Espaço Etéreo


 

PERCEBEMOS OS SINAIS, Senhor Ministro do Ultramar!

 

       Nem todos aplaudem a ideia de falar com o Ministro do Ultramar. O Orlando é o mais renitente, embora o Fadista também não esteja muito convencido; ao contrário, o Sousa acha uma ideia estupenda. O Nobre e o Fontes também apoiam as ideias do “grupo de contacto”. Para salvaguardar a integridade dos elementos do grupo, apenas três deverão fazer parte da delicada missão.

       Através da funcionária do CITA (Centro de Informação e Turismo de Angola), que o Sousa conheceu quando andava com o Perry a angariar livros para a biblioteca, as coisas estão a ser tratadas com o director do CITA.

       No local e hora combinados, encontram-se os elementos em condições de avançar. O Ministro parte daqui a três dias e não há tempo a perder. A funcionária deu instruções para a malta comparecer às seis da tarde de amanhã no Palácio do Governador.

 

 

              

       O Fontes lembra que seria boa ideia falar com a enfermeira Ivone, que anda na comitiva do Ministro; mas o Fadista acha que isso não ajuda nada. A redacção do documento a entregar está escrita à máquina, com duas versões da proposta: uma dando conta dos contactos encetados com negros “dirigentes” políticos instalados em Luanda; outra, mais acutilante, exige medidas urgentes para acabar com a guerra, que passam pelo reconhecimento da autonomia administrativa e económica num período transitório de cinco anos, até uma solução mais aprofundada nos ensinamentos colhidos nessa fase do processo.

       No dia marcado às seis da tarde, confiantes e serenos, apresentam-se os três pára-quedistas destacados para a reunião com o senhor Ministro do Ultramar. Sem mais explicações, o funcionário que atendeu trouxe o recado:

       – Caros amigos, o senhor Ministro não está cá, e não os poderá atender porque parte amanhã para Lisboa.

       A reunião falhou sem sabermos porquê.

       – Anda um gajo a expor o coiro para tentar evitar um desastre ainda maior do que em Março e ninguém liga à tropa. Agora a malta está referenciada e pode haver merda – desabafou o Valentim.

       Mas a desolação atingiu também o Sousa, que levava dez quadras que compôs com tanto esmero para entregar ao Ministro, e nada. Foi à redacção da revista «NOTÍCIA!» pedir para publicarem. O redactor senhor Albuquerque deu a má notícia: “Só passaram quatro na censura e não vamos publicar nada”. Apetece refilar, mas é melhor ir ao Dundo falar com o soba Sakamanda para saber como é que se consegue ter tanta expressão na imprensa de Angola!

 

 

                      

                        

 

 

       VERSOS COM HISTÓRIA

 

Hoje, chegou até nós a nova esperança;
Por sinal, um visitante da nova geração!
Crente na paz que o tempo alcança...
Merece a mais sincera saudação.

 

São tempos graves da nossa história,
Que atestam o profundo sabor da razão;
Em Angola, há lutas de morte pela vitória,
A Vossa visita mais acalenta a devoção.

 

E não esqueça tantos jovens soldados
Aqui desterrados nas florestas bravias;
Têm uma existência feita de bocados
Para que os pássaros vivam mordomias.

 

Se o Governador tem projectos e ideais,
Será razoável que se limem as arestas;
Porque os mortos não podem lutar mais
E os cobardes espreitam pelas frestas.

 

               Luanda,  Setembro de 1961

 

 

                                                

 

 

               

 

 

 


 

 

              ASSIM NÃO VAMOS LÁ MEUS SENHORES...

 

       Nas proximidades do Aeroporto, dentro da casa do compadre do Orlando, estão reunidos os elementos do “grupo de contacto” a debater os problemas que mais preocupam os militares; merecendo especial realce o comportamento da imprensa e das autoridades que tentam esconder o desequilíbrio que se vem notando em termos de armamento a favor da guerrilha. Em pouco mais de meia dúzia de meses, sente-se uma diferença abismal de métodos e organização dos ataques, condicente com os grandes apoios internacionais que recebem, tanto em armas como em instrutores e dinheiro, como tem sido noticiado na imprensa estrangeira.  

