Espaço Etéreo


 

              De Lucunga ao Toto -  DIAS DE RAIVA

 

     Estes dois dias no acampamento da companhia de infantaria que veio de Évora deu para melhorar o estado de alma, mas também para perceber que nem tudo vai bem nos gabinetes de operações! Os planos continuam a ser feitos sem os necessários ajustamentos às realidades da disposição dos destacamentos do Exército para baterem as respectivas zonas locais, evitando ser surpreendidos pelo inimigo. E no que respeita à evolução do poder de fogo dos terroristas, é uma autêntica palhaçada. Oito meses depois dos dias terríveis de Março, quando já foram mortos algumas dezenas de operacionais do exército com a explosão de minas, os tipos das operações continuam a mandar as colunas com o mesmo sistema de progressão no terreno! Não seria mais inteligente e correcto reduzir as vezes de passagem pelo mesmo caminho, aumentando o número de homens na escolta, fazendo percursos a pé nas zonas críticas, dando assim mais segurança nas zonas propícias à colocação de minas ou de montagem de emboscadas? Mas é exactamente o contrário que está nos planos de operações. Mesmo para as tropas especiais, são os respectivos comandantes de grupo a escolher a maneira mais eficaz e segura de cumprir as missões no terreno, fazendo por ignorar o que consta nos planos! E tudo isto tem sido questionado nos acampamentos que servem de apoio às tropas especiais.

       Ainda o pessoal se acomodava nas tarimbas emprestadas pela companhia, pertencentes aos pelotões que andam em patrulha na picada para a Damba, e já os sitiados do arame farpado procuravam encontrar conterrâneos... e as perguntas anónimas saíram em voz alta:

       - Há aqui alguém de Braga? – quis saber um furriel miliciano de quico na mão.

      - Eh pessoal, por onde andam os algarvios de Cacela ou de Loulé? – perguntava um soldado bem encorpado, de olhos varejando os pára-quedistas.

       Logo o Coelho foi ao encontro do algarvio e a conversa deu origem a um sorriso escancarado no rosto do soldado sitiado. Com o decorrer das formalidades de apresentação, apareceram mais alguns conterrâneos dos pára-quedistas, e as perguntas e respostas sobre a situação local prolongaram a confraternização pela noite dentro, com algumas cervejas pelo meio, até à hora de desligar o gerador da corrente eléctrica. E, no dia seguinte, até desportos se praticaram, os mais comuns: jogos da lerpa, da sueca e das anedotas entre “alfacinhas” e alentejanos.

 


      Antes da partida para a missão que iria desaguar no Toto, alguns soldados do acampamento pediram aos conterrâneos pára-quedistas que transportassem as cartas para o correio de Luanda. Por entenderem ser mais seguro!

       - Alguma coisa está errada com o correio da malta. Desde que saiu a ordem a proibir que se fale sobre a guerra, pois... para os de Luanda “já não há guerra em Angola”, as cartas são entregues de semana a semana, mesmo que venha cá alguma “Dornier”. E as que mandamos pelo SPM raramente chegam às famílias. – desabafou o furriel Teixeira, responsável pelas comunicações da companhia de Lucunga.

       - Toda a gente tem queixas de correspondência com sinais de ter sido aberta; nem os aerogramas escapam à censura do SPM (serviço postal militar) ou alguém entranhado no circuito da correspondência. – atalhou o sargento Castro, responsável pela confecção das refeições quentes.
      À medida que aumentavam os que ouviam, também outros davam o seu testemunho de terem sido vítimas do desvio de cartas e aerogramas. É o caso de um soldado do Barreiro, que atalhou a conversa do grupo:

      - As notícias novas, só as sabemos através de amigos que passam por Lucunga e de alguma informação das rádios do Congo. Até quando estaremos sujeitos às tropelias engendradas pelos que vivem no ar condicionado de Luanda.

       O grupo de mais de cinquenta pára-quedistas avançou em direcção ao vale, com a finalidade de caçar alguns dos bandidos que fazem o transporte de armas para os acampamentos existentes do rio Lucunga, Mbridge e Loge, no triângulo entre Bessa Monteiro, Songo e Quibocolo. Os prisioneiros capturados em missões anteriores, atestaram o que estava descrito nos documentos encontrados há meses atrás na sanzala da Damba, que referiam como responsáveis da UPA nesta região os chefes José Mateus e Pedro Nsingi; e mais o que os pilotos dos aviões PV2 detectaram, em voo baixo. Nas últimas semanas têm avistado bastantes homens da UPA vindos da fronteira entre Luvaca e Maquela do Zombo; em diferentes dias, mais gente com carregamentos foi detectada entre Cuimba e Quibocolo, e a sul de Madimba. Os aviões flagelaram com fogo de metralhadora uma corja desses bandidos que caminhava entre o rio Mbridge e a povoação do Bembe, mas os pilotos não sabem o resultado desse ataque.

   

 

 

     Pelas dez da manhã, debaixo duma neblina incomodativa, os pára-quedistas percorreram a picada até à confluência dos rios Lucunga e do Lueca com o Mbridge, encontrando uma ponte muito danificada. O sargento Santos e dois cabos procuraram encontrar vestígios de minas ou armadilhas na ponte; demoraram mais de uma hora para atestarem que se podia passar por cima dos troncos de madeira que restavam da ponte. A um aceno de cabeça do sargento, o tenente mandou avançar para montante do rio, do lado de Madimba. As matas da margem foram batidas até à estrada de Madimba ao Bembe. Foi aí que o grupo montou duas emboscadas cobrindo os trilhos vindos do norte. Pela indicação dos pilotos dos PV2 e das informações dos prisioneiros mais fiáveis, a UPA tenta fortalecer os seus acampamentos escondidos nas matas da zona, donde podem desferir ataques mais consistentes e mortíferos às tropas que passam nas picadas da região.

     Ainda a noite não tinha caído sobre o vale do Mbridge e já os pára-quedistas se dividiam em dois grupos posicionados em pontos estratégicos. Dos vários trilhos vindos do norte, em direcção ao rio, foram escolhidos os que confluíam nas proximidades nesse curso d’água. A demonstração da eficácia de fogo estava assegurada e sem caminhos de fuga, porque, antes de anoitecer, cinco bandidos desciam calmamente na direcção do rio, e logo um soldado da secção do sargento Antunes deu o sinal aos companheiros que apontaram as armas e, com três rajadas, atingiram os cinco... mas apenas três tombaram no caminho, com o corpo cravado de balas! Mesmo feridos de morte, dois conseguiram embrenhar-se na mata, sem largarem as armas. Ouviram-se alguns gemidos de dor, lá muito ao longe, durante a noite de neblina cerrada e fria...

