AS RAÇAS ENSARILHADAS
Já é costume o deambular pelos musseques, nos destinos nocturnos. A vida fervilha por todos os lados e a tropa aproveita as horas do lazer para embarcar com a população local e tentar perceber os seus dramas diários.
– Mulatos de merda, não tem jeito p’ra ser gente grande e está chateando. Eu vou dar manga de porrada nele – reclamava o Chico António, com o corpo encostado à paragem do machimbombo da Maianga.
– Toma cuidado, tu não vai perder a cabeça. Ainda perdes emprego! – avisou o preto da ginga.
– Patrão só dá trabalho e não dá dinheiro p’ra comer e tratar dos filho. Se a gente é pobre, nem tem tempo p’ra descansar, só trabalhar, trabalhar para riqueza dos gajos que nos trata mal e dá porrada...
Estava o mulato Luís a ouvir os desabafos dos vizinhos, e também ia dar faladura, quando viu a amiga Graça atravessar a rua para apanhar o transporte. A noite já estava adiantada, e ambos se desviaram da conversa dos matumbos.
A Graça esteve em estudos no externato e o Luís também anda em estudos de... música! Pela conversa, parecia desanimada com a vida:
– Do meu pai não tenho notícias desde que ele foi a capataz nas minas de Cassinga. É português das Beiras e trabalhou na fazenda Tentativa. Minha mãe morreu com doença estranha! Uma sacanice dos doutores. Andei a fazer um trabalho no café do senhor Martinho, ele fodeu minha vida; fodem a mim até não querer mais... porque pedi p’ra ganhar mais três angolares por mês. Mandou embora. Já fui no bar da Ilha e não dão trabalho.
– E vais gostar do trabalho nos bares barulhentos? – indagou o Luís, seu amigo da escola de S. Paulo.
O machimbombo travou de repente, com quatro ou cinco passageiros dentro. Dali até ao bairro de S. Paulo, muitas voltas deram com encontrões de brusquidão a que ela sorria. Entraram no café do senhor Reis, já além dos Combatentes. Ele bebe uma Spur, ela uma coca-cola. E continua a conversa:
– Tento estudar p’ra ter mais valor. Nos bares não importa ser puta, quando a vida não tem mais nada... escorraçada para os braços de homem que paga não é mal nenhum. Eu até tenho pele macia que eles gostam! Tenho muito tempo p’ra viver a vida sem ser escrava dos homens, sem ser enganada todos os dias. Eu sou mulata perfeita, sei usar os cheiros quentes, tenho amigos brancos...
A conversa já não agradava ao Luís, que estava vidrado com aquele modo de ver a vida. Nem parecia a Graça das festas da passagem de ano! Mas ela ainda tinha muitas mágoas para exportar para a sociedade que a rejeita.
– Só porque sou filha de animais falantes é que sou bicho gente, nascida na madrugada da lua cheia. Ainda menina, minha mãe sonhava que eu não ia comer fuba de mandioca, ia ter sonhos lindos... Veio a morte e levou ela; um manto de neblina invadiu a minha vida e encurtou o horizonte. Com um pai desertado, fiquei na cantina do senhor Martinho três ano! Dias de corpo cheio de pancada; dias de boa gente e boa comida. O guloso pegou em mim e abriu meus corpo de menina, deixou sangue escorrer. Depois deu prendas e foi amigo... p’ra foder todos os dias, sem eu ter vontade.
O Luís virava os olhos e seguia os passos dos que saíam do café, porque as dez horas do fecho aproximavam-se. Não tinha palavras para animar a Graça, e o chorrilho de lamentos já o incomodava. Ela estendeu mais algumas mágoas com esperança:
– Agora já tenho a minha liberdade, uma casita aqui no S. Paulo para as minhas intimidades com os amigos... E até já tenho um padrinho!
De olhos arregalados, o Luís atreveu-se a perguntar:
– Mas a casa é perto? Tens lá alguém?
– Bem... vivo sozinha, mas pode ter visita. Logo nos bares, os homens que vão à bebida, pode acompanhar a casa e paga muito bem meu hora na cambalhota. A vida não vai ser muito bom p’ra mulato, mas os brancos também vão sofrer.