       Só olhando para o panorama internacional e para os resultados dos últimos dois meses é que se percebe que a guerra não será solução para a estabilidade. A malta tem-se esforçado e o desgaste não tem sido compensado com acções políticas. A primeira visita do Ministro Adriano Moreira serviu apenas para dar umas palmadinhas nas costas dos apaniguados do regime, para promover alguns camaleões que andam por aí a enganar toda a gente, fazendo acordos com empresas estrangeiras. Defender os direitos dos portugueses e angolanos nada. E que mais pode fazer uma administração tacanha, comprometida com um contingente de analfabetos e com um bando de compadres feitos à medida dos interesses das empresas estrangeiras? Nunca pensaram que as mudanças na política africana também chegariam a Portugal. Esqueceram-se do avanço da informação global, desprezando a cultura da sã convivência e da cidadania.

       Para juntar ao resumo de conclusões, que os sete elementos do grupo de reflexão apontaram, o redactor deixou outras questões com interesse: “Fico espantado com o «faz de conta» dos profissionais da informação de Angola, quanto se confrontam com as notícias que caem nas redacções dos jornais, através do telex das Agências internacionais. Esse ocultar da verdade sobre os apoios que países ditos amigos - e com empresas a explorar as riquezas de Angola - dão aos bandidos que enfrentamos nas matas. Há silêncios da imprensa que incomodam qualquer interveniente nesta guerra. Os homens inteligentes e convictos na divulgação da verdade, arranjam sempre maneira de fintar os membros da comissão de censura, por muito atentos que eles estejam no corte ao que não convém divulgar!”

       Reconquistados os santuários da UPA em Quipedro, serra da Canda, Sacandica e Nambuangongo, a euforia dos acontecimentos contagiou a mente dos governantes com um estranho optimismo. Mas esses mesmos jornalistas deram grande destaque às palavras do Senhor Governador-Geral de Angola, que declarou solenemente:

     “As operações das nossas Forças Armadas terminaram e deram lugar à actividade de policiamento militar. Não há guerra.”

       Então, já não há guerra? Porque desapareceu o avião com três militares, incluindo o tenente pára-quedista Labscat, em missão de ataque ao solo? Que justificações para os militares continuarem a enfrentar ataques dos terroristas, cada vez mais organizados e com armas mais modernas do que as do Exército Português? E que justificação para os mortos que vão tombando perfurados pelas balas mortíferas disparadas pelos bandidos? 

 

Foto de João Petrucci  

 


 

 

 

PLANOS INQUIETANTES

 

     Consta que vão ser reduzidas as colunas de reabastecimento aos acampamentos do norte e que vão regressar ao sul os destacamentos dos Voluntários. Numa altura em que se está a criar mais confiança e segurança para o regresso das populações e dos administradores de posto às zonas de conflito, nem ao diabo lembrariam tais planos. Entretanto as tropas continuam nas suas missões de patrulhamento dos itinerários e batidas às matas que possam abrigar os terroristas.    

     A selva dormia as horas da noite que uma aragem deixava deslizar até de madrugada, quando, finalmente, os pássaros tocaram a alvorada. Os olhos ainda turvos, cravaram-se no morro que o dia oferecia numa pesquisa aos abrigos dos bandidos. Os últimos sinais não deixaram ninguém tranquilo! Só nos meses de Fevereiro a Abril, seis emboscadas nas picadas para a Damba, três minas que rebentaram com viaturas nas estradas de Quitexe para Quissenzele e para o Dange, oito ataques de morteiro a acampamentos do exército nas povoações de Muxuluando, Dimuca e Songo e emboscadas do Songo para o Bembe deixaram um rasto de destruição e um clima de medo!

