COMPLEMENTOS
Para que conste:
Os Poemas divulgados neste espaço etéreo, fazem parte do espólio de rascunhos dos tempos da guerra em Angola. Podem ser a expressão dos momentos de alegria e de tristeza de muitos dos combatentes que passaram por terras africanas.
Joaquim Coelho
PRELÚDIO
No idílio das nossas aldeias
os jovens todos se afoitam,
noitadas à luz das candeias
e as moçoilas bem se acoitam.
Ódios atiçados em Angola:
logo os jovens são recrutados...
com fardas pintalgadas à gola,
seguem nos barcos atulhados!
Na aldeia ficam os seus amores...
olham à volta... mar e água!
Aí se dão conta das suas dores...
e do futuro... com muita mágoa.
Temerosos, assomam à proa,
olhando bem no horizonte;
longe, longe ficou Lisboa...
há sempre quem se amedronte.
Desfilam em Luanda, perfilados,
e o povo dá reconhecimento...
lembrando seus antepassados,
com a terra-mãe no pensamento.
Partem p'ro norte martirizado,
onde se forjam soldados de aço!
Sentem saudades, por um bocado
vivem o tempo no seu espaço

APRESENTAÇÃO
Parti às seis da tarde do aeroporto,
sem ninguém a dizer adeus.
Com os anjos voei no azul do céu,
muita vontade de continuar vivo
- ao destino nunca me esquivo...
desembarquei nas pistas de Luanda,
onde encontrei a ausência do sabor
e a pobreza das vidas sem amor.
Caminhei embrulhado no destino
e fui condenado ao silêncio...
A importância de nascer menino
esvai-se em cada hora de combate
e logo no primeiro embate...
Tilintam os sinos nas igrejas
e os olhos contemplam os mortos
que tropeçaram na mina obscura,
mas morreram hirtos, sem invejas
e eu já sinto a grave amargura
de viver no meio da guerra!
ainda espero uma carta da terra,
dos ausentes que nunca saberão
porque se morre a bem da Nação.

SONHO VOADOR
Numa manhã, a nova alvorada
deixou-me nas margens do Tejo!
Olhei o horizonte... nobre jornada,
voar no sonho que mais almejo!
Foi um voo quase imprevisto
que passei lá nas alturas
no “JU” com a cruz de cristo
dei largas às minhas loucuras.
Assim fiquei cativo do vento
como a alma leve de gavião...
gozando a alegria do momento,
saltei pela porta do avião!
Nunca saltaria nessa missão
sem os briosos monitores,
p’ra quem vai a minha gratidão
por alimentarem tais sabores.
E aos esforçados companheiros
que gozam destas perícias...
cultivai os sonhos verdadeiros
enquanto as moças são delícias.

COMPLEMENTOS
Nenhum soldado está completo,
se não sente o corpo e o esqueleto!
Sabe bem porque existe...
respeita a morte alegre e triste;
faz a guerra e ama a paz,
na solidão dos ausentes!
Sacrifica a juventude fugaz
com altruísmo de tons diferentes;
fuzila os inimigos decadentes
e dá de comer aos pássaros
considerados seus iguais.
Empenha-se na luta contra o mal
defendendo a vida que tem,
eleva a nobreza dum ideal
e enobrece os amigos também.
Olha o firmamento com respeito
e vê nas estrelas o destino,
escuta o coração que tem no peito
como um mandamento divino...
ama a vida no reino da morte
e recomenda a deus a sua sorte!
Quibaxe, 1961

REPULSA
Quantos desertores
inquietos
ao mais leve som pressentido
da metralha nas ruas de Luanda
fugiram em debandada,
os detractores
pretensos libertadores...
para as gentes de outra banda!
Não pouparam as palavras ocas
como muitas cabeças loucas
deixam o país comprometido...
O ódio também sai dessas bocas
bem falantes, ferozes indigentes,
animais arreganhando os dentes
fogem à ordem da derrocada...
deixando a alma conspurcada.
E vem o nosso sangue generoso
cultivar a gesta do povo glorioso...
mas a fatalidade desta desgraça
está na ignorância e na mentira
de gente que atraiçoa com chalaça
e que causa mais repulsa e ira.
Luanda, 1961

NOVOS PADRÕES
Ah solo pátrio tão desigual
ao descrito nas letras de Camões;
tamanha ingratidão afunda Portugal
na eterna luta dos canhões!
Os soldados valentes vão lutando
sem a galhardia dos brasões...
ninguém esquece as mães gritando
lá longe... extremosos corações.
Já não se levantam mais padrões
nas selvas que rasgamos, dolentes,
porque os novos filhos barões
têm vontades mais convincentes.
E quando olhamos à retaguarda
sentimos um aperto nos pulmões;
continua a desfilar na parada
um bando de ignóbeis tubarões.
Quitexe, 1961
O REGRESSO
Depois da luta
há sombras escuras
numa estrada incerta
longa, triste
chamada vida.
E estas cabeças
sentem o delírio
duma vitória
que nos traz glória
com o martírio...
Fatos de tons viris
cobertos de terra cinzenta
em corpos joviais
com os rostos amarelados
cobertos de poeira.
As bocas cheias de sede
maldizem das matas
amaldiçoam o tempo
e fazem o chinfrim
contra a aspereza do capim!
Depois... voltam
de espírito puro e enfunado,
prazenteiros de alma
de corpo maltratado
e ternos de coração
numa camaradagem infinda!
É o regresso...
Para trás ficam negras dores
mas nas suas veias... ainda
corre o sangue generoso
da mocidade sem flores.
Pára-quedistas - “bichos do capim”
Combatentes - fantasmas.
“Páras” arrojados
todos iguais, com a mesma sede
com a mesma alma, determinados!
“Páras” cinzentos, sujos e feios...
“Páras” da morte e da glória,
Homens das alturas
da guerra e da paz.
Homens de todos os destinos
no rumo dos seus hinos
largados no espaço etéreo
desafiando a morte
combatendo e sonhando...
sempre sonhando...
com melhor sorte!
Quicabo, 1961

DESEJO OPRIMIDO
Eu queria ser um menino
caminhando pela cidade além,
com uma vela de peregrino
portador da nobre mensagem
para comunicar ao mundo...
razões do grave queixume
censor do pensamento fecundo
dos que alimentam o lume!
O meu sonho do coração
bem o quero concretizar,
mas o destino está numa mão
que teima em me acorrentar...
passarei a ser vagabundo
oprimido, no meu desgosto infindo
cativo do desejo profundo
que até do tormento estou fugindo.
Lanço as palavras no charco
com a mensagem bem directa
porque a mordaça que abarco
a alma pouco me afecta.
S. Salvador do Congo, Natal de 1961
EM CIMA DO MEDO
Com os olhos fechados sem fingimento
aos corpos expostos ao sofrimento
estendo a mão sem nenhum remorso.
Corpos boiando em cima do medo
que a morte ilude sem nenhum segredo
nos dias de marcha e mochila no dorso.
Ameaças, são muitas que o corpo sente
quando a metralha ataca de frente
os soldados pressentem a morte
e rompem o cerco aos tropeções…
acaba o sossego, com as explosões,
mas o corpo intacto agradece a sorte.
Levanto a bandeira ao som do batuque
que nos traz a magia fácil, um truque
para comemorar a grande vitória.
Ameaças são muitas aos antepassados
nos dias traiçoeiros de ventos trocados
morre a juventude, apaga-se a história.
Negage, Julho de 1962