Sem entender bem aquela vida enviesada, o Luís só deixou um comentário sentencioso:
– De certa maneira tens razão. Quando o barco for ao fundo, ficamos todos afogados, brancos, pretos e mulatos. Esta guerra não vai ter fim, não. Para fugir para os bandidos não tem jeito, porque há sempre a desconfiança por não ser preto. Assim, teremos de viver as desventuras do pecado da mãe preta, enquanto não inventar outra forma de vida... com alegria e família.
– Os mulatos que vivem à sombra dos brancos só comem os restos e vestem roupas iguais, mas são ximpados nos bairros das palhotas. Eu arranjei o meu refúgio sem incomodar branco – desafiou a Graça.
Alguns folgazões gostam de zombar das arremetidas do Pinelas, a manejar o punhal que assusta as putas que o tentam assediar no musseque. À volta das mesas da esplanada, as meninas podem cortejar os clientes sem se sentar; mesmo com o grupo do costume a pagar, não querem fazer despesas. Usam os seus truques de engate como se fossem personagens místicas no convite, dando risadas e pronunciando palavrões brejeiros muito do agrado do pessoal. Enquanto os muleques trazem mais uma rodada de Cucas e petiscos a condizer, a malta entretém-se a apalpar as mamas e a meter as mãos por baixo das curtas saias das moçoilas. Além dos militares que estagiam por ali, há outros transeuntes de ocasião que se intrometem nas conversas e chegam a incomodar. As mulatas gostam mesmo é da tropa!
Sem contar, um fulano corpulento, com jeito de ser camionista, vestido de calções e camisa às riscas, levanta-se e manda uma boca provocante contra a presença dos pára-quedistas!
– Já não bastavam os matumbos de Luanda para chatear e vem agora este – exclama o Pinelas, já quente.
As coisas aquecem e o Pinelas passa ao ataque: socos, pontapés, caras esmurradas, sangue a sair pelas narinas, cadeiras pelo ar... A polícia a chegar e todos a fugir pela Avenida dos Combatentes! O patrão olha à volta... tantos estragos e sem clientes para pagar!
– Milando nunca ajuda no negócio, patrão – diz a Celeste, na sua terna inocência.

MÍSTICA NO BATUQUE
Em noites de refulgente luar
os corpos todos se agitam
ao som do tam tam tam
onde mais emoções palpitam.
- Por quinze tostões e um doce
podes ter o meu corpo quente
não pagas imposto, e se fosse
uma noite bem diferente?
Assim falou a mulatinha
de voz piamenta e terna,
ao roçar na minha perna!
É a miséria madura e crua
da menina que se oferece nua
na esteira em noite escura
ao som das marimbas pretas
dos batuques desta rua
onde gemem as silhuetas
que rasgam negros desejos.
A vida nos bairros fantasmas
onde resvalam os beijos
e os lamentos de solidão...
são arestas, são escamas
a torturarem a tesão!
O ENLEVO DO ENCONTRO
Ele não perde tempo em preparar a imagem, porque acha suficiente a barba escanhoada e roupa limpa para agradar à namorada, que o espera no jardim do costume. Os aviões, que regressam do Norte carregados de sonhadores, dão os sinais que só elas sabem decifrar; pode ser feitiço, mas na hora elas lá esperam os seus pares, mesmo que se apresentem com a pele mais tisnada. E o Almeida apressa-se e chega antes da noite:
– Sabes que não tenho jeito para andar à volta do jardim como quem não vê outros caminhos que não sejam o circuito fechado... A vida é infinita no sentido da visão no horizonte da fantasia! É por isso que perco o prumo e o que me resta de gentleman, fico apático! Recuso imaginar-me preso ao teu recreio de curto alcance. Ao menos, aproveitemos o cair da noite; podemos sentar os corpos nas ervas...