     Os mortos e os feridos resultantes deste recrudescer de ataques marcam uma inquietante tragédia na luta contra o terrorismo do norte de Angola. E nem é bom pensar em deixar estes bandidos sem resposta até ao mês de Agosto.

 

 

 

 

 

 

 

PEDRA VERDE –  Reconquistas

 

     A primeira incursão para tomada da “Pedra Verde” foi protagonizada por tropas do Exército, tendo como pontas de lança os Caçadores Especiais. Por ser um morro de difícil acesso, bombardeado severamente e reocupado pelo Exército. Quando os estrategas militares entenderam que deixou de ter interesse como ponto de quadrícula, logo os bandoleiros da UPA voltaram a tomar conta do local. Pois, as diversas minas e grutas servem para se protegeram das bombas da Força Aérea, e dali atacam as tropas portugueses que se deslocam nas picadas próximas. Passar pela estrada Piri é um perigo constante para os camionistas e para a tropa.

     Em 1962, tropas do Exército, em colaboração com os pára-quedistas e aviões PV2, voltaram a desalojar os bandidos. Por ser um ponto que domina as estradas do Úcua para o Piri, Pango Aluquem, Bula e Quibaxe, as tropas portuguesas tentam manter o controlo do morro.

     Após a última operação de ataque à Pedra Verde, quando toda a tropa seguia para os respectivos acampamentos, foi-nos determinado fazer o percurso a corta-mato, seguindo pelo lado do Dange até Quibaxe. Para os estrategas, que vêm o terreno de avião, a coisa parece simples de marcar os itinerários! Tivemos de procurar os trilhos menos “usados”, porque as surpresas não agradam e nos três dias anteriores os corpos sofreram um desgaste notável. A progressão no terreno não foi fácil, mas em compensação, encontrámos diversos esconderijos que destruímos. E aproveitámos uma fazenda abandonada para a pernoita atribulada.

     Muito perto do vale do Dange, antes de seguirmos para Quibaxe, descobrimos grande quantidade de árvores com mamões, e boa água. Enquanto uns aproveitaram para encherem os cantis e repousar, outros trataram do “reabastecimento”, colhendo mamões (papaias). Aquilo é que foi aproveitar as benesses da mãe natureza!

     Ninguém contou com a surpresa maior – os bandoleiros ficaram zangados por não terem sido convidados e zás: lançam um ataque com armas finas (automáticas), apanhando dois ou três desprevenidos a colher os frutos. Entre eles, estava o Parreira a colher mamões e a lançá-los para os companheiros que os juntavam para a equipa. Um tiro certeiro abanou-lhe o capacete!... quando o projéctil entrou por detrás da aba, circulou entre o couro cabeludo e o ferro do capacete e, ao sair pela frente, causou um ferimento ligeiro por cima do sobrolho. O sangue escorria pela face e orelha esquerda, quando o Parreira se deu conta do ocorrido e, perante os olhares dos dois soldados que esperavam receber mais frutos daquela colheita, o Parreira esmoreceu... Ficou mais combalido com a queda abaixo do mamoeiro do que com o tiro! Meio atordoado, levantou-se e desmaiou de seguida, por se ter dado conta do sangue a escorrer-lhe sobre os olhos.

     Mas aquele ligeiro esmorecimento logo foi compensado com um abraço do comandante da sua secção, que o animou ao colocar um penso em cima da zona ferida, estancando-a. Foi limpando os sinais do sangue derramado, enquanto o pessoal presente preparava os equipamentos para a deslocação até ao aquartelamento de Quibaxe. Não tardou a aparecer a DO27 para transportar o Parreira ao hospital de Luanda. Logo alguém disse: «Querias mamões (papaias)... mas também levas chumbo!

 

 

 

    

     Bem dizem os “Voluntários” que:

     «A caminho de QUITEXE  - Quem tem sorte foge à morte.»

Naquela região, a simples função de encher água nos cantis obriga a manter vigilância apertada, porque os bandoleiros aparecem de qualquer lado. Eles são tantos que um simples descuido pode ser fatal.

