OPERAÇÃO CANDA – Norte de Angola, 25-08-61

A manhã acordou cedo, com o céu salpicado de pequenos cúmulos de nuvens, e os pára-quedistas prepararam o equipamento para embarcar com destino às matas da serra da Canda, considerado um dos santuários dos bandoleiros da UPA. Nas pistas de Luanda perfilavam-se algumas dezenas de aviões de apoio à segunda grande operação militar no Norte de Angola. Para além dos aviões de combate ao solo, tinham relevância os aviões Nordatlas e Skymaster, à espera que os homens da boina verde se amanhassem com um capacete de ferro na cabeça, uma mochila carregada com rações para três dias, manta individual e capa de tenda com escoras e pá articulada, a arma dentro de um saco de protecção ao choque no solo, porta-granadas com algumas granadas de mão, cantil com um litro de água e doze carregadores com balas de 7,62 mm. Aparentemente, toda a gente estava tranquila, como se fosse para um salto de treino nos terrenos do campo de golfe junto do aeroporto de Luanda... ou no campo do Arrepiado, nas margens do rio Tejo... ou, ainda, durante a instrução de combate, nas bouças do Gavião e Asseiceira. Para disfarçar o nervosismo, contavam-se anedotas; e foi o cabo Frielas o mais aplaudido:
“A mulher do Gaspar estava farta das chegadas tardias e resolveu pregar-lhe uma partida. Em determinada noite, quando ele subia as escadas devagarinho e em surdina, foi surpreendido pela voz da esposa que lhe gritou do quarto de dormir:
- És tu ou é o gato?
O Gaspar, pensando salvar-se do raspanete, imitou logo o bicho gato:
- Miaauuu, miaaauuuuu!
Ouviu-se a voz da mulher:
- Então! És mesmo tu, seu grande patife. Desde quando é que temos gato?”
Os raios de sol perfuravam as nuvens e já aqueciam os corpos, quando um barulho ensurdecedor de motores deu o sinal para o arranque de tão importante missão. Na frente, arrancou o grupo incumbido de preparar a balizagem, tendo como chefe o capitão Campos Costa. Passava das nove horas da manhã, os aviões começaram a acelerar os motores e toda a carlinga estremecia. Os experimentados pilotos alinharam-nos na pista donde levantaram um a um, de focinho virado aos céus, tomando o rumo do norte, passando por cima do Cacuaco até se inclinarem para o azimute de 50º, já a uma altura considerável. Alguns pára-quedistas sentiram um aperto no estômago, ao olharem pelos postigos para as matas verdejantes por onde se escondiam os bandoleiros. As picadas vistas de cima, serpenteando por entre morros e vales, eram muito mais fascinantes do que percorridas a pé. Os olhares clareavam à medida que os aviões passavam para cima das nuvens e estabilizavam.
Só ao comandante da 2ª companhia e, provavelmente, ao comandante do batalhão terão sido fornecidas informações concretas sobre as missões operacionais; todos os outros pára-quedistas voavam para o desconhecido, esperando que a aterragem fosse suave... e, se possível, no meio de muitas mulheres disponíveis para ajudar a montar a tenda!

Atingida a altitude de voo convencionada para aproximação à zona de saltos, logo o largador se levantou olhando o grupo de homens que estavam na sua frente. Não estranhou ver os sorrisos amarelos estampados no rosto daqueles que não escondiam as dificuldades em vencer o medo, que sempre aparece nos momentos que antecedem a saída da porta do avião para o vazio do espaço. Não admira. Quase todos eram estreantes no salto operacional sobre zona inimiga! A audácia e a coragem demonstradas em treino não esmorecem, mesmo num empreendimento de respeito.
As informações colhidas em diversas origens preocupavam os mais esclarecidos: bastante movimento de pessoas nos trilhos; vestígios de palhotas dentro das matas, vistas pelos pilotos dos aviões em voo baixo; testemunho de bakongos aprisionados junto à fronteira com o ex-Congo Belga, quando observavam o movimento da tropa; frequentes ataques às colunas em deslocação nas picadas de Bembe ou Bessa Monteiro para Norte. Isto dava consistência à pretensão dos bandidos em dominarem a região por onde passam os carregadores com o reabastecimento de armas e equipamentos vindos da fronteira do ex-Congo Belga, para daí lançarem ataques mais para sul.
Passada a vertical da povoação do Bembe, o largador deu indicações aos repórteres para se posicionarem na retaguarda do avião, deixando caminho livre para o movimento de saída dos pára-quedistas. Frente aos seus homens e num gesto enérgico, o sargento deu sinal de levantar, colocar capacetes na cabeça e verificar equipamentos. Logo um sorriso mais aberto desanuviou a pressão do corpo tenso. Mal acendeu a luz vermelha, o sargento mandou enganchar as tiras de abertura dos pára-quedas... e toda a gente se movimentou num automatismo descontraído! Em seguida, foi feita a verificação da posição dos sacos e mochilas que os pára-quedistas levavam presas na frente das pernas. O avião cortava a neblina que ainda persistia em cobrir a serra e já a luz verde dava o sinal de que não haveria recuos nem hesitações na saída... e o sargento ordenou:
- Em posição! Jáaa...
Um a um, os pára-quedistas saltaram para o vácuo das alturas, numa saída compassada, sob o controlo do sargento que, em três passagens sobre a zona sinalizada, se livrou de mais de duas dezenas de homens que ficaram suspensos nas calotes de nylon, entregues à sua sorte até chegarem ao chão... se não ficassem em cima duma árvore! Naquela vez tiveram o privilégio de serem vistos pelos bandidos, se calhar, aturdidos com tão inesperado espectáculo! Sem possibilidades de usar as armas enquanto desciam, os pára-quedistas só esperavam que os terroristas estivessem distraídos na construção das novas palhotas!