Sentados num dos canteiros do jardim do Carmo, encostam os rostos flutuantes em carícias lúbricas, juntam os lábios e deixam que os beijos captem o néctar com a língua a dançar nas bocas quentes e, no percurso mais ousado, ele tenta avançar:
– No meu sonho, as mãos entram na blusa à conquista dos teus seios duros, onde o movimento dos dedos que afagam os mamilos em crescimento te deixam a arfar, até que a mão direita descaia para o ventre onde descobre a turfa de arminho que cobre a concha que me refina a linguagem dos gestos expressivos do amor. Gosto cada vez mais dos ares da África…
Com o rubro estampado no rosto, as meigas palavras deixavam a Marlene em transe, mas não quis deixar o Almeida sem resposta:
– Que sabemos de África? Os habitantes da cidade pouco se interessam do que existe para fora do burgo, além do Cacuaco ou do Dundo. Sabem que há uma linha de caminho-de-ferro que vai de Luanda até Malange, são poucos os que viajaram no comboio. Alguns vão até ao Dundo passear. Mais para além, tudo é mato, selva com gente selvagem. Só os camionistas e os madeireiros se interessam do mato, das roças e do café. Dentro de Luanda é o nosso mundo... com as praias como limite dos nossos lazeres de fim-de-semana. O espaço em que nos movemos é monótono, repetitivo. Daí saber que os dias em que ando contigo podem ser fortuitos, sem futuro, até. Mas são diferentes e dão gozo à vida, quebram as amarras que nos deixam sem sonhos e sem esperança de mudar o ritmo da vida. Nunca soube como é a vida na metrópole, mas também não auguro que seja muito melhor, a atestar pelos que vêm para cá trabalhar... A tropa veio movimentar mais a cidade, trouxe outro ritmo e deu-nos uma réstia de esperança para um futuro melhor. A guerra quebrou muitos laços de amizades construídas sobre interesses materiais que degradaram a confiança das pessoas. Foi uma ruptura com vícios de protagonismos bacocos; mas a hipocrisia das pessoas aumentou. Eu, que fiz os estudos com boas médias, não tive as mesmas oportunidades de entrar nos serviços da administração provincial, só porque não pertencia a essa hierarquia da fazenda! Até famílias cabo-verdianas são mais protegidas do que muitos angolanos com os mesmos estudos. Não me sinto bem neste ambiente dos poderes de Luanda...
O Almeida sentia-se noutro planeta, duas semanas longe da civilização atiçam o desejo de afectos que o deixam continuar a sonhar:
– Mas a noite está linda e eu gosto da tua excitação ascendente e prolongada no sentido das carícias que libertam os desejos dominantes da vontade de vivermos anexados um ao outro! E depois da descompressão, as emoções saltam nos teus olhos, que já não conseguem ver os lírios que embelezam os canteiros que ornamentam esta paixão que nos atira para a vergonha da exposição dos corpos frente à igreja do Carmo.
– Estás apanhado da cuca!
Mudam de cenário e sobem até à estátua da Maria da Fonte que, com seu ar guerreiro, parece desafiar os transeuntes. Já no largo fronteiro ao mercado, ele puxa-a com vontade, ficam os dois colados num beijo prolongado:
– Chupas a língua com tamanha sofreguidão que eu não me consigo conter!
Sente a energia polarizar os testículos e a opulência da ejaculação deixa um lastro húmido, que só o lenço envolvido no falo apressadamente evita a vergonha de ter de atravessar a cidade desde a Mutamba até à Vila Clotilde com as calças molhadas!

O PÁSSARO FELIZ
O avião voou tarde e bem roncou.
Regressei ontem... aqui estou!
- Amor, andas embrenhado na guerra
e não encontras tempo para o amor!
Querida, mas hoje é domingo...
acordei como um pássaro feliz,
alegre por sentir esses lábios
de fogo... como sempre quis.
- Hoje não sinto o mesmo ardor
dos teus beijos... não eram assim!
Os teus lábios sabem a pólvora
e têm a secura do capim...
Põe as mãos nos olhos, abertos...
pergunta ao vento quem é o inimigo.
Abre os olhos como duas janelas...
cuidado com os sorrisos que semeias,
para eu não perder a esperança
que trago dentro do peito...
- Amor, eu não tenho outro jeito
para refrescar a tua boca...
e o meu sorriso é natural
como uma flor que desponta
em qualquer jardim divinal...
Vou adornar-te com delícias
tomar-te pela cinta a ternura,
meu anjo de intensa formosura...
enquanto as tuas carícias
repousam na minha boca,
entro no segredo do silêncio
onde absorves a seiva louca
entrincheirada nos corpos
com leves aromas das flores...
assim acordámos abraçados
na efémera hora de amores,
aqui no jardim entrelaçados!
Quem atiça o fogo... QUEIMA-SE!