     Tal como nos primeiros meses da guerra, esta região dos Dembos tem sido complicada para muitas das colunas que fazem o percurso da estrada do Úcua para Quibaxe e mais para Norte: Negage, Carmona, Quitexe e outras localidades do café.

     Os Voluntários da “Vanguarda Salazar” já têm uma dramática experiência das horas de repouso, e das surpresas que assustam nas imediações da estrada do Piri. Na estrada de Quitexe, foram surpreendidos por um grupo de mais de duzentos bandoleiros que, em menos de dez minutos, ceifaram a vida a sete voluntários. Embora a reacção pronta dizimasse parte dos atacantes, a marca da morte ficou bem vincada nos olhos dos voluntários.

 

 

 

 

      NEBLINA VERDE

 

Há sempre uma estranha emoção

quando entramos em nova missão!

 

Ao longe, a Pedra Verde atemoriza;

seus cumes quase tocam as estrelas

e a primeira tentativa de incursão

deixa em nós uma ideia indecisa:

porque se amachucam as flores belas

que a persistente neblina em união

alimenta na verdejante encosta?

 

A distância para a conquista da colina

é uma paixão determinada e paciente;

os aviões bombardeiam sem resposta,

as bombas paridas do seu bojo

rasgam as rochas... esconderijos

e o fogo alastra no capim rasteiro

- nos gritos longínquos ouve-se a morte.

 

Mordemos os lábios numa inquietação

  enquanto se aponta o morteiro

  no milimétrico tiro de sorte

para ajudar na diabólica devastação.

Rasgamos o caminho até ao covil,

contra o sol que se inclina embriagado,

e a vontade de silenciar o inimigo

faz-nos avançar no seu encalço

  mesmo correndo o grave perigo

  de sermos apanhados no percalço

das fatídicas emboscadas dos estupores.

 

A noite aproxima-se negra e sombria

  e mais se aguçam nossas dores...

alguns já dormem com a boca fria

e toda a caravana esmorece a praxe.

 

O arrojo alarga a perigosa viela

para os movimentos do Úcua-Quibaxe;

é como se abrisse mais uma janela

para passarem cargas de esperança,

nas viaturas da terrível caminhada,

em peregrina missão de bonança

até aos confins da encruzilhada.

 

                        Quibaxe, Maio de 1962

 

 

 

              


 

 

 

DISCUSSÃO OU REBELIÃO?

 

       A convocatória chegou a vários dos elementos que mais se destacaram na reunião geral da Ilha. Pelas dez da noite, no alpendre duma casa do bairro da Vila Clotilde, discutiam-se diversos problemas relativos ao andamento das conversações com entidades civis. Entre os presentes, um sargento pára-quedista que cumpriu serviço militar na Legião estrangeira antes de ingressar nas Tropas Pára-quedistas, apresentou um rol de informações importantes para a organização da contestação em curso; especialmente, sobre as tentativas da Pide em controlar estas iniciativas. Para além dos elementos do “grupo de contacto”, apresentaram-se dois elementos do Exército, outros dois da Força Aérea, um oficial pára-quedista e um funcionário da administração de Angola.

       Poucos usaram da palavra, parecendo mais interessados em ouvir!. Talvez o melindre das questões abordadas cause algumas reservas: contactos com individualidades ligadas aos movimentos de libertação, actualmente, professores e funcionários públicos; resultado das investigações sobre os indícios de conluio entre as administrações de empresas estrangeiras com delegações em Angola e os bandidos da UPA, a quem fornecem apoio; indícios de corrupção continuada nos contratos de concessão da exploração de diamantes, minérios de manganês e do ferra em Cassinga e petróleo de Angola, concedidos a empresas sedeadas em países abertamente hostis a Portugal; forma de reclamar os dinheiros referentes às “ajudas de custo” que o Estado ainda não pagou.