      O capim e as árvores tombadas no chão serviram de ponto de observação para a secção do Alfredo. Pelas cinco da manhã, ainda a neblina da madrugada não estava dissipada e já o cabo Almeida dava o sinal de aproximação de sete bandidos da UPA; dispersos ao longo de mais de duzentos metros da picada, dificultavam a acção de fogo certeiro. Dois estalidos com os dedos alertaram o resto do grupo instalado no local. O Alfredo deixou escapar um sorriso, ao vê-los entrar na emboscada vestidos de caqui cinzento, armas ao ombro e saco a tiracolo, dois deles com caixas de madeira às costas. Uns minutos de silêncio sepulcral deram para os quatro da frente entrarem na zona de morte. Ao premir o gatilho, começou a crepitar o fogo em rajadas que atingiram os quatro da testa do grupo, que mesmo assim tentaram fugir para a mata, mas ficaram logo desfeitos por efeito da granada de mão que o sargento Alfredo atirou para o meio deles. Os que vinham mais atrás viraram costas e ninguém mais os viu! No terreno ficaram as caixas que, depois de abertas, mostraram a quantidade das minas anti-carro e das granadas de armadilhar que destinavam ao abate das tropas portuguesas.

      Mais distante, o outro grupo de pára-quedistas, permaneceu vigilante com o pressentimento de que alguns terroristas passariam pela sua zona... mas até ao meio-dia nada aconteceu. O tenente mandou reunir os dois grupos em volta dum tufo de árvores que se destacava a cerca de quinhentos metros mais acima.

      - Muita atenção, porque poderemos ter mais recontros por aqui. Está visto que a zona é muito frequentada pelos terroristas e os carregamentos destinavam-se a algum dos acampamentos que eles têm nestas matas. Vai ser difícil correr com eles, dada a dimensão das florestas. Vamos passar o rio para sul e continuar até ao Toto. Daqui não temos contacto rádio, nem perece provável que passe por aí qualquer avião. – alertou o tenente Aleixo.

 

 

 

 

     O alferes Oliveira também quis dar o seu palpite:

    - Nem com um batalhão será possível bater todas estas matas. E pelos rastos nos trilhos, o movimento é grande.

       Mas o tenente continuou a desfiar as suas previsões:

      - Pois é, a nossa missão é seguir até ao Toto, batendo as matas que encontrarmos. Serão mais três dias... e se estabelecermos contacto rádio com a base ou com algum avião, pedimos o helicóptero para levar o material capturado... e também peço que não falhem os aviões Nordatlas para nos levarem até Luanda.

      O tenente nem tinha acabado de falar e um barulho estranho alertou toda a gente! Do lado da picada para Madimba, vinham uns sinais de poeira no caminho... e apareceram alguns militares do exército, lá do outro lado do rio! O tenente perguntou donde vinham.
     - Somos do batalhão de S. Salvador, andamos a bater a picada de Madimba e vamos tentar reparar a esta ponte. – respondeu um tenente.

Depois de observar o que restava da ponte, atravessou o rio, acompanhado por mais cinco homens de arma em chofre... e avançou na direcção dos pára-quedistas. Feitas as devidas apresentações, o melindre do perigo naquele local do terreno deu uma curta troca de impressões, e logo seguiram cada um nas suas missões.

      Havia que dar destino aos quatro caixotes das minas e das granadas capturadas e a mais três espingardas automáticas – era muita carga para alombar por mais três dias...

O alferes Oliveira, desligado nos seus pensamentos, olhava o morro que se erguia a mais de quinhentos metros... e chamou o tenente:

      - Eh pá, se o operador do rádio PR10 fosse com uma secção até ao meio daquele morro, talvez tivesse condições de difusão para contactar a base.

       Logo a secção do Antunes aprontou os homens para acompanhar o Ferragudo com dois rádios. Cá em baixo, duas secções bateram o capim para ver se encontravam algum rasto dos bandidos feridos nas emboscadas. Reunidos na base do morro, absorvendo o infinito do horizonte, o pessoal sentou-se para tragar o almoço fornecido pela Manutenção militar, composto por umas bolachas secas, um pedaço de chouriça, uma bisnaga de geleia e outra bisnaga de leite condensado; ementa que se repetia ia para dezasseis dias. A boa água da região ajudava a manter o esqueleto e o corpo com o nível isotónico equilibrado, senão seria uma razia de diarreias e tonturas ainda bem que em qualquer mata das zonas baixas se encontram riachos e ribeiras com água límpida.

      Estava o operador do rádio a mastigar em seco e com acrescidas dificuldades na subida do morro quando nas alturas passou uma patrulha de dois aviões T6 na direcção do norte. Apressou-se a mudar a frequência compatível com a dos aviões e chamou:

      - Ronco, ronco, aqui Onça, aqui Onça, nas proximidades da ponte para o Bembe. Escuto!

      A deficiente comunicação deixava ouvir algumas palavras misturadas com o ruído de frigideira, mas confirmavam terem entendido.

      - Ok Ronco, pedimos evacuação em helicóptero pequena carga, diga se entendido.  – Continuou o operador de rádio.

     - Ok Onça, entendido. Vamos comunicar base de helicóptero. Preparem pista aterragem a sul ponte do Bembe a Madimba. Terminado.

      - Ainda bem que não sobrevoaram a nossa zona, para não referenciarem mais a posição. – desabafou o tenente.

      O Baleia queria que o seu amigo do peito, o Ventura, seguisse com ele na frente da coluna. E só avançou quando o sargento Assis acedeu a esse pedido! Parecem dois meninos do coro; já são amigos desde os bancos da escola... e falam muitas vezes das travessuras que faziam às professoras da primária de Algés.

      Um descampado afastado do vale do rio cerca de dois quilómetros foi o local escolhido para a aterragem do helicóptero. Com a tarde a meio, o helicóptero levantou voo com todo o material capturado ao inimigo.

      - Eh malta! Isto está a correr bem. Vamos continuar à procura dos refúgios para onde os gajos da UPA transportavam os brinquedos de guerra. E não devemos estar muito longe.