A afabilidade não lhe serviu de nada, perante a grosseria da linguagem dos polícias militares, e o peso dos bastões com que foi mimoseado eram para perceber que o lugar da boina não é na mão! Assim, o cabo Martinho, barbaramente espancado por esboçar uma desculpa, caiu inanimado à porta do Hospital Militar de Luanda. Os quatro militares da polícia que praticaram tal feito tratavam de fugir no jipe da ronda, quando vários militares que aguardavam vez para a consulta externa lhes barraram o caminho, mesmo levando no toutiço. O corpo do cabo Martinho continuou estendido à porta do hospital, até que outros dois pára-quedistas chegaram para a consulta e logo trataram de socorrer o companheiro maltratado. Alertado pelo alarido, um enfermeiro veio saber o que estava a acontecer, pegou o pulso do cabo e sentenciou: “O homem está morto”!
Todos se olharam como se tivessem caído no abismo; parecia que estavam em choque. A fúria foi quase instantânea em direcção aos militares da Polícia Militar, mas os cobardes aproveitaram a confusão e puseram-se a milhas. Muito consternados, removem o corpo para a morgue!
Amargurados, os dois pára-quedistas esqueceram a consulta externa e voltaram ao aquartelamento do Hangar Velho, distante cerca de trezentos metros, dando a notícia da brutal agressão que vitimou o cabo Martinho. Uma onda de revolta estoirou entre os seus companheiros; fazem-se planos para a vingança, com diversas variantes para a acção. Ninguém queria saber das consequências e a confusão não deixava grandes espaços para o bom senso. Vinda do lado da entrada no aquartelamento, uma voz aflita grita: “Eh malta, o Martinho está vivo, já está a ser tratado”! Era o Pereira, a regressar do hospital, ansioso por dar a agradável notícia. Alguns curiosos que foram até à morgue ver o que se passava aperceberam-se do corpo a mexer e alertaram os enfermeiros, que o levaram à urgência. Porém, a vontade de dar um bom ensinamento aos indignos da PM era imparável e os planos eram para manter.
Claro que as tropas que sofrem as agruras do mato e das picadas poeirentas não aceitam ser incomodadas pela PM, que se passeia pela cidade em constantes acrobacias provocatórias. Como abusam do poder do bastão, os episódios constrangedores são frequentes, porque não têm qualquer credibilidade. Organizadas equipas de acção, cordas de assalto cortadas à medida para enrolarem três homens, horários das acções e tipo de vestuário (civil e militar), tudo foi previsto. Ao “toque de ordem”, cerca das cinco horas da tarde, o comandante de companhia tenta reunir com os militares descontentes que se encaminham para a saída... chamando à razão, ameaçando sem resultados práticos. Pelos rombos na cerca, por detrás do refeitório, virada para o Liceu Guiomar de Lencastre, escapam-se mais de trinta pára-quedistas, longe da vista do capitão.
Para quem passava na Avenida Marechal Carmona, o espectáculo tinha tanto de insólito como de malandrice: meia dúzia de militares da PM pareciam uns coitadinhos atados às árvores, um a um, sem basófias e lamurientos. Apanhados desprevenidos, nem tempo tiveram para reconhecer os seus captores! A notícia do aprisionamento correu como um trovão. Era tal o asco àquela cambada de rufias que a malta dos fuzileiros e de outras armas parava nas esplanadas onde estivessem pára-quedistas comentando o acontecimento. E deram ideias de que, junto às medidas delineadas durante a tarde, prometiam escaramuças sérias no musseque S. Paulo.
Os “cabecilhas” da organização determinaram a actuação dos grupos de desforra para as dez da noite. Atrás de cada dois PM seguiam dois pára-quedistas ou fuzileiros à civil e armados de punhal oculto. Os intervenientes fardados limitavam-se a circular pelas ruelas entre as palhotas da grande sanzala, até à hora do confronto. Caso houvesse provocação, um apito daria o sinal de ataque: apunhalar os ditos nos braços e nas pernas, evitando o tronco, e desandar do local.
“Ena, tantos”, exclama o Simplício, quando entra no largo onde estão as viaturas da Polícia Militar. Mais de duzentos militares misturam-se nas estreitas vielas de S. Paulo. Os negros, recolhidos dentro das palhotas, abrem pequenos postigos para tentar perceber o milando. A tensão aumentava à medida que se aproximava a hora H. Uma onda de poeiras despertou a atenção das tropas – vindos do lado dos Combatentes, três jipes entram no largo e deles saem os dois chefes máximos das forças em presença. Dirigem-se aos respectivos subordinados. O comandante da Polícia Militar, cabisbaixo, entra no camião das transmissões. O tenente-coronel pára-quedista Alcínio Ribeiro sobe para cima do jipe e extravasa a sua irritação:
– Mas que merda vem a ser esta? Os pára-quedistas a desperdiçarem as energias desta maneira? Há problemas que não podem ser resolvidos à porrada. Calma aí!