       Tendo, ainda, como preocupação o crescente isolamento de Portugal na cena internacional, em redor da mesa estavam alguns cépticos quanto aos objectivos da reunião; mas isso não impediu de serem clarificadas as acções a desenvolver imediatamente: recolher as assinaturas do pessoal das companhias que se sintam lesados pelos atrasos dos pagamentos discutidos na Ilha; elaborar um documento de protesto dirigido aos comandos do batalhão e da Região Aérea; contactar mais pessoal do Exército e da Força Aérea para um plano mais avançado. No fim da reunião havia uma leve sensação de desconforto no rosto de alguns elementos do grupo, mesmo nos mais convictos.

       Nos dias imediatos, antes que o pessoal saísse para novas missões, as folhas de trinta e cinco linhas foram espalhadas pelas companhias, recolhendo centenas de assinaturas que ficaram ao cuidado dos elementos do “grupo de contacto”.

       Estava um domingo de canícula, com grande parte do pessoal a descansar no aquartelamento, pensando na previsível saída para o Norte. Aí pelo meio da manhã, o Sousa fazia exercício físico no “aparelho de barras”, sendo confrontado com a presença agressiva de três elementos do “grupo de contacto”. Encostando-lhe uma pistola às costas, exigiram que pegasse a chave da secretaria e se dirigisse para lá rapidamente. O Sousa, na sua calma, ainda esboçou um sorriso, dizendo para arrumarem a arma; mas logo percebeu que não era brincadeira aquela ameaça com pistola!

       – Eh meus amigos! O que tendes escrito é muito grave, pode ser considerado um levantamento militar – disse o Sousa, já sentado frente à máquina de escrever.

       – Só tens de escrever rápido e bem, porque nós sabemos o que queremos – retorquiu o cabo, que mantinha a pistola ameaçando as costas do dactilógrafo.

       A pressão da pistola arrefeceu-lhe a espinha e o Sousa, sem hipótese de mudar nada, passou o documento à máquina. Tratava-se de um texto com algumas exigências de abertura política, com ameaças graves à unidade das tropas! Percebia-se a profundidade da intentona em que estariam envolvidas importantes figuras militares, políticas e intelectuais

      À noite, para reabilitar o ânimo, fui ao Aviz ver o espectáculo da “Caravana da Saudade” com bons artistas como o Rui de Mascarenhas, a Simone de Oliveira e a Maria de Lurdes Resende, nas canções; Deolinda Rodrigues no fado e Luís Horta nas gargalhadas.  

                                                     

 


 

 

 

 

Á PROCURA DA CORRENTE...

 

    Discretamente e sem alaridos, como convém, encontraram-se na Maianga, em casa dos amigos do Orlando. Mais de meia dúzia de pessoas, com mais ou menos convicções de que alguma coisa tem de mudar em favor dos intervenientes na guerra, puseram à consideração do colectivo o melhor das suas ideias. Entre oficiais, sargentos e praças, além de pára-quedistas, estiveram presentes dois representantes do Exército e um da Força Aérea. Salienta-se a intervenção do cabo Alves:

     – Como facilmente se pode constatar, as iniciativas da guerra estão do lado inimigo. As nossas tropas perderam poder de fogo, enquanto a guerrilha se organizou e adquiriu melhores armas, que são um perigo permanente para as colunas que se deslocam nas picadas do Norte. As palavras do Governador-geral, declarando que “as operações das nossas Forças Armadas terminaram e deram lugar à actividade de policiamento militar” e que “não há guerra” merecem a reprovação de todos aqueles que sofrem os efeitos da guerra, além de insultarem a memória dos que vão caindo trespassados pelas balas ou pelos estilhaços dos rebentamentos.