      - Meu tenente, a missão não previa só a captura dos bandoleiros? – alumiou o sargento Saldanha.
      - Pois era... mas temos mais três dias de mato pela frente. Ou não percebeu que essas rações agora distribuídas do helicóptero são para alimentar a malta até ao Toto? Espero que ninguém esteja já a pensar no gozo dos prazeres da cidade; é que ainda vamos estacionar no Bembe, à espera das viaturas! E fez uma pausa. – Bem, a intenção até seria boa, mas há mais pão seco para comer!

 

                                
     

     O tenente disse aquilo numa pose de orgulho, embora percebesse porque é que alguns fizeram caretas a mostrar o desconforto de tal decisão. As matas densas vieram a seguir, por onde o grupo se embrenhou com alguma relutância, mas determinado a cumprir mais uma missão. Seria por ali o acampamento de Kulu, para onde a UPA designou como comandante Pedro Nsingi, formado em guerrilha num campo de treino dos arredores de Leopoldeville, e com o apoio de agentes americanos...
     Dois dias embrenhados nas mantas, à procura dos pontos estratégicos da UPA, por ali localizados para chatear a tropa e colocar minas nas picadas, apenas desgastaram mais os corpos já minguados. Dos bandidos nem o rasto... e os indígenas deixaram as sanzalas desertas! Com o movimento dos dias anteriores, e depois de terem sido abatidos bastantes bandidos, os que fugiram não deviam ter contado histórias muito animadoras ao seu pessoal. Nem sequer umas lembranças deixaram...
     O regresso ao acampamento do Bembe foi uma caminhada penosa. Os corpos debatiam-se com a densidade do mato que deixou alguns pára-quedistas exaustos e os camuflados esfarrapados. A entrada na povoação não teve o brilho merecido; apenas um capitão do exército e dois civis, com arma no cinturão, estavam à entrada do aquartelamento, olhando atentamente o movimento da tropa que regressava duma dura jornada.

     - Sou o oficial de ligação às operações do serviço de informação, – assim se apresentou o capitão ao comandante do grupo de pára-quedistas.

      - Sim senhor! Vejo que o pessoal de informações também começa a perceber que a guerra não é nos gabinetes... mas veja que o pessoal acabou de chegar e tenho de providenciar algum aconchego até amanhã. Aguardem uns minutos que já falamos. – assim respondeu o tenente Aleixo, ainda incrédulo sobre tão inusitada recepção.

Mas o capitão e os dois civis foram atrás do tenente... e um dos civis queria saber novidades:
      - Então onde estão os prisioneiros? – interrogou em tom arrogante. Viemos aqui para interrogar os presos, senhor tenente.

     O comandante do grupo de pára-quedistas estacou o passo... olhou para o capitão! Com um sorriso irónico, avisou:

- Meus senhores, o pessoal está muito cansado e vai pernoitar aqui. Espero que amanhã não faltem as viaturas para nos levarem para a pista do Toto.

     Os oficiais e sargentos que seguiam com o tenente a caminho do barraco onde se iriam acomodar os pára-quedistas, olharam de soslaio para aqueles três corvos e proferiram algumas palavras pouco abonatórias àquela inoportuna presença. Perante a insistência dos garranos, o tenente já não conseguia disfarçar o incómodo; mal pousou a mochila dentro do barraco, puxou do que restava da carta topográfica e mostrou ao civil:

     - Veja aqui os locais onde emboscamos os grupos de carregadores. Veja bem, para não ter dúvidas. – insistiu o tenente, apontando com um lápis. E prosseguiu na explicação, porque é que não havia prisioneiros: - Com os carregadores também vinham bandidos bem armados com espingardas automáticas, que capturamos. As emboscadas foram como relâmpagos que caíram sobre eles... e lá morreram os desgraçados, que nem podem contar a sua desgraça! Prisioneiros... bem, sobraram as armas e os caixotes de minas e granadas.

      - Senhor tenente! Foi através dos prisioneiros apanhados próximo de Cuimba, a semana passada, que soubemos destes carregamentos pelo vale do rio Mbridge. Precisamos de prisioneiros para as informações... – reclamou um civil, com ar exigente e a ficar furioso!

      Sem dar palavra, calmamente, o tenente dobrou a carta topográfica, entrou no barraco onde já estava o pessoal sentado nas mantas a tentar comer o que restava das rações de combate, e juntou-se aos outros oficiais. Alguns murmúrios e um coro de pragas saíram da boca dos soldados que estavam junto da entrada do barraco e que ouviram a conversa dos civis das informações.
     - A tropa de intervenção merece mais respeito, senhores das informações. – resmungou uma voz lá do meio do grupo.

      Os soldados do destacamento do exército foram-se aproximando do barraco, como de costume, para procurarem conterrâneos e novidades da santa terrinha. Entre perguntas e chalaças, ouviu-se esta dum cabo já com dez meses de arame farpado:

     - Os pára-quedistas são uns tipos cheios de sorte... passam semanas embrenhados nas matas virgens do vale do Mbridge! Eram capazes de não ter tanto sucesso a desflorar meninas virgens... por causa da folha de papel de 25 linhas...

 

 

 

 

 

        

 


 

 

 

Carta à Madrinha

 

TOTO

- Daqui deste lugar onde, por convicção, me encontro a lutar contra a adversidade dos tempos, penso que não vamos perder a guerra, porque creio na justiça suprema para corrigir os erros da justiça terrena. Não me sinto convocado para praticar qualquer espécie de crime contra as populações autóctones, na medida em que respondi a uma necessidade da nação para resgatar a memória de portuguesas que foram barbaramente assassinados e a segurança dos que foram maltratados pela selvática corja de bandidos no norte de Angola.

     Nos documentos e fotografias encontrados em Cuimba e Buela, onde se reuniram altos responsáveis da UPA com representantes americanos e congoleses, existem provas suficientes e inequívocas de que estamos perante uma horda de ladrões estrangeiros cujos países são os maiores exploradores das riquezas fabulosas destas terras; os seus comissários especiais, onde abundam bastantes elementos das igrejas americanas, juntaram-se a outros oportunistas bem instalados no ex-Congo Belga para fomentarem as chacinas e atiçarem o fogo contra os portugueses e contra os seus trabalhadores mais fiéis, espalhando o terror e a morte pelas produtivas fazendas e roças do norte de Angola. Com os portugueses fora, talvez possam assentar melhor o seu tenebroso plano de pilhagens.