Sem grande movimentação, os que trajavam à civil foram-se escondendo no meio das palhotas; os fardados ficaram especados a ouvir o chefe.
– Cabo Aureliano, como és o mais antigo, manda formar esse pessoal aqui na minha frente – ordena o comandante.
Poucos conseguiram esquivar-se... e a formatura alinhou com mais de quarenta pára-quedistas.
– A partir deste momento, qualquer desacato será da tua responsabilidade – determina o comandante!
O cabo Aureliano não sabe como controlar os ânimos daqueles homens desejosos de dar uma lição aos PM. Entre os que trajam à civil, vai “passando a palavra” da suspensão da acção até às onze horas. Depois se verá!
Os jipes da PM dançavam, levantando poeira, em direcção aos Combatentes. Entraram no alcatroado com as viaturas em ziguezague, desafiando os seus “rivais” das tropas especiais, passando tangentes aos que atravessavam as ruas a correr. Parecia a multidão a sair do Estádio dos Coqueiros, depois de uma partida de futebol.
O desastre aconteceu muito próximo da Igreja de S. Paulo. Muitos dos que seguiam em direcção aos Combatentes lançaram-se para o chão, mal ouviram o matraquear de uma metralhadora dentro dum jipe sem condutor! Perante a confusão geral, a viatura esbarrou-se contra a parede de um quintal, deixando o condutor e um furriel pelo caminho. Assustado e agarrado ao assento de trás estava o descuidado soldado da PM que, imprevidente, deixou o gatilho da arma à mercê das horas de azar.
Dois dias mais tarde, muitos choraram a morte de um companheiro de infortúnio. Razão mais do que suficiente para os responsáveis pela segurança dos militares reunirem e determinarem que as rondas passassem a ser mistas e compostas por militares dos três ramos das Forças Armadas.

Luanda – DIÁLOGOS INCOMPLETOS...
O avião não teve os ventos de feição, mas a força dos motores chegou para aterrar em Luanda pela tarde amena. Na carlinga trouxe mais um pelotão da 3.ª companhia, com os homens cansados de 14 dias em missões no interior das matas e do capim mais áspero. Como de costume, o banho bem temperado recompõe os corpos castigados pelo rigor das caminhadas, onde o suor deixa uma camada de impurezas viscosas condensadas na pele.
Indo à procura do repouso mental, o Sousa não encontrou a Ondina na hora do costume! Meia hora em Luanda é muito tempo. E seguiu no machimbombo da praia da Corimba.
“Vai um Baleizão fresquinho”? Os caluandas nascidos em S. Paulo de Luanda, lá bem no alto nos muceques, transportam a geleiras com doces e gostosos gelados. Um bom ponto de venda é o cais de embarque para a ilha do Mussulo. Aí mesmo, o Sousa botou palavra e comprou um gelado, enquanto o barco Kopozoka regressava ao cais. Achou graça ao pregão do negrinho: “Quem quer Baleizão fresquinho, ué”?
– Compras os gelados na casa Baleizão, é? – interpelou o Sousa.
– Não senhor. Eu tem patrão que traz carro aqui com gelado, para eu vender. Eu ganhar muito pouco e patrão tem muito venda, mesmo.
– Não gosta do teu patrão. Ele trata-te mal?
– Patrão não trata mal. Eu ganha pouco, com o guerra está muito mal.
– Parece que tens ódio dentro do peito? Assim não vais entender a incerteza do futuro nesta guerra.
Antes que o Sousa embarcasse, chegou o seu amigo Antunes. E o preto, parecendo não entender, ainda deu mais umas palavras:
– Sabe falar bem, senhor!
E o Sousa, na sua descontracção e virado para o Antunes, exclamou:
– Estes gajos sabem bem o que querem, mas eu não quero ser herdeiro do espólio dos antepassados, apenas quero beber as belezas das paisagens que eles descobriram... Olha-me para aquela ilha! Um paraíso!
-Só para relaxar, vou convidar a Ondina para o espectáculo que está no Nacional. Temos as piadas do Badaró com o Nicolau Brynner, o Luís Horta e a Maria Domingas e mais uns tantos artistas que vieram de Lisboa, com fado, gargalhada e dança – lembrou.