Era visível o nervosismo do Valentim quando olhava para os presentes, parecendo perceber o que ia na mente de cada um. Com um gesto largo, o Alves limpou o suor que escorria pela testa e incitou o Valentim a falar:

     – Oh pá, parece que está tudo maluco! A Índia fez aquilo que há anos vinha avisando: desde os ataques a Pangim e Dadrá, em 1957, era de esperar a invasão. Mas os governantes, enfiados no Terreiro do Paço, deixaram os militares à mercê daquele poderoso exército. Numa situação de hostilidade, o navio Afonso de Albuquerque foi afundado, naturalmente. Agora choram pelos desgraçados que por lá morreram! O que dizer da campanha ridícula para comprar outro navio de guerra? Será que alguém tem a noção do custo de tal peça? E dos países que desprezaram os apelos de Portugal, mas atacam a política ultramarina portuguesa?

     Ninguém quer tomar notas, para evitar a difusão das ideias que podem comprometer o fundamental destes encontros. E o Orlando também apresentou os seus pontos de vista:

     – Com mais de dez meses de guerra, o pessoal começa a esquivar-se às missões, e com razão. Sabemos que muitos camionistas e colonos se esforçam para ajudar a tropa. Vão nas colunas e sofrem com as emboscadas, tal como os militares; mas há por aí muito sacana que só quer ver a malta enfiada nas matas ou no isolamento dos acantonamentos cercados de arame farpado. Se andamos pela cidade desprevenidos, estamos sujeitos ao insulto ou ao desprezo; das janelas de algumas casas, os nojentos também nos tentam cuspir. Por isso, temos de tomar medidas e tentar dar um novo rumo aos conflitos. Sei que o Alves ainda não disse tudo o que sabe…

     – Bem. Merecem destaque as conversas que já tivemos com algumas entidades locais com interesse em ajudar numa solução política negociada. Entre essas pessoas estão advogados, professores, empresários e funcionários públicos que, embora mantenham o anonimato, são conhecidos. Desde que o Governador general Deslandes deu a entender que o próprio Ministro do Ultramar não põe de parte uma solução política, os vários interessados concordam com um sistema de autonomia administrativa e económica para os próximos cinco anos.   

     É chato, mas o pessoal já não tem transportes e tem de seguir a pé para os respectivos alojamentos. Só o Faísca e o Sousa ficaram no Hangar Velho. Os que têm quarto alugado na cidade disponibilizam dormida aos que estão aquartelados mais longe. No ar, fica a certeza do assumir de responsabilidades muito concretas em acções muito sérias e perigosas.

 

 

 


 

 

OS APONTAMENTOS DO FERRAZ:

 

       Janeiro de 1962

      Um avião norte-americano, ao serviço das tropas da ONU no Congo, sobrevoou território de Angola, aterrando de emergência em Luanda. Pela tarde de Domingo, além de dezoito passageiros de diversas nacionalidades, sendo apenas quatro civis, traziam muitas pistolas-metralhadoras. Foram conduzidos para o aquartelamento dos pára-quedistas em Belo Horizonte, onde ficaram detidos até serem esclarecidas as circunstâncias de tão grande desvio de rota! Causou reboliço no meio das pessoas que estavam no Aeroporto, devido ao facto de parte dos militares serem indianos, quando sabemos que a União Indiana ocupou Goa e outros territórios administrados por Portugal há cerca de um mês atrás.

 

 

 

 

 

 

    DEIXEM CANTAR O HINO

 

Abrandem as secretas amarras

deixem voar o meu pensamento,

dançar no batuque da liberdade

gozar a mística dos corpos nus

na transparência da alma acrisolada;

 

deixem-me sair da clandestinidade

onde perdi a vontade que dispus

em desespero da razão mistificada,

mesmo uma miragem, é a verdade

que vibra dentro de mim...

 

Abrandem esta violência, ruim

para os povos em busca do oásis

de qualquer movimento divino;

    eu vou cantar um hino...

para comemorar esse momento

    eu quero ser um menino

para voar ao sabor do vento.

 

Deixem-me seguir nessa dança

    brincar com qualquer criança

    viver a desejada solicitação

antes de me atirarem p’ro caixão.

 

 

 

 


 

 

Falha a Rebelião... VÃO PARA A PRISÃO!