     Enquanto militar das tropas especiais de intervenção directa na guerra, tenho que defender os    injustiçados e proteger os indefesos, aplicando todo o meu saber e esforço. Também não posso ficar à margem desta sociedade de estranhas situações, pelo que tentarei difundir alguns pensamentos e parte das provas da interferência grosseira de agentes ao serviço de interesses das empresas exploradoras dos bens alheios.

     De certa forma, terei que me limitar a acreditar na força da nossa razão, coadjuvada pela força das armas que empunhamos. Mas também acredito na força das estrelas que me dão energia para sobreviver ao desgaste físico e às incompreensões que amesquinham o meu ser. E neste andar da carruagem, sinto que há algumas incompatibilidades com o sistema. O que mais me entristece é ver alguns qualificados governantes a colaborar com esses mensageiros da desgraça, dando permissão oficial para a exploração dos bens e das matérias-primas de Angola. A ironia desta guerra deixa-nos muitas incertezas: ver os apoiantes do inimigo a banquetear-se com gente do poder instituído, causa repulsa, mata a confiança e destrói as nossas ingénuas virtudes.

 

 

QUE SAUDADES!

Nestas noites calmas dos trópicos, o nosso enlevo traz-nos a serenidade e a ternura que vai alimentando a vida nesta temperança enriquecida com os dons naturais de quem ama. És o fermento deste amor que perdura no contra-tempo da vastidão deste planeta desumanizado. Os infortúnios que me traz a guerra são atenuados pelo grato desejo de encontrar as virtuosas meiguices dos teus gestos, agora recordados com a estonteante sensação da distância. Crente na capacidade própria de cada um de nós, saberemos resistir ao equívoco das incertezas e esperar que a harmonia dos povos nos ajudem a vencer as fraquezas da dúvida, até que os nossos corpos se possam entrelaçar na ventura merecida.

 

A franqueza deste amor

que arde dentro de nós

também pode limitar a dor

enquanto estamos sós.

Mas recordo o teu olhar

e a ternura dos teus beijos

porque sei o que é amar

e sofrer tantos desejos.

As carícias saem levemente

com um suspiro profundo

e no enlace mais quente

embarco p’ra outro mundo.

Ah! como é grande a saudade

deste meu estar sem estar

entenderás toda a verdade

quando chegar p’ra te abraçar.

 

 

 

 


 

 

 

Do Caxito até Quitexe - ATRIBULAÇÕES

 

     No posto de controlo do Cacuaco, enquanto as viaturas pararam até à abertura da cancela, alguns pára-quedistas saltaram para o campo de cana-de-açúcar e colheram troncos de cana que guardaram na mochila. Os mais experimentados sabem que, nos dias de jejum passados nas matas dos Dembos, as canas vão saber a pão-de-ló. Os comandantes de pelotão aproveitaram a paragem para acertar as últimas estratégias contra os possíveis ataques da guerrilha.

     A continuação do barulho dos motores dos Unimogs que avançavam rumo a Norte começaram a interromper o namoro dos bandos de macacos que povoam as matas que ladeiam o caminho. Um espectáculo comovente e gracioso da natureza! Mas toda a gente estava consciente de que o poder de fogo inimigo evoluía a cada mês que passava, sendo prova disso as baixas causadas às colunas de reabastecimento que seguiam do Caxito para Nambuangongo, via Quicabo, e também nas proximidades dos morros da Pedra Verde, por Piri.

     O comandante da companhia seguia na segunda viatura, dando instruções para reconhecimentos apeados nos locais que aparentavam maiores perigos de emboscadas. Juntamente com a coluna dos pára-quedistas seguiam outras viaturas tipo MG, do tempo da Segunda Guerra Mundial, e um grupo de colonos do Corpo de Voluntários para a «Brigada Vanguarda» que ia instalar-se na Aldeia Viçosa e render os que lá andavam, cansados de viver no isolamento das garridas matas dos Dembos. Havia que aproveitar antes que chegasse a época das chuvas que transformam as estradas num perigoso atoleiro.

     A passagem pela povoação de Quibaxe dava para rever amigos e relembrar os dias passados em descanso na missão anterior! Em missões de reconhecimento de itinerários, era a primeira vez que os pára-quedistas em acção ultrapassavam a meia centena. Até alguns elementos que tinham desfrutado do ar condicionado dos gabinetes do comando em Luanda estavam enquadrados na mini-companhia.

     Provavelmente, o comandante Alcínio Ribeiro estava farto de ver esses “mangas de alpaca” a cultivar hábitos de ociosidade lá por Luanda (ou será por pensar que também fazem parte do contingente de «fodilhões» que comem as gajas que trabalham no Comando da Região Aérea e lançam as «camisas de Vénus» para as sanitas, tendo causado um escandaloso entupimento dos canos de esgoto?

     O pessoal da segurança já andava intrigado com tanta devoção ao «trabalho» por parte das meninas que saem muito depois da hora normal)! Assim, resolveu proporcionar-lhes umas semanas de lazer nas estranhas terras da rainha Ginga, onde os ares poeirentos das picadas do Norte curtem os corpos aveludados, até porque as águas do Loge são mais puras do que as do rio Bengo!

 

             

     A chegada à povoação de Quibaxe provocou alguma confusão, pois há bastante tempo que não chegava tanta gente junta. O administrador de posto tratou de mandar os seus muleques bailundos arrecadar alguns caixotes de alimentos para sua reserva. Ainda mal refeitos da chegada, os pára-quedistas olharam à volta e apenas viram umas barracas encostadas aos taludes que serviam de barreira contra as balas inimigas. Os poucos soldados ali acantonados rodearam as viaturas e abraçaram a malta que chegou do Sul. Ninguém ficou espantado ao ver as casas de habitação destruídas. Quem olhasse na direcção de Carmona não escondia algum receio de continuar a missão, tal era a vegetação que impressiona qualquer militar conhecedor dos perigos que aí se poderiam ocultar. Mas a noite será para descansar nas tendas que já se montavam junto das paredes destruídas. Como de costume, as rações de combate da manutenção militar e um cafézito fornecido pelo chefe de posto foram um jantar bem merecido.

     Logo pela manhã, o cambuta gritava a cada chicotada que o patrão Mateus lhe atestava nas costas tenras. Acusado de ter comido duas papaias do quintal, o mainato gingava o corpo para se escapulir das chibatadas:

     – Aiué, Tapioca não fez mal ao patrão!