ARRUFOS SEM ALQUIMIA
Com o corpo diminuído e dorido, duas semanas a dormir nas matas da Sanga e a alma enregelada pela dureza das restrições à civilização, o Sousa precisa urgentemente de repousar. Nem que seja num estábulo onde possa excomungar os antros de estupidez e reencontrar as bizarrias da Ondina, que lhe deixaram recordações escritas e biografadas; às vezes, agrestes mas, emocionalmente, estabilizadas.
Hoje, mais recomposto, foi dar a volta pela baixa. Um passeio da Restauração até à marginal, para contemplar a baía e passar pela Arcádia, sempre ajuda a entrar na civilização.
«Ué, a Ondina a sair dos correios? Não sei se aceitará a minha companhia, mas não vou perder a ocasião de ir à fala» – exclamou o Sousa em surdina, ainda incrédulo com tal visão.
– Olá, senhora professora! A mandar carta à família, hem?
Ela puxou-o para a entrada das arcadas, ali ao cantinho, num apertado abraço e deu-lhe um beijo empinado. São muito parecidos: poucas palavras e muita acção! Esta relação é o exorcismo do amor. Há momentos de suprema excitação, até de charme, que os leva à consumação do acto como quem bebe uma golada de Canada-dry. É doce, mas fica a acidez a coçar a língua. O Sousa já lhe percebeu o sinal: quando aparece perfumada, é a hora do chamamento à generosidade dos corpos em tempo de guerra. O encontro sexual até parece a negação do amor: é um acto de afectos violentos e de lágrimas de gozo bebido com emoção; um disparate em termos de convicções. Ela vai-o puxando para a marginal, gosta pouco de ser vista acompanhada, por causa das piadas dos alunos do externato. Ele não parece muito interessado em contemplar as águas da baía. Mas ela insiste... e passam algum tempo a cavaquear e a olhar a imensidão do mar.
Ele tem outros objectivos e tenta convencê-la para um passeio até ao Miramar! Ela recusa; ele mede forças, mas desiste dos intentos. Os próximos dias serão mais propícios para acertar as contas que só a natureza humana sabe fazer. Ambos sabem que não serão um do outro eternamente, e isso causa algum desconforto. Vivem próximos no presente, mas distantes no futuro. É uma mistura de desejo e de estupidez que às vezes os faz sofrer! A Ondina é daquelas mulheres misteriosas capazes de deixar qualquer homem à deriva. Escreve frases elogiosas e o Sousa responde-lhe da mesma maneira, como se vivessem a milhares de quilómetros de distância. De tempos a tempos, entrega ao Botelho uma carta a repudiar tudo que ele lhe havia dito sobre a sua imagem de mulher bela e misteriosa. É uma espécie de contradição da sua condição de mulher. Mas escreve muito bem e defende o seu território até ao momento do colapso dos sentidos.
O Sousa parece ter entendido o seu dilema mais profundo: a Ondina vive num mundo distante, algures entre a África e a Ásia, e não assume compromissos definitivos. Detesta a submissão das mulheres, mas sente-se desprotegida. Assim, entre a vida da cidade e a morte nas matas dos Dembos, o Sousa preenche algum espaço da Ondina, o que também é viver.
Os dois dão uma volta pelas ruas da baixa e vão até à Mutamba. Ela embarca no machimbombo com destino à Vila Clotilde; o Sousa segue para a pastelaria Suissa, onde pode estender os olhos nos corpos das gajas vistosas que por lá param a convidar o povo para o amor brejeiro. Esta forma de viver o amor pode ser uma burrice, mas o medo de ficar dilacerado pelas minas espalhadas nas picadas do Norte é um martírio que destrói qualquer projecto mais amável entre dois seres inconstantes. E o Sousa tem bem a noção desse problema.
Para afastar o lado cruel da vida entre o sofrimento nas matas e nas picadas, onde a morte espreita a cada momento, e o deleite que desliza nos seios das gazelas que alimentam a vida e corrompem as emoções, o Sousa aproveita os dias de paz que o confortam e animam para continuar a viver. E vai ao encontro da Beatriz, convidando-a para uma sessão de fados. Depois dos momentos nostálgicos no “Retiro da Saudade”, vieram os arrufos da paixão que os arrebatou em tempos passados... saciando os corpos ardentes num êxtase que se estendeu pela noite dentro!