 

       Apesar dos mais convictos na rebelião armada terem andado por diversas unidades do Exército, nomeadamente Cacuaco, Grafanil e Luanda, a quatro dias da hora H, as tropas a deslocar do Cacuaco para posições estratégicas junto à fábrica da Cuca perderam o contacto por ter desertado um oficial; os do Grafinil não se entenderam na organização das patrulhas; os do Regimento de Artilharia de Luanda esqueceram-se da missão, preferindo beber umas cervejas no bar. Os pára-quedistas envolvidos, que tomariam posições no comando da Região Aérea e no Aeroporto com a Base Aérea 9, passariam despercebidos por fazerem guarda aos respectivos locais, não faltaram ao compromisso!.

       Com a segunda-feira muito perto, os promotores da rebelião sentiram a frieza da realidade do movimento que julgaram imparável! E prepararam-se para o pior – enfrentar a justiça do regime. Até os dois oficiais pára-quedistas, que aparentavam maturação nos enredos do plano “deram de frosques” de mansinho. Aquilo foi só um exercício de abutres!

       No quarto que ocupa junto ao Bowlling, encontrei o Valentim com o desânimo estampado na cara. De facto, para um homem empenhado até aos limites das suas capacidades numa causa tão importante para o futuro da Nação, ver alguns pretensos amigos em debandada e outros considerados firmes a desertar – comportamentos impossíveis de imaginar há meses atrás – era a devassidão dos princípios por que sempre lutou! Eu já lhe tinha lembrado que os oficiais que estavam dentro do esquema não eram seguros, porque sempre se acautelaram para poderem saltar fora quando alguma coisa corresse mal. Lamentavelmente, a firmeza de convicções só é apanágio dos homens que não aceitam a servidão opressiva. E são poucos os que abdicam dos seus egoísmos em favor das nobres causas humanistas.

       Num domingo quente, pelas onze da manhã, quando o pessoal se banhava nas praias da ilha, já a pensar nas três semanas previstas nas perigosas matas do Norte, sentiu-se um movimento insólito na estrada da Ilha. Coisa estranha, andarem por ali jipes e jipões do Exército, com oficiais e sargentos! Momentos depois, já em direcção à cidade, pararam frente à praia. Os graduados, fardados e armados de pistolas nos cinturões, aproximaram-se do pessoal estendido na areia, escolhendo os “alvos” previamente definidos, dando ordens para os acompanharem para as viaturas. Perante o espanto dos restantes, cerca de doze pára-quedistas em calções de banho e com as roupas na mão seguiram acompanhados... para a Casa da Reclusão Militar de Luanda.

       Com o regresso aos aquartelamentos, na hora de almoço ficou a saber-se que mais alguns iriam ser detidos, por intervenção no processo da falhada “revolta”. Gerou-se um clima de inquietação, mas também de repúdio pela detenção dos companheiros, que deram tanto do seu esforço para a segurança das populações de Angola. Muitos sentiram desvanecer-se a esperança numa solução política e pacífica da guerra. E parece não haver dúvidas de que, se os homens da PIDE e outros “bufos” pretenderem a retaliação, a breve prazo a guerra acabará por se desencadear dentro de Luanda.

 

 

 


 

 

APONTAMENTOS DO FERRAZ:

 

Abril de 1962

 

– Embaixador Teotónio Pereira, declarou que:

Portugal entende que deve permanecer em África porque partir equivaleria a abandonar ao caos as sociedades multirraciais que formou no decurso dos séculos.”

 

Conforme notícia divulgada pela France Press, os conselheiros americanos Charles Dorkins e John Markhan estiveram a ajudar na organização de outros campos de treino da UPA, mais perto da fronteira com Angola. Com o apoio de empresas americanas, um novo grupo de instrutores acabou o treino na Argélia e no Egipto, regressando às bases do Congo. O governo americano autorizou a CIA a pagar cerca de novecentos dólares mensais ao chefe da UPA.

 

 


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