     A Dona Angélica, muito zangada com seu marido bruto, tentava deitar a mão ao chicote em defesa do mainato, que gritava e gingava para fugir aos açoites:

     – Aiué, senhor sordado, patrão é ruim mesmo! Ele faz de conta que gente é bicho do capim, dá muito porrada, até matar! Até mataco está negro mesmo.

     – Ah, cambuta de merda – gritava o patrão Mateus, com um olhar endiabrado. – Vais capinar até caíres na vala e morrer como um cão danado.

     Mas a Dona Angélica nem queria acreditar... Viu ao longe um conhecido oficial dos caçadores que chegava com os seus soldados, para recolher o reabastecimento para o acampamento do Mucondo. Deitou as mãos na saia rodada, correndo ao encontro daquela tropa pertencente ao acampamento e pediu ajuda para evitar que o marido matasse o desgraçado do mainato.

     O oficial, com voz forte, chamou o senhor Mateus, mandou parar o chicote. Em posição agressiva, ofereceu dois murros aos queixos do agressor. Mateus ainda deu um pontapé no traseiro do mainato que, vendo-se solto, fugiu para junto da Dona Angélica e dos tropas. O Mateus, de rosto a escorrer suor, ainda ameaçou a mulher:

     – Mais de noite, vais levar duas chapadas bem assentes nessa fuça para não me envergonhares a autoridade.

     O oficial dos caçadores preveniu que as agressões aos negros só pioravam as coisas, que a guerra estava em expansão e que só aumentariam os problemas, e mais pretos passariam para os turras da UPA.

     O mainato já não era assim matumbo... e no cabeça havia muito revolta que fazia crescer a raiva e a vontade “insurtar” patrão ruim, mas a “desgarça” de nascer pobre em Quibaxe deixava-o arrepiado. Conseguiu conter as lágrimas e, agarrado à Dona Angélica, roçou a carapinha por baixo das mamas dela, enquanto o patrão lançava um olhar de pacassa ferida, com vontade de espatifar o mainato.

     O tenente dos caçadores mandou o seu pessoal carregar os reabastecimentos, para regressarem de dia a Mucondo. Antes de seguirem com os reabastecimentos que já faziam falta, tiveram uma amena conversa com os pára-quedistas.

     A Dona Angélica foi para dentro de casa e o mainato sacudiu a carapinha, engolindo as palavras de raiva que queria atirar ao patrão Mateus. Mas acalmou-se debaixo da protecção da Dona Angélica. O patrão Mateus foi para o galinheiro e começou a cortar cabeças a duas galinhas que cacarejavam, atirando depois a catana contra a mangueira que dá sombra ao alpendre que fica nas traseiras da casa. A noite chegou mais cedo, acompanhada por chuvas torrenciais que iriam dificultar a progressão da coluna dos caçadores, que já se faziam à estrada até Mucondo; mas as tempestades estivais são esperadas.

     Depois das nuvens de poeira a intoxicar os pulmões, temos as picadas lamacentas e os rios transformados em lagos e mares. Os animais desorientados aparecem no lamaçal das picadas, correndo e caindo como bestas sonâmbulas a caminho do inferno. Passado o escarpado que se eleva para além da ponte, o matraquear das armas automáticas obrigou toda a gente a lançar-se para o chão irregular da picada, onde cada um procurou proteger-se no melhor abrigo. Inesperadamente, a quarta viatura foi atingida no rodado da frente; a equipa do Fonseca, que seguia na terceira viatura, aproveitando um pequeno talude para servir de parapeito, responde ao fogo inimigo com estrema eficácia. Enquanto isso, o capitão Pernas disputava com o cabo Salgado um lugar mais protegido das balas que chispavam nas viaturas:

     – O meu capitão está a empurrar-me para onde?

     – Não vê que as balas vêm daquele lado? – assumia o capitão, ao apontar para as ramagens, que tremiam com o impacto.

     O cabo ainda olhou de relance, mas o fogo inimigo era a sua preocupação! Nem deu resposta. E o capitão insistiu na defesa da sua posição:

     – Ó nosso cabo, não discuta e deixe-me ficar atrás dessa roda, porque eu sou um alvo muito grande e corro mais riscos, sabe como é...

     Acossados pelos disparos que batiam as suas posições, os turras retiraram, com a primeira secção de pára-quedistas no seu encalço. Até passar a improvisada ponte, a coluna avançou com toda a tropa apeada. Três secções de pára-quedistas procederam ao reconhecimento das escarpas que ladeiam o caminho, sendo batidos todos os redutos que pudessem abrigar inimigos. Mais de duas horas de buscas e apenas três carregadores de metralhadora foram encontrados.

     Alguns quilómetros à frente, as árvores pareciam perfilar-se ao longo da picada, enquanto uma nuvem despejava um leve aguaceiro que acalmou as poeiras que nos apoquentaram. O comandante apontou para a vasta vegetação, onde se poderiam ocultar inimigos emboscados. Mas essa vegetação rasteira também parecia contemplar a presença da tropa que entrava na povoação de Quitexe.

 

 

     Mamadu ainda é considerado o chefe espiritual do Imbondoé, manda menos do que o regedor, mas é mais influente no meio dos povos dos Dembos e das terras do Piri. Já não tem os poderes mágicos que o levaram a ser venerado pelos povos da etnia Bacongo. Ninguém sabe se participou nos massacres da UPA, mas corre o boato de que fugiu para o Congo e só apareceu no Quibaxe dois meses depois das chacinas de Março – com mais de vinte mulheres e algumas crianças, apresentou-se às autoridades e tem colaborado no apaziguamento das populações que vão regressando à povoação. Era notória a pouca credibilidade que lhe restava, e já não conseguia viver como curandeiro! O chefe de posto administrativo que foi para o Piri também não acreditou nele, por desconfiar que andou com os Bacongos nas matanças de Março. E assim, Mamadu teve de fugir para o Quitexe, terra dos seus antepassados.

     Os dias de marcha nas estradas de pó e nas matas onde as nuvens de tons de chumbo descarregam grandes massas de água desgastam os corpos, que se arrastam penosamente ao encontro dos pontos de apoio da guerrilha. Três dias de descanso trazem outro fulgor aos pára-quedistas que aproveitam para uma limpeza ao corpo e regeneração do espírito. Era certo que uns dias calmos na povoação com gente de todas as cores ajudam a recuperar forças e a fortalecer a moral das tropas. Ali vagueiam e preparam algumas galinhas no churrasco para dar outros sabores aos estômagos, depois de cinco dias a rações de combate e bolachas da Manutenção Militar.