Logo que os primeiros tocaram terra firme, sacaram a arma de dentro do saco protector e tomaram posição para eventuais ataques, enquanto se aproximavam do ponto de reunião do grupo. E poucos deram conta duma grave anomalia com a tira de abertura do pára-quedas do Luís Filipe Pimentel... que se esforçava tenazmente por se livrar da perigosa situação. Ficou preso ao avião que tomava altura para melhorar as condições de recurso. E o sargento, deitado na saída da porta do avião, através de sinais convencionais, dava instruções ao Pimentel para segurar bem o punho do pára-quedas de reserva, que acidentalmente poderia abrir-se e provocar uma tragédia... – a queda do avião. Mas o pára-quedista ampliava a sua força e lutava contra uma morte inglória, caso não se livrasse da difícil situação. Enquanto o sargento insistia em acalmar o Pimentel, o repórter fotográfico Joaquim Cabral foi colhendo imagens da insólita situação. A mais de mil metros de altura, o avião continuava a voar em círculo, sobre a zona de saltos, e o Luís Pimentel rodopiava por efeito das tiras torcidas. Em terra, os companheiros observavam o infortunado amigo, sem nada poderem fazer para o ajudar. A tira extractora de outro pára-quedas continuava a não deixar espaço para encher de vento a calote de nylon... e o Pimentel ali estava, sem um canivete com que pudesse cortar a merda da tira entrançada.

O capitão Almendra, temendo a sorte do Pimentel, já se inquietava, porque minutos antes, ao sair de outro avião menos adequado para lançamento de pára-quedistas, o cabo Cunha havia sucumbido à queda-livre, sem que o pára-quedas se abrisse. Ao que parece, devido ao corte da tira extractora na longarina da porta do avião!
Num esforço desmedido, o largador puxou as tiras, que prendiam o Pimentel, até próximo da porta do avião... largando-as de repente! Mas só na segunda tentativa, o nylon se enfunou e o Pimentel, exausto e com um sangue frio admirável, sentiu-se solto, em queda para o abismo... que a grande calote amainou numa aterragem suave. Lá em baixo esperava-o um pântano com bichos maus! E a espingarda... caiu durante as voltas que o avião deu sobre a zona. Por momentos, sentiu-se perdido... sem arma, longe dos companheiros, sem um arranhão, mas muito próximo dos bandidos da sanzala do Pingo, só pensou em escapulir-se. Sem sequer se lembrar da hora de almoço, foi-se empoleirar em cima de uma árvore, confiante nas granadas de mão que trazia no saco.
Todos respiraram de alívio ao ver o Pimentel descer e ser engolido pelo alto capim, ali mesmo ao lado do pântano! Nas alturas, um avião de reconhecimento DO27 sobrevoava a zona... pouco depois aproximou-se um helicóptero, vindo da pista do Toto, que aterrou junto ao pântano para recolher o azarado com sorte, porque acabou por encontrar a arma!
O Pimentel pediu licença e entrou... para uns dias de descanso.
O dispositivo estava em marcha para o desempenho das missões planeadas com a nobre operação da tomada da Serra da Canda, desmantelamento dos acampamentos da UPA e redução das suas actividades terroristas sobre as colunas que utilizam as picadas para reabastecimento das tropas e populações a norte. As várias secções de pára-quedistas começaram a espalhar-se pelas povoações mais próximas, vencendo as íngremes escarpas viradas a norte. Um pelotão avançou para a sanzala de Banza-Tadi, onde as galinhas em debandada se cruzavam com a tropa que batia a zona em busca dos bandidos.
O pelotão que entrou na povoação do Pingo só encontrou destruição, fogo e medo: palhotas em chamas, cabras mortas à catanada... e os bandidos bem longe. Deixaram para trás um casal de velhos e um mancebo! Também deixaram uma arma, talvez na precipitação da debandada, temendo o recontro com aqueles homens vindos do céu... grande feitiço, ué!
Enquanto quatro pelotões, com mais de trinta homens cada, batiam as redondezas, vasculhando as matas na esteira dos terroristas, outros pára-quedistas preparavam um acantonamento provisório ao lado das sanzalas de Banza-Tadi, com o material recolhido depois dos saltos operacionais.
As primeiras grandes missões arrancaram para duas zonas distintas, em plena serra da Canda: um grupo embrenhou-se nas matas em direcção às margens dos rios Mbridge, Lefunde e Lueca, a fim de bater toda a zona e desmantelar abrigos dos bandidos da UPA; missão muito complicada com a progressão por trilhos e mato em declives recortados quase a pique. O outro grupo caminhou na direcção de Bazacomo, onde os aviões descobriram indícios de movimentos e prováveis esconderijos dos bandidos do Holden Roberto. Os primeiros prisioneiros ainda estavam incrédulos com o que viram cair dos céus...
- Estes homens têm feitiço grande, mesmo!
Nos dias seguintes, o grupo que ficou a montar o acampamento, desbravou o mato e preparou condições de apoio ao pessoal que dali partiu em missão, batendo o vale da serra até aos rios, desmantelando esconderijos e sanzalas.
Depois da limpeza da zona de Quipedro, da tomada de Nambuangongo, dos bombardeamentos aos morros da Pedra Verde, a serra da Canda era um dos últimos redutos importantes para os bandidos da UPA. Com as forças do exército vindas de Lucunga, Madimba e S. Salvador a escorraçar os terroristas para as matas do rio Mbridge, os pára-quedistas entraram em Zenda e foram aprisionando os bandoleiros que se entregavam, porque os que fugiam levavam fogacho atrás.
Enquanto os componentes do grupo do capitão Hamilton Almendra caminharam pela mata dentro, sem grandes recontros com o inimigo, vendo alguns bandidos em debandada rápida... e a sentirem o calor das balas trespassar-lhes a carne; os do grupo do tenente Joaquim Mensurado fartaram-se de atirar fogacho certeiro, como quem atira às lebres em campo aberto. Isto de andar sempre a corta-mato desgasta e mói o físico, mas só assim se conseguia chegar à toca dos bandidos... e os gajos nunca se ficaram a rir!
Na hora do regresso faziam-se contas à vida... a operação foi perfeita, com resultados bem mais consistentes do que o previsto. E o capitão Almendra bem podia orgulhar-se do pessoal. Não fora a morte do cabo Almeida Cunha e tudo seriam alegrias. Mas a vida dos pára-quedistas está sempre presa por um fio... que pode falhar entre o céu e a terra! E o Pimentel recordava:
- Seria o caraças se eu tivesse tirado a fotografia, com o equipamento, para mandar à namorada... como ele fez! Raios partam as mulheres...
-------------------------oooxooo-------------------------
De S. Salvador a Lufico
O Fonseca aproximou-se da sentinela com a mesma facilidade com que um felino fila a presa que pretende caçar. Oprimiu a respiração, estava a dois passos do sacana. Num salto certeiro, a arma agarrada com as duas mãos, deu com o topo da coronha na nuca do bandido, que caiu como um tordo! Com o punhal, deu o golpe final àquele desgraçado. Os homens da secção seguiram atentamente os seus últimos gestos e avançaram no envolvimento das duas palhotas da entrada do acampamento inimigo. A surpresa foi fatal para os restantes quatro bandidos que tentaram fugir em tronco nu. Não deram sinal de rendição e os homens das secções posicionadas no enfiamento do trilho de acesso, dispararam as balas mortíferas que varreram tudo, com a rapidez de um relâmpago, perfuraram os corpos que foram caindo junto às palhotas.

A densa vegetação que ladeia as palhotas prejudicava a vigilância, e os bandidos das palhotas do fundo fugiram para a mata. A experiência de outras situações semelhantes não aconselhava a perseguição no “escuro”. E os pára-quedistas tomaram precauções... mas o capitão ordenou à secção do sargento Assis:
- Manda três homens vigiar a mata por detrás das palhotas, que nós vamos dar duas rajadas de aviso aos que fugiram, só para saberem que contamos com eles para a festa da noite...
À ordem do comandante, as rajadas cortaram as folhas e assustaram os homens do pelotão do alferes Oliveira que estavam nas palhotas do fundo. O capitão conferenciou com os outros oficiais e comentou:
- Os que fugiram não nos devem inquietar mais; mas vamos andar com redobrada atenção.
Era admirável a paciência daquele pessoal. Setenta homens de mochila às costas, com a fome a roer o estômago, e ninguém aproveitou para tirar uma ração e comer!
Esta é uma guerra donde até os animais fogem... só ficaram as hienas e alguns mabecos para limparem o terreno de carne podre!
Nos locais de perigo eminente, as probabilidades de ataques não deixam espaço para distracções e ninguém adormece; mesmo quando comem as suas rações, continuam vigilantes.

- Os presos só dão chatices. – diz o Serôdio, enquanto abria a lata de atum.
Ainda não esqueceu o dia em que teve à sua guarda um prisioneiro que tentou fugir e o fez andar ligeiro da perna... dando-lhe com o capacete nos olhos para o acalmar!
Se não era o sol escaldante a tolher a vida à malta do capim, eram as trovoadas com chuva de afogar os animais de perna curta. Mesmo assim, a fila de pirilau avançava no lamaçal e as botas afundavam-se nos sulcos escondidos na água lodosa que as enxurradas descarregavam para a picada. E quando os raios de sol começavam a secar os camuflados, saíam névoas de fumaça como se os corpos fossem tochas sem chama. Dois sons estridentes de um apito, saídos do meio da mata, puseram todo pessoal em sobressalto! Logo tomaram posições defensivas e vigiaram as árvores e os pontos mais sensíveis às emboscadas. Os minutos alongaram-se sem que se vislumbrasse qualquer movimento. Esta nova forma de comandar... espantou os homens do capim; perceberam que os bandidos andariam à ordem do apito do chefe, uma novidade. Mas o som infiltrado na mata não abrandou a continuação da missão bem no meio da guerra, nem esmoreceu a vontade de vencer os obstáculos até ao regresso a Luanda.
O grupo rompeu mata dentro, atravessando as linhas de água, simples ribeiras ou riachos. Umas a vau, deixando as botas a espichar, outras por cima dos troncos de árvores arrastados e atravessados nos riachos. Depressa apareceu o capim a ladear a vegetação rasteira e, algumas vezes, com clareiras alongadas. Foi curto o tempo para apreciar essas clareiras... as balas pareciam saraiva a bater nas árvores marginais à picada. Não fora a rapidez com que os homens da frente se abrigaram e o desastre seria bem maior do que na picada de Quicabo para as sete curvas.
De repente, um gemido... e o Carmo contorcia-se com dores – fora atingido por duas balas. Duas secções fizeram o envolvimento pelo flanco mais arborizado, para recuperarem a acção de fogo da malta que ficou à mercê das balas inimigas. Os homens da secção do Abrantes rastejaram até à posição frontal para bater os terroristas. Mas o Vilela ficou ferido com uma bala no braço esquerdo, arrastou-se para um sulco do terreno e continuou a fazer fogo. O Carmo, com as calças ensopadas em sangue, virou-se de costas, ficando mais protegido, e o enfermeiro atendeu aos gemidos. Coisa grave, uma bala arrombou o escroto e os tomates ficaram desfeitos! Já em fase de acalmia, o capitão aproximou-se e, desagradado pelo poder de fogo do inimigo, murmurou:
- Há nove ou dez meses atrás, estes sacanas atiravam-se contra as balas e morriam às centenas; não encontrámos nem uma automática nos despojos dos mortos! Nos ataques que fizeram, durante dias a fio, contra a Damba, Quitexe, 31 de de Janeiro, Bungo e outras povoações, foram recebidos a fogo duro e morreram aos magotes. Agora é isto... estão bem abastecidos! Virou os olhos para o tenente Aleixo, que entendeu a mensagem.

- Vamos acabar com eles... e é para já. – exclamou o tenente, de semblante tenso.
Fez um sinal bem pronunciado ao sargento Ferraz para mandar contornar a pequena elevação de terreno e tentar apanhar os terroristas por trás... Enquanto a secção do Saldanha tomava uma boa posição de fogo e corria com os bandidos que restavam; e os gajos perderam a força e a graça das novas armas, dando uns tiros espaçados e à distância.
Mais de sessenta homens habituados a bater trilhos e picadas no meio das densas matas dos Dembos, Sacandica, Quimbele, serra de Mucaba e Inga, ficaram admirados com as novidades que os terroristas da UPA apresentaram. Ao contrário do que pretendem insinuar os chefes dos gabinetes do ar condicionado, que vão perdendo o aprumo, a guerra existia e com melhores meios para o inimigo! Sinal de que estava para durar...
O pelotão do tenente Aleixo ficou a proteger o pessoal na prestação de socorros aos feridos. O caso mais complicado era o do Carmo; mas o enfermeiro conseguiu estancar a hemorragia, injectando coagulantes. Foi bem atado com ligaduras a contornar a gaita... que ficou com um volume descomunal! O facto serviu para alguns comentários irónicos, uns mais pessimistas e outros menos. A malta sempre foi propensa a levar as coisas pela positiva, onde se destacavam os reguilas das bandas do Tejo a analisar a situação.
- Eh pá, como é que o Carmo se vai safar com a gaja que deixou lá na terra? – indagou o Cacela, com toda a seriedade.
- Lá terá de se mandar fora, ou arrisca-se ao tormento da cornadura sem conta e medida. – sentenciou o Baleia.
O Sousa não gostou do que acabava de ouvir, recordando as palavras do enfermeiro Pena, que enrolou as ligaduras à volta dos tomates do rapaz, deu o seu palpite:
- Se o Pena deixou a pichota do Carmo fora das ligaduras é porque a coisa ainda funciona; o que é bom para a saúde mental do moço. A malta deve animá-lo; se é grande a dor do ferimento, quanto mais não será o desgosto de saber que lhe romperam o saco dos colhões – um autêntico desastre!
O pelotão do alferes Oliveira contornou o morro, à procura de indícios dos terroristas. A mais de duzentos metros da encosta, descobriram um esconderijo com água e alimentos guardados. Fizeram de conta... seguindo morro acima, até à segunda surpresa do dia: uma gruta com pouco mais de um metro de altura na entrada... donde saiam sons sibilantes de palavras. O sargento Pereira fez sinal de silêncio e recuou. Dispôs o pessoal de um só lado da gruta, prontos a disparar contra qualquer bandido. Os homens das outras secções afastaram-se do campo de tiro e tomaram a posição deitados. O alferes puxou a cavilha à granada que atirou para dentro da gruta... seguiu-se uma explosão abafada e uma nuvem de fumo espalhou-se morro acima. Poucos minutos após, cinco negros vestidos de caqui saíram disparados como um vendaval. As balas de raiva soltaram-se das armas e dizimaram os bandidos que tombaram morro abaixo. Com os olhos vidrados, a lacrimejar, ali ficaram estendidos à mercê das hienas...
As tentativas para entrar na gruta saíram frustradas, porque o fumo não permitia ver os contornos do esconderijo. Antes de ser armadilhada a entrada da gruta, o sargento Ferraz atirou mais uma granada bem para o fundo, na tentativa de destruir quaisquer armas que os bandidos tivessem deixado!
-------------------------oooxooo-------------------------
MISSÕES – Damba, Lucunga, Bembe
Os pára-quedistas caminhavam em campo aberto, ainda longe do objectivo. Os homens da frente seguiam de olhos fitados nos trilhos remexidos, desconfiando da montagem de armadilhas ou de minas escondidas. De repente... pararam! Ouviam-se vozes vindas da mata cerrada. Toda a gente se lançou ao chão e procurou abrigar-se. O sargento Assis mandou os dois homens da frente para verem mais de perto o que estava a acontecer. Subitamente, o sargento deu um sinal para todos saírem do trilho! Mesmo no sítio onde se atirou ao chão, sentiu um toque metálico ameaçador e um arrepio desceu-lhe pelas costas... quase lhe paralisou a respiração. Olhou para o cotovelo esquerdo... e, mesmo ali junto ao seu corpo, viu o prato de compressão da mina enterrada. Largou a armalite, respirou fundo e relaxou. Sem mexer o braço esquerdo, com a mão direita, foi retirando a terra em redor até ver o espaço de folga da mola de pressão da espoleta... que travou já nos limites das suas capacidades de movimento. O sargento Assis parecia um miúdo a segurar o brinquedo que jamais poderia partir... Ainda com o suor a escorrer pelo rosto, já com o perigoso objecto bem seguro nas mãos, num gesto de supremo alívio, balbucinou:
- Eh malta. Esta brincadeira só me cortou a respiração por uns instantes... agora está segura.
O capitão, que assistiu às manobras arriscadas do Assis, aproximou-se e, parecendo não dar importância ao calafrio do sargento, ordenou ao pessoal da frente:
- Vamos dar mais atenção aos trilhos que pisamos, sem perder de vista os morros, porque os gajos devem ter colocado a mina a contar com a nossa passagem e esperavam outros resultados.
O Abreu foi atrás procurar um carregador da arma que caiu com a atrapalhação, quando saltou fora do trilho. Ficou bastante chateado com os risos do Baleia que não respeitou a confusão do momento. E como conhece o Baleia de ginjeira, dos tempos dos bugios de Alcântara, logo replicou:
- Não me enganas com esse riso fininho. Se tivesses estado com um pé mesmo ao lado da mina, até te tinhas enfiado dentro do capacete e ficarias preto!
O sargento Félix entrou na mata, auscultou os ruídos, observou... e nada viu. Transmitiu ao comandante:
- Meu capitão, o trilho tem continuidade na direcção do morro maior. Os gajos podem estar lá.
- Oh pá, a secção do Seara já está no morro. Se não formos detectados, só temos que continuar vigilantes e seguir no rumo do objectivo. – observou o capitão.
Toda a gente avançou a corta-mato, por entre o capim, com passagem ao lado do morro e afastados da orla da mata. Foram duas horas a romper os camuflados, roçando os arbustos e as folhas ásperas, até à nova paragem. Quando o sol se escondia para os montes de Bessa Monteiro e começava a afundar-se no mar de Ambrizete, os homens do capim ficaram desolados por o verem partir sem uma despedida condigna. Durante o dia sempre apareceu envergonhado, por detrás dos novelos de nuvens de arminho. O capitão subiu a uma pequena elevação do terreno e observou os obstáculos, ordenando:
- Vamos ficar por aqui até de manhã. Ficam dois pelotões emboscados neste cruzamento de trilhos que, tão batidos que estão, devem conduzir a algum acampamento dentro da mata. O pelotão do Oliveira protege o lado direito e o pelotão do Aleixo protege o lado esquerdo. O pelotão do Simão vai instalar-se no morro, subindo pelo lado direito de modo a manter sempre a ligação. Durante o percurso para o morro, façam bastante barulho para despistar os bandoleiros.
Cada secção tomou a posição mais adequada, dentro do esquema das emboscadas aos turras. Estava o pessoal em movimento quando uma forte explosão fez estremecer o terreno... ali mesmo na mata próxima das posições do alferes Oliveira. Ninguém saiu do lugar! Gritos e vozes de gente amedrontada ecoaram no meio do fumo que se elevava na crista das árvores, aparentando grande confusão em coisa séria.
O alferes Simão certificou-se de que o pelotão estava bem posicionado e olhou os seus homens confiado no sucesso do ataque. O cabo Morgado enfiou uma granada na bazooka e preparou um eventual disparo. Mas já estavam três bandidos a subir o trilho no enfiamento da zona de morte, ao encontro dos homens de armas aperradas e prontas a disparar. O Zagalo, já engatilhado, aguçou a pontaria com precisão. Dois tiros não foram suficientes para deitar por terra o bandido da frente, e o Vilela ficou estarrecido ao vê-lo fugir em ziguezague, com o corpo furado. Os outros dois esconderam-se atrás do tronco grosso de uma árvore, respondendo com rajadas. O Morgado aproveitou para disparar a bazooka... a pressão no gatilho... um rasto de fogo... e uma tremenda explosão no meio das árvores onde estavam os terroristas. Os corpos ficaram desfeitos e as armas... também!
O capitão encorajou a malta a fazer uma batida à mata, ficando um grupo emboscado no trilho que seguia para norte, no rumo da Damba. O sol já se foi e a noite ameaçava a continuidade da busca. Mais de trezentos metros abaixo, próximo dum riacho, havia pedaços de corpos desfeitos e espalhados nas paredes de adobe das primeiras palhotas, tal foi o efeito da explosão que abriu uma cratera que dava para enterrar os desgraçados.
- Que azar do caraças! – berrou o Baleia, lá do fundo das palhotas.
O sargento Ferreira, que estava mais perto, viu o soldado com a bota presa numa armadilha para caça. Ajudou-o a safar-se da difícil situação, e logo chamou o enfermeiro Pena. Se não fosse o couro da bota, o rapaz teria sofrido mais do que o simples raspão na perna direita. Depois de desinfectada a ferida e colocada uma compressa com ligaduras, o capitão inteirou-se da situação e não viu razão para pedir evacuação que, só poderia ser no dia seguinte, atendendo à falta de claridade para o voo do helicóptero. E qualquer movimento de aeronaves na zona poderia denunciar a posição da tropa emboscada. Mesmo assim, com a noite a apertar, foi necessário procurar um lugar mais seguro para pernoitar. Um tufo de árvores no meio do descampado de capim foi o sítio escolhido.

Durante a noite não se ouviram as hienas a chorar os mortos e, na alvorada, a ausência do chilreio dos pássaros davam um sinal de vários perigos... Assim, a manhã acordou silenciosa com o sol a prometer estorricar os corpos. O capitão juntou os comandantes de pelotão, para fazer o ponto da situação; observando a carta topográfica e as fotografias aéreas, comentou:
- Apesar dos recontros de ontem, conseguimos bater uma área bastante maior do que estava planeado. Hoje vamos bater aquele morro a norte e a mata em direcção ao rio Lucunga.
O Baleia queixava-se do ferimento na perna. Mas o Abreu não lhe deu tréguas. Tinha presente a chacota do dia anterior, por causa dos cornudos.
- Queres boleia, é. Aqui não há pista para o zingarelho aterrar... aguenta firme.
O enfermeiro Pena foi junto do ferido e deu-lhe dois comprimidos, um analgésico e um antibiótico. O Baleia fez uma careta, bebeu um gole de água do cantil, engoliu os comprimidos e sacudiu a cabeça!
Uma rajada de metralhadora apanhou o pessoal de surpresa. Cada um se aninhou como pode junto das pequenas árvores, enquanto as rajadas esporádicas denotavam a fúria dos bandidos e a poupança de munições. Mesmo à distância, os tipos não deixavam de marcar presença. O capitão, em tom pesaroso, comentou:
- Os cabrões estão em permanente progresso! Já sabem colocar minas nas picadas, andam em pequenos grupos, têm boas armas automáticas e, ainda, têm o descaramento de nos chatear nas horas de descanso. Isto está a ficar mais preto!
Com uma observação mais cuidada, constatou que as rajadas vinham do morro e ordenou:
- Temos que os arrumar dali hoje. Vamos agir por secções, a pequenas distâncias e sempre à vista, para cercar-mos o morro. O pelotão do Oliveira avança por lanços até chegar ao cimo. Cuidado com os fogos cruzados...
Foram três longas horas de arrepiar. Entre trilhos armadilhados e rajadas de metralhadora, tudo foi vencido até ao aniquilamento do pequeno grupo de terroristas. Às duas da tarde as tensões abrandaram e cada um comeu o seu farnel... sem deixar de olhar no horizonte... a povoação do Bembe ainda longe, muito longe. E seguiram-se mais quatro horas de esforçada marcha em corta-mato, para contornar mais um morro, com o devido respeito!

Ao cair da noite, a escolha do sítio para o merecido descanso trouxe à memória as surpresas do dia anterior. Os movimentos silenciosos tentaram iludir a vigilância de qualquer inimigo que andasse por ali. Pois, ninguém estava interessado em duas noites mal passadas. Presumia-se que a ligação à fronteira pelos trilhos na direcção de Madimba-Canda estariam nas proximidades. E para chegar ao tufo de árvores mais apropriado para uma noite tranquila faltariam apenas trezentos metros de capim que as pernas curvariam lentamente. Era um refúgio mais amplo e afastado de qualquer obstáculo que pudesse servir de abrigo aos bandoleiros. A noite foi calma e até o pequeno-almoço foi animado... com as chalaças irónicas do Abreu.
- Oh Fonseca, vê se te cuidas lá com a gaita, porque foi uma sorte trazer a Terramicina; podias ter de ir para o Negage com a pichota a pingar!
O capitão estava atento às conversas; olhou para a carta topográfica e deu uma explicação:
- Hoje vamos suar as estopinhas para bater aquele vale – apontou na direcção do rio Lucunga. Os nossos amigos da UPA estão virados para nos pregar arrepios, mas vamos caminhar fora dos trilhos, sempre que possível.
Enquanto o capitão falava, já os homens do capim punham as mochilas às costas e verificavam as armas, prontos para continuar mais dois dias... Mas o capitão continuou a falar:
- Terminada a missão, regressaremos a Luanda logo a seguir. – pôs a boina na cabeça, virou-se para o Fonseca e fez uma grave observação:
- Cuidado com as gaitas mais sensíveis ao roçar do capim, pois não quero ninguém a mijar sangue...
O enfermeiro Pena aproveitou a deixa para lembrar alguns recursos de defesa:
- Podem apalpar a gajas mas com mais suavidade, evitando o deslize para a toca das doenças venéreas, que nestes climas quentes proliferam rapidamente. No posto de socorros da companhia há pomadas e líquidos para desinfectar e proteger. Nas povoações onde há meninas, evitem o contacto sexual; podem ficar com a gaita esfarrapada.
A picada que parte do morro para a mata sobranceira ao rio entronca num labirinto de trilhos, indiciando recentes movimentos em direcção ao rio. O capitão, voltado para o rio, murmurou:
- Teremos que disputar estes trilhos com os gajos da UPA; não temos outro caminho!

Uns minutos para encher os cantis, quando o sol do meio-dia estendia os raios inclementes por cima dos homens de camuflados ensopados numa crosta de dezasseis dias, pareciam uma infinidade para quem se despedia do rio Lucunga, com uma forte vontade de regressar ao reboliço de Luanda.
- Muito obrigado meu capitão, por lembrar que ninguém tem pichota de aço! – resmungou o Fonseca, já sentado em cima do saco, enquanto não chegavam as viaturas para o transporte até ao aeródromo do Toto.
O Nordatlas já rodava na pista, depois duma aterragem perfeita, quando o capitão Veríssimo sorriu, abanando a cabeça de satisfação. Desta vez regressavam todos... mercê da experiência dum veterano... com alguns meses de missões em diversas zonas de conflitos, especialmente na Damba e em 31 de Janeiro; também a sua natural sagacidade ajudou a enganar os sacanas da UPA. Mal as portas se abriram, embarcou o pelotão do tenente Aleixo – na tropa a antiguidade conta!
Antes da noite, já todos se acotovelavam para a barrela nos balneários do Hangar Velho, antes do bulício nocturno de Luanda, onde se disputam as mulheres da noite e a cerveja não tem medidas. Dezoito dias de ausência dos odores das mulheres, das meninas finas e, mesmo, das prostitutas, é muito tempo; para além da xingaria dos bares, os cheiros abomináveis dos esgotos também fazem parte da cidade!
-------------------------oooxooo-------------------------
MUCABA - Missão Imprevista
Depois dos dias terríveis do cerco à Igreja de Mucaba, os poucos habitantes nunca mais se sentiram seguros na povoação acantonada nas fraldas da serra. Alguns movimentos estranhos nas proximidades, eram motivo para alarme. E sempre que passavam tropas especiais, as missões eram determinadas conforme as necessidades para garantir mais segurança à povoação e a quem se deslocasse nas picadas da zona. O pequeno grupo de pára-quedistas seguia do Lucunga para a base do Negage, onde apanharia avião com destino a Luanda, quando um apelo do Posto de Mucaba os fez desviar de rumo.
A conversa com o chefe de posto foi curta e certeira na análise dos indícios de reactivação dos movimentos da UPA na serra. O ataque à mata do Feitiço, encravada na encosta da Serra de Mucaba, foi imprevista e perigosa. Além do local ser de difícil acesso, os trilhos sinuosos e a neblina densa que cobria a encosta dificultaram a orientação e a visibilidade, complicando ainda mais a aproximação e progressão até ao esconderijo.
Logo à entrada das primeiras palhotas, que serviam de abrigo aos bandoleiros da UPA, os turras atacaram em grupo e, de catanas ao alto entoando cânticos, arremeteram contra o fogo das Armalites dos pára-quedistas. De nada lhes valeu a fúria da acção, porque foram caindo trespassados pelas balas, enquanto os componentes de outro grupo que vinha mais atrás “deram às de vila Diogo” serra abaixo e não mais foram vistos.

Para atingir o local a pé, o pessoal suou as estopinhas e rompeu as calças dos camuflados, tal era a aridez da vegetação! Valeu a pena, porque todo o esconderijo e celeiros foram desmantelados e queimados. Tratava-se de um esconderijo avançado de apoio a toda a região dos Dembos, em local privilegiado na camuflagem. Mas o fogo desenvolveu-se com fraca intensidade e, para piorar as coisas, do alto da serra de Mucaba, apareceu uma borrasca assustadora onde o clarão de relâmpago sobre relâmpago dava a sensação de um monstruoso jogo psicadélico. Não tardou muito para as nuvens negras despejarem umas baldadas de água sobre os solitários pára-quedistas. Os corpos encharcados arrastavam-se muito a custo; os mais aziagos diziam, com alguma ironia:
- Cabrões do caralho, parece que está tudo a favor deles... até a chuva!
-------------------------oooxooo-------------------------
BICHOS DO CAPIM
Observando as fotografias aéreas, o comandante informa que o objectivo estará do outro lado do morro, a mais de quatro quilómetros. O silêncio é absoluto, de vez em quando cortado pelo agudo canto das aves. A entrada na densa floresta é difícil, tal é o enleio naquele emaranhado de lianas. Com os cantis cheios de água, a companhia avança e ultrapassa este obstáculo, logo encontra vegetação menos densa que permite andar mais à vontade e contornar o morro pelo lado esquerdo, seguindo uma estreita picada. O tempo passa e o sol vai desaparecendo no horizonte, e ainda não se encontrou um local de abrigo até à madrugada. Com a lua a espreitar, o pessoal desloca-se silenciosamente em fila indiana até às proximidades do acampamento inimigo – mais ou menos seiscentos metros. Cada secção prepara o seu esquema de vigilância nocturna, sendo armadilhadas as picadas em redor. Dali já se avistam as cubatas, onde há algum movimento e pouco barulho. Ao amanhecer, é o momento propício para o assalto; pois, há que contar com a claridade da lua em quarto minguante.
Aconchegados no meio daquela frondosa selva africana, junto ao riacho que, uns quinhentos metros abaixo, passa ao lado do acampamento inimigo, apenas os vultos das árvores podem assustar... Mas tudo está imóvel e silencioso, para se dormir algumas horas. Durante a noite, ouvem-se pequenos barulhos, que as águas do riacho vão atenuando. Antes do mata-bicho, cada secção desmonta as armadilhas que montou nas picadas da respectiva zona e toma as posições de assalto: dois pelotões pelos flancos, um no golpe de mão e uma secção de prevenção. Em deslocação para o ataque, a coluna segue pelas margens do riacho, avançando com muito cuidado fazendo uso dos ensinamentos colhidos nas “pistas de silêncio” de Tancos; o Ventura tropeça numa liana e cai dentro da água, molhando o equipamento. Levanta-se com a ajuda do Quiquiri, e todos sentem um arrepio de denúncia. Estava em perigo tão importante missão. Voltando a normalidade da aproximação, os pontos estratégicos foram sendo tomados. O dia prometia muito calor, as lufadas de ar quente vindas do morro, misturadas com a humidade do vale, já faziam transpirar; mais abaixo, há a confluência deste riacho com o rio Mbridge!
Como um relâmpago, o pessoal entra na sanzala, o primeiro sentinela é abatido e dois outros tentam fugir e morrem de armas na mão, enquanto alguns conseguem escapar-se pelo mato. O Santos atira-se a um que sai da palhota, ainda ensonado, e domina-o; logo ao lado, a secção do Ferreira prende mais três mal refeitos do sono. Revistam-se todas as palhotas cuidadosamente e recolhe-se o pouco material existente – quatro canhangulos e cinco granadas, algumas catanas. Os prisioneiros são atados com cordas e amarrados uns aos outros, com as mãos atrás das costas, para evitar fugas.
Com a situação controlada, é o momento do mata-bicho: uma lata de sardinha, umas bolachas da manutenção militar e uma lata de fruta, tudo regado com a fresca água do rio, são uma delícia! Alguns, mais ousados, colhem as mangas amarelinhas; outros, incendeiam as palhotas, como forma de dissuasão de meios; e quando estava o pessoal a reorganizar-se para se dirigir para Sul, na direcção de Bessa Monteiro, começam a chover roquetes sobre as árvores que servem de abrigo. Imprevisivelmente, os fugitivos tomaram posição no morro, obrigando a uma reacção de defesa e ataque com rajadas e umas granadas de bazooka, que produziram algum efeito, silenciando o inimigo. O comandante da companhia vai junto do telegrafista e pede apoio a um avião PV2 que andava perto. Poucos minutos passados, já duas bombas caem no morro, deixando estilhaços por mais de duzentos metros. Os prisioneiros agitam-se com o fogo das bombas, mas logo são empurrados com os canos das armalites.
Caminhar pela picada é uma solução muito arriscada, com os naturais receios de emboscadas ou armadilhas; o caminho é difícil, em zona de capim com mais de um metro de altura, e a companhia segue em corta-mato. Da planície avistam-se tufos de floresta e o vale que, lá longe, leva a Bessa Monteiro. Na orla dos tufos densos descobrem-se três palhotas. O terceiro pelotão faz o avanço de reconhecimento, sem encontrar nada de novo – estão desabitadas! A marcha continua mais uns quilómetros para Norte, na direcção da povoação do Bembe. Chegados à confluência de dois pequenos rios, o comandante da companhia avisa:
– Paramos duas horas para almoçar e descansar; depois vamos continuar a bater o vale até encontrarmos um riacho que nos há-de guiar até uma estrada.
Sentados, olhando o rio, abrem as mochilas e sai o almoço – umas conservas e bolachas. O Alfredo adormece profundamente, agarrado à Armalite. Não é por muito tempo, o Morgado dá-lhe um empurrão e ele acorda muito assustado:
– Onde é o ataque? A minha arma, onde está a minha arma?
E logo o Algarvio ironiza:
– Tens os joelhos a apertá-la, seu nabo!
O capitão mandou sossegar a malta. Virou-se para o comandante do primeiro pelotão e disse:
– Alferes Oliveira, vamos tentar interrogar os presos. Podem dizer alguma coisa que nos ajude no resto da missão.
Aproximando-se dos presos à guarda da secção do Ferreira, sentou-se de frente para o que parecia ter um aspecto tímido e perguntou:
– Sabes onde fica a tua terra?
O matumbo olhou em redor, deitou os olhos ao chão e murmurou umas palavras que ninguém percebeu. O capitão puxa do papel amarrotado que traz no camuflado e pronuncia algumas palavras da língua quimbundo:
– Eie uejie kuzuela putu?
O negro, levantando os olhos, pronunciou mais palavras imperceptíveis:
– Kana, ngana.
Sem muita convicção das respostas, o capitão dá ordens para avançar em direcção ao vale. Mais um riacho aparece, e tem de ser atravessado por cima de troncos de velhas árvores. Antes de continuar, o pessoal dá uma vista de olhos para ver se existem armadilhas. Vencido o perigoso obstáculo, é feito o reconhecimento da zona. Com o sol a escapulir-se por entre as frondosas árvores, apressa-se o andamento para encontrar local seguro para a pernoita. Como quem abre as portas da mata e sai para a planura da savana, avista-se uma pequena elevação no terreno. A penumbra da noite corre na direcção do oceano longínquo, e o capitão manda o pelotão do alferes Nunes dar uma vista de olhos ao morro onde pretende acantonar o pessoal. É uma zona de capim alto com alguns arbustos, de onde o alferes Nunes faz sinal para avançar. Uma fila com mais de setenta pára-quedistas estende-se lentamente pela colina acima. Todos se instalam por grupos e logo tratam de comer a última ração. Antes do descanso do corpo, ainda deu para desfrutar a vista espectacular sobre o vale do rio.

A noite fria deu lugar a uma manhã de neblina estendida como um lençol sobre o vale. A primeira acção oficial foi mais uma tentativa de interrogar os prisioneiros. Às perguntas em português continuaram mudos e sem vontade de colaborar. Mais de uma hora de interrogatório e nada disseram que se percebesse... Gemeram, quando o Alfredo lhes atestou com o cinturão, mas continuaram calados.
A vista tem um largo horizonte para procurar pontos de referência. O sargento Ferreira descobre uma povoação longínqua e chama o capitão:
– Meu capitão, parece que vemos o Toto! Ora veja lá no mapa.
O capitão abre a carta e observa:
– Por ali deve ser o Bembe. O Toto é mais longe e para Sul, ainda temos muito que andar! Aproveitem para descansar agora.
Seguindo o azimute apontado ao aeródromo do Toto, galgando o capim até uma picada segura, embora sinuosa, as caras parecem mais sorridentes. De caminho, descobre-se um pequeno acampamento com três palhotas já muito usadas, sem qualquer habitante. Aí são encontrados documentos escondidos por cima duma das portas. O capitão analisa o conteúdo e constata que houve reuniões de operacionais da UPA/FNLA com alguns chefes: Manuel Domingos, Augusto Mangana, Tussamba Kua Ferrás, Pedro Naingui e outros.
As palhotas ficaram a arder... e a companhia continuou no rumo do aeródromo do Toto. No meio de um descampado de capim curto, avista-se um helicóptero a sobrevoar a zona. O operador do rádio entrou em contacto com o piloto, pedindo informações sobre direcção e distância até ao Toto:
– Estão no bom caminho; mais uns quinze quilómetros e... Atenção com as minas ou emboscadas, porque ainda ontem houve algumas baixas.
O zingarelho desapareceu nos céus do Norte, perante o desânimo e consternação do pessoal, que esperava receber algum apoio logístico, especialmente água para os mais sequiosos. Todos se arrastam penosamente, tendo em vista chegar antes da noite, para recuperar forças e ânimo para as novas missões.
-------------------------oooxooo----------------------------
De Buela ao Luvo – TRILHOS SEM FRONTEIRA
O que temos? Um horizonte de incertezas. O capim não tem fronteiras e, a qualquer momento, as tropas poderiam pisar território do Congo. Ao fim da tarde, já se avistavam os morros convergindo na direcção do Luvo, muito próximos do objectivo situado no vale que se abre para o Zaire. Antes que a noite desça o manto da escuridão sobre um punhado de homens descarregado nas longínquas terras do Norte, o comandante dá as instruções para o assalto da próxima madrugada, não esquecendo de lembrar que, com o inimigo nas proximidades, é necessário redobrar a vigilância onde o silêncio é fundamental para o sucesso.
“Anda este estafermo a dar lustro às árvores e não tem jeito para ajudar a armar a tenda”, barafustou o Baleia. Ao lusco-fusco já todo o mundo se aconchega no silêncio da manta... até que o sentinela o chama para fazer o turno... que durou até de manhã! Tão bela manhã, que lhe deu gozo assistir ao acordar dos passarinhos que a guerra não conseguiu escorraçar.
Saindo da mata, vislumbra-se o descampado, um paraíso no infinito do horizonte, para Bessa Monteiro. Aquele ar carrancudo do Alfredo, inconformado com a balbúrdia em que o Serôdio deixou a tenda... “Que porra, logo me havia de calhar uma parelha destas”, resmungou.
O objectivo fica lá bem no meio da mata. Para lá chegar, há apenas um trilho com passagem entre a vegetação densa e um morro. Os homens da frente medem os perigos de um ataque, porque o escarpado do morro pode servir os intentos dos bandidos. Nunca se sabe para quem aponta o cano sujo da metralhadora que o turra acaricia no cimo da encosta. Olhamos o capim ondulado, que se estende encosta acima, e ficamos inquietos. Há evidentes sinais da presença de bandoleiros que podem marcar os nossos destinos para sempre. Caminhamos lentamente, de corpos tensos e arma aperrada, pronta a vomitar fogo! A subida até ao cimo do morro coloca-nos em situação de desvantagem perante um inimigo que possa estar lá acantonado. Ainda sentimos o frio do orvalho do cacimbo da madrugada, e estamos temerosos perante o perigo de ficarmos com o corpo esburacado pelas balas. Já não bastam as noites a dormir na dureza do chão e este respirar as poeiras desmaiadas que os rodados das viaturas massacram, para chegar perto do objectivo e encontrar as naturais dificuldades do terreno para o atacar sem corrermos graves perigos.
Do alto daquele escarpado avistam-se as palhotas no meio do matagal. É esse o objectivo desta missão: assaltar o esconderijo dos inimigos que têm flagelado as tropas que passam em coluna nos caminhos de S. Salvador e do Lufico. Dos três soldados feridos no ataque da passada semana, dois morreram com hemorragias e por falta de condições de evacuação. Já não regressam ao cais de embarque. Os seus últimos gritos foram serenamente sufocados pelo choro dos companheiros! Será que a Pátria os merece?
Ao lembrar-me das “pasquinadas” entre o Sr. Augusto Lima, do «Diário de Luanda», e o Sr. Lara, do «Notícia!», acerca da forma de defenderem os seus bens em Angola, com tantos disparates contidos nos seus anseios de curto alcance, dava para rir à gargalhada; mas o momento obriga-nos a virar a atenção para o esconderijo dos bandidos junto à fronteira do Congo. Esses senhores estão tão bem instalados no ar condicionado de Luanda que nem sentem o cheiro da guerra.
Já embrenhados na densidade do capim, os homens, que alguns luandenses tratam como bestas, tentam abrir caminho à catanada e guiar-se nos trilhos completamente obstruídos. Desde o morro sobranceiro ao acampamento inimigo que se observa o movimento dos terroristas entre as palhotas; isto obriga a redobrados cuidