo

martela lentamente o pensamento

no instante em que ruge o avião

partindo o silêncio com estrondo...

as bombas vomitando o fogo

que a combustão do napalm espalha

nas aldeias de fantasmas famintos

que matam todas as esperanças

da gente pobre e franzinas crianças

que tentam fugir de qualquer jeito

- vergonha da pátria sem o proveito!

 

Meus olhos brilharam de espanto

ao verem a sanzala em chamas...

ali sufocadas no calor das labaredas

ficaram as crianças de choro abafado,

bombas a rasgar sulcos nas veredas

por onde se arrastavam os corpos

queimados num sofrimento danado.

 

Quando a consciência salta o orvalho

por um lapso de tempo vi o inferno

com as bombas riscando os céus...

o rebentamento de efeito medonho

rasgou as palhotas com gente dentro

e o aniquilamento daquela sanzala

deixou-me preso à sequência da morte

com a garganta presa e sem fala.

 

Um cheiro intenso ataca as narinas

perde-se a seiva nas balas de fogo

e dilui-se o medo do alastramento

de tantas queimadas feitas à toa...

o absurdo de quem manda no jogo

está muito longe, talvez em Lisboa!

 

                               Onzo, 1962

 

 

 

 

 

 


 

 

MANHà CHOROSA

 

A manhã acordou chorosa!

Já o sol se afirma no horizonte

e eu busco a sombra majestosa

do imbondeiro amigo da gente.

 

A dolorosa notícia agrava as dores

e interrompe o merecido descanso:

sete soldados dos briosos caçadores

foram pelos ares, despedaçados...

com o jeep que accionou uma mina,

logo na hora que o diabo determina!

 

Fomos em socorro dos desgraçados

que antes uns dias vimos felizes

em camaradagem, juntos no Bembe,

com a prontidão evitámos deslizes;

encontrámos fumegantes destroços

bocados de corpos espetados no chão

fugindo do fogo, os soldados moços

estavam aturdidos pela confusão.

 

Uma tarde triste, fim de dia choroso

e o traumatizante esmorecimento

contaminou todos os corações;

ninguém foge ao sentir doloroso

mesmo disfarçando as emoções...

escapam-se as lágrimas silenciosas

nos rostos de semblantes marcados

e as opiniões cortantes como lâminas

acirram a raiva contra os culpados!

 

Sentimos a dor e o grave aviso

- a guerra já galgou mais um friso.

 

                                  Toto, 1962

 

 

 

 


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