     Ninguém ficou indiferente à chegada do novo chefe de posto, homem de aspecto rude e tez queimada por muitos anos sob os ares dos trópicos. Sente-se o semblante da população negra mais carregado, olhares desconfiados remetem-se a um recolhimento que não é habitual; até o tempo de recolha de alimentos nas lavras foi reduzido. E o chefe nem sequer convocou o feiticeiro Mamadu para a noite da festa da sua posse administrativa de Quitexe. Aproveitou a presença de vários oficiais e sargentos, que estão de passagem para outras missões, e expôs a sua ideia da psicossocial como solução para acabar com as rivalidades entre os bailundos e os bacongos, e destes com os brancos.

     Mas a moral da tropa despertava com a nova alvorada e os olhares logo se alinharam na ampla clareira que vai das palhotas até ao posto administrativo. Com o chefe de posto veio uma bela e jovem mulata! A sua aparição nestas terras inóspitas é como que uma deusa celestial a entrar na imaginação dos homens que andam sem fêmea há longas semanas. E ela toda se bamboleia, quando atravessa o largo fronteiro à loja do senhor Patrício; coisa que não agrada ao barrigudo chefe de posto, que se instala no alpendre do seu gabinete a observar o comportamento da malta.

     Receando a exposição demasiada, o chefe de posto reduziu as saídas da virtuosa menina à tomada do café para aconchegar o almoço, no boteco do senhor Augusto… e só na sua companhia! Parece ter a sensação de que muitos olhares daqueles “transeuntes” lhe podem comer a mulher, quanto mais não seja, na imaginação. Não era tarefa fácil proteger tal objecto sensual contra os olhares indiscretos que absorvem aquela imagem, transformando-a em objecto de desejo escaldante e volúvel.

     Dois dias passados e o chefe de posto logo engendrou um estratagema de defesa da sua dama! Começou por marcar reuniões com os oficiais e sargentos no seu gabinete, tendo o cuidado de mandar a senhora preparar as bebidas que distribui amavelmente, com o desígnio de cativar a confiança dos chefes da tropa que, por sua vez, podem esforçar-se por atenuar as fraquezas dos seus subordinados, antes que alguém possa sucumbir às tentações da carne e cometa o sacrilégio de lhe saltar à mulher. Depois do almoço, no decorrer da primeira reunião de serviço para tratar da situação da psicossocial, os olhares entre o alferes Martinho e a dama de tez fina e aveludada como o pó de talco espalhado nas virilhas evidenciavam alguma preocupação entre os outros tropas presentes.

     A verdade é que aquela boca de lábios densos e o corpo de gestos suaves e sensuais, que os movimentos naturais difundem daquela figura de traços sublimes, enfeitiçam qualquer homem de colhões empedernidos. E o chefe de posto lá continuava a divagar sobre os pontos de vista quanto às funções para que fora nomeado; sempre amável, tentava manter as distâncias próprias de quem está para ficar, querendo afirmar a ideia de que a tropa apenas está por alguns meses e não permite concessões nos objectivos: “Angola é nossa… Os colonos é que têm que se defender”. A dama foi tirando mais gelo do frigorífico e distribuiu o whisky com dedicação, percebendo que os convidados sofriam das carências dos contactos sexuais. E o perigo estava aí. Uma obra-prima da natureza tão vistosa e sensual, exalando os seus odores de fêmea, ainda mais lhes aguçava os apetites!

     Nunca se soube se alguém chegou a pôr a coisa em ramo verde; mas que as temperaturas estavam altas, ninguém duvida! Antes da partida para o vale do Loge, onde continuou a acção dos pára-quedistas, o chefe de posto mostrava já algum azedume e fealdade. Percebeu que qualquer dos transeuntes estava mais interessado nos doces favores do corpo fascinante da sua dama do que nas reuniões da psicossocial. Talvez nem pensasse que muitos se inspiravam naqueles longos olhares e no corpo gracioso para dar um jeito na satisfação das necessidades carnais em contravenção com as meninas que encontram na sanzala... onde descarregam as suas tensões.

     O Alfredo diz guardar todo o seu fogo e desejo para a Maria Isabel, sua noiva. Mas não deixa de assediar as jovens negras que vão à porta do acampamento entregar as roupas lavadas. Tem um poder extraordinário para cativar as gajas, que na conversa lhe pedem mais uns centavos e ficam na brincadeira até se zangarem, quando o Alfredo lhes passa a mão por baixo da capulana e apalpa a carapinha entufada. Elas são recatadas e riem muito, dizendo:

     – Ih! Alfredo quer é foder a gente.

     Sempre a rir e a pregoar, lançou o aviso:

     – Ainda é menina e não quer home p’ra fodê.

     Mas algumas já deliravam quando sentiam as mãos a espremer os mamilos, e com o calor da descarga que lhes inundava a passarinha. Esfregam-se bem, antes de entesarem o parceiro, e gemem com uma boa penachada. Andam por ali a cirandar, logo bamboleando as ancas como um chamariz que desperta a atenção dos soldados que acompanham as colunas de reabastecimento. Às vezes até são descaradas na forma de mostrar o decote, despertando a libido que está ao rubro, intensificando o desejo e as emoções dos soldados, que ficam sem controlo. Elas riem, percebendo que o membro ganha volume e os pensamentos “mergulham” no meio das coxas de qualquer mulher! A gente assim carente logo quer tocar nas peles acetinadas e apalpar as mamas avantajadas para manter o diálogo de volúpia e conquista... Mesmo no divertimento com o membro entesado, elas riem. As químicas do amor carnal também cristalizam os sonhos de amores ausentes, e não têm limites na relação corporal. Os prazeres estão nas coisas simples e são temperados pelos gestos dos corpos que levam ao êxtase das infinitas delícias da vida.

 

 

 

     Com a chegada do oficial de operações, acabaram-se as delícias dos olhares. A missão no vale do Loge desgastou as energias poupadas em Quitexe. Cinco dias a bater as roças do café ao longo da serra Cananga, até entra no vale do rio Loge, deu para romper os camuflados e enjoar as rações de combate. Juntamente com as latas de chouriço, as bolachas da Manutenção militar eram o  petisco que aguentava os corpos que se batiam contra a aspereza do capim. O primeiro embate foi logo na zona de Zalala, onde os bandidos tentaram enfrentar a tropa, mas foram corridos até Caipemba, onde o grupo principal foi dizimado. Sentado na mochila e a comer o seu petisco, o Caetano perguntava ao sargento Ferreira se a caminhada chegaria até ao Songo, pois tem lá uns conterrâneos que gostava de ver. Mas a resposta foi negativa, apesar de termos que percorrer as matas a sul do Songo. Então, o Caetano começou a mexer nas armas automáticas e armadilhas que faziam parte do espólio que foi capturado ali mesmo, a poucos quilómetros do Quitexe. E os comentários andaram à volta da ideia de que os sacanas deviam estar a preparar algum ataque à povoação. Apesar da visível confiança na segurança, os civis estavam preparados para o que desse e viesse.

     Ao longo do rio Loge, as picadas e trilhos indiciavam bastante movimento dos bandidos do Holden Roberto, sempre na direcção Sul. Isso obrigou a tropa a percorrer percursos em terreno alagadiço, a atravessar riachos e o rio Loge em diversos pontos. Uma roça abandonada estava ocupada pelos bandidos; estes tentaram emboscar a nossa tropa, mas o envolvimento de um pelotão pelo flanco direito das instalações, enquanto o resto da tropa se manteve na frente da entrada, surpreendeu os turras e flagelou os que fugiam pelos trilhos ao longo do rio. Ao final do quinto dia de missão, a alimentação escasseava, o cansaço e os camuflados encardidos sacrificavam qualquer tentativa parta prolongar as operações. Orientados por uma Dornier que sobrevoou a zona, caminhamos na direcção da picada de Quissenzele, onde fomos recolhidos pelas viaturas do Exército.

 

 

 


 

 

 

                 PROGRESSÃO na Mata

                                                                                    

     Antes da saída de Quicabo, as viaturas alinhadas ficaram cobertas de pó e a malta teve de limpar as narinas. Acabava de chegar uma coluna dos Caçadores especiais em marcha rápida. O movimento das viaturas levantou tamanha onda de poeiras que mais parecia uma onda de cacimbo - muitos deles pareciam tão cacimbados que só procuraram a cantina para emborcarem umas cervejas refrescantes. Se a malta não estivesse de partida haveria o desempoar dos camuflados, naturalmente.

 

 

 

 

     Para evitar a "borrasca", os pára-quedistas seguiram a caminho da fazenda Beira Baixa. A necessidade de arranjar madeira para os Sapadores repararem as pontes até Nambuangongo, obrigava a proteger a serração da fazenda e a melhorar a segurança no itinerário. Na coluna iam alguns conhecedores da zona, por terem andado por lá nos meses de Setembro a Outubro.

     - Agora vamos para melhor. Mais para a frente há uma roça abandonada, onde há mangas e abacaxi - palrou o Simplício, já conhecedor do caminho para Nambuangongo. Para quem sentia os arrepios da fome no estômago, aquela afirmação parecia animadora; ainda mais, referindo-se a produtos frescos! Deixar a picada e romper por entre os arbustos densos foi uma tarefa difícil, fatigante e perigosa, porque qualquer barulho de ramagens secas poderia alertar o inimigo.

     Com poucos quilómetros percorridos na direcção da antiga fazenda, apareceu um morro a prometer fogacho. À cautela, dois pelotões foram tentar bater aquele ponto crítico. Enquanto aguardava o momento de entrar em acção, o Baleia protestava:

     - Cona da mãe! Já não chegou ter que ir a pé em toda a zona das "sete curvas", onde o inimigo gosta de presentear o pessoal com umas boiardas, e temos mais esta. Para os filhos da puta estarem em Luanda a esfregar a choça das primas, andamos nós aqui a comer pó e metidos na lama até aos tomates.

     Ainda o Baleia não tinha acabado de expressar a sua raiva e já os bandidos disparavam as primeiras rajadas a varrer as folhas. Com as balas vinham também algumas frases provocantes:

     « Eh tuga! Se soubesses com quem a tua mulher anda a foder, ias já no puto. Pois é melhor ires no puto antes que os cornos empanquem nas árvores e fiques com o corpo a escorrer sangue.»

     Os pára-quedistas foram obrigados a uma aterragem brusca, para fora do trilho, a fim de evitar uma remessa de balas disparadas do meio das árvores onde estalou o crepitar de armas automáticas. 

     - Os cabrões nem esperaram que a malta chegasse ao morro! – grunhiu o Ventura.

     Cada um como pode, procura defender-se das balas a varejar as árvores.  Sem perder tempo, o cabo Almeida apontou a bazooka para a escarpa do morro donde saíram os tiros... a granada explodiu contra as árvores que abrigavam os terroristas, espalhando destroços que chegaram até aos primeiros homens da secção. O resultado foi devastador! Todos sentiram um grande alívio na coluna vertebral, com o aniquilamento daquele grupo de perigosos inimigos.

 

 

 

     - Não sobrou nenhum para contar ao Holden Roberto como ficaram os corpos. -  atestou o Almeida, com um largo sorriso de satisfação. 

     No período de acalmia que se seguiu, duas secções subiram ao pequeno morro e fizeram uma observação à zona circundante. Depois de tirarem o azimute para atalhar caminho seguro na direcção da serração de Inga, lá do alto, de arma aperrada e com voz pesarosa, o sargento Ferreira exclamou:

     - Olhem que os gajos aqui instalados preparavam-se para nos enfrentar e causar baixas!

     É certo que a surpresa da emboscada poderia tramar alguns pára-quedistas; ainda mais na zona de arbustos rasteiros e com reduzida visibilidade. Mas a precipitação dos bandidos, que dispararam sem precisão e a distância inadequada, safou a malta de consequências imprevistas; e todos prosseguiram na caminhada até à fazenda Beira Baixa, onde os sapadores preparam as madeiras para reparação das pontes do Onzo até Nambuangongo.

      Mais tarde, embarcamos com destino à povoação de Inga.

 

 

                                 

     Passámos as sete curvas sem problemas e a estrada continuou poeirenta na incógnita duma emboscada que nos pudesse tramar o caminho. Uma recta infindável conduzia à roça da Beira Baixa e para trás ficou o Onzo e Balancende onde se cruzam os caminhos do nosso destino, sem esquecer a morte do soldado Pereira.

     É a coluna dos danados que avança imparável, por mal dos meus pecados...

 

 


 

 

               HERÓIS ANÓNIMOS… na Mata da Sanga

     A operação decorria dentro da normalidade, tendo sido atingidos os objectivos materializados no ataque ao reduto da FNLA instalado na zona norte da mata da Sanga: a quantidade de armamento capturada é significativa e obrigou os dois helicópteros de apoio a transportar duas cargas até à base do Negage.

     Naqueles dias de lutas encarniçadas entre os combatentes e dois inimigos perversos - os guerrilheiros da FNLA e a vegetação composta por lianas traiçoeiras entremeadas com o capim áspero como lâminas -, ninguém previa um final de dia tão atormentado.

     Lentamente e com determinação, o acampamento foi atingido e cercado na madrugada do segundo dia de acção dentro da mata da Sanga. A surpresa do assalto não deu hipótese de reacção, embora as sentinelas tivessem dado o alarme que permitiu a fuga de alguns bandidos. Foram feitas batidas pela zona, sendo encontrados dois depósitos de armamento recente com indícios de que estaria para ser distribuído para outros acampamentos inimigos.

    Durante a viagem nas viaturas conduzidas por elementos do Exército destacados na serra da Ambuila,  as conversas andavam à volta do boato de que a FNLA estava a preparar ofensivas às colunas que circulavam para Quitexe, Carmona, Songo e Lucunga; porque os nativos Bakongos mostravam alguma animosidade para com a tropa e denotavam uma estranha dose de confiança nas ajudas vindas do Ex-Congo Belga.

     O grupo de combate aproximou-se da periferia da densa mata e escolheu a clareira mais apropriada para aterragem dos helis com vista à recolha do pessoal e do material; o sol começa a esconder-se nas nuvens que se estendem para os lados da serra de Mucaba, enquanto o inimigo ronda em surdina e para surpreender a nossa tropa. Os helis tardam a regressar, para continuarem na missão de recuperar o pessoal para o Negage. O Cachucho e o Seara olham a copa das árvores e não vislumbram sinais dos zingarelhos, mas o pessoal aproveita para beber as últimas gotas de água dos cantis. Quando a esperança começa a fugir com o sol, aterra o primeiro helicóptero, onde embarca uma equipa; com a rapidez dum gavião, logo se faz aos céus.

     Tudo parecia acabar com mais uma missão de sucesso, nessa tarde atormentada; mas, mal o helicóptero se aproxima do solo, os guerrilheiros abeiram-se da orla da mata e disparam na direcção das nossas tropas; com o pessoal ainda em desequilíbrio, o piloto tenta safar o zingarelho e afasta-se da zona num voo rasante à copa das árvores; um calor estranho passa pelo corpo do piloto que sentiu o impacto de bala inimiga. Para se esquivar ao fogacho, guina a "máquina" num voo rasteiro ao chão na direcção da base do Negage, onde chega com dificuldade, valendo a sua mestria para aguentar o ferimento e o helicóptero crivado de balas, quase sem combustível. Durante a manobra, dois dos militares do grupo caem abaixo do aparelho, tendo o Campos fracturado uma perna. Perante a proximidade do inimigo, procuram protegerem-se atrás dumas rochas e entre o capim, defendendo as suas posições com todo o arreganho.

     Os homens do grupo do Seara apercebem-se da queda e avisam o piloto que os recolheu. As comunicações entre o heli e a base do Negage permitem pedir apoio aéreo, mas a hora tardia parecia inviabilizar qualquer acção. Num lampejo de raiva e bravura, o sargento que acompanha a equipa dentro do helicóptero instigou o piloto a aproximar-se do chão, dando condições mínimas para saltar com os restantes companheiros, que se juntam ao Campos e ao Peseiro. Do Negage vem a ordem para os helicópteros abandonarem a zona e regressar, porque não estão preparados para voar depois do pôr-do-sol! No terreno, o pessoal protege-se como pode, evitando ficar na mira das armas inimigas.

      A metralha do inimigo não deu tempo para recolher o Campos e o Peseiro. Ao aperceber-se do risco de ficar ali com o helicóptero, o piloto afastou-se, deixando no terreno o grupo do Seara.  Com o aproximar da noite, o chefe da missão entendeu não haver condições para recuperar os sete homens retidos no terreno, os quais são atacados por todos os lados. Defendendo a posição contra a ferocidade inimiga, utilizam todos os meios, incluindo granadas, para afastar os bandidos. Depois de mandar uma granada contra os atacantes, o enfermeiro Pena dá um "ai que já levei". Deitado de costas para atirar granadas, sente o impacto da bala e vê o sangue escorrer no lado da bota. Pede ajuda para estancar a hemorragia, sempre na posição rasteira ao chão, enquanto o inimigo aperta o cerco a situação torna-se dramática. Ao ver Cachucho com as granadas ali à mão, o Pena percebeu que os restantes elementos do grupo não descoravam a segurança e logo tratou das feridas que o angustiavam.

     No Negage, trava-se uma discussão sobre a forma de socorrer aquele pequeno grupo de homens azarados. Até o Mesurado, chefe do grupo, entende que o risco é demasiado elevado para se fazer alguma coisa!  Mas há sempre quem cresça acima das dificuldades... perante a apatia dos responsáveis operacionais, alguns pilotos, entre os quais o Encarnação Pinto, avançam na direcção das "máquinas" e logo dois aviões T6 e um helicóptero levantam voo e seguem para o local do perigo - uma clareira na mata da Sanga. Os roquetes certeiros abatem-se sobre os bandidos para lhes refrear o ímpeto guerreiro; perante uma situação que parece catastrófica, os sitiados direccionam as rajadas de fogo contra os bandidos da FNLA, permitindo aliviar a pressão. A aproximação e aterragem do helicóptero é rápida e, num ápice, aquele grupo de valentes é recolhido com sucesso.

 

      Já no lusco-fusco de fim de dia, os roquetes e as bombas dos aviões T6 dispam mais uma vez sobre o inimigo, numa derradeira investida. A hora tardia obriga ao regresso à base, onde a ansiedade tomou conta de todos os presentes. E tudo termina com uma churrascada, bem regada com as Cucas fresquinhas, na base do Negage.

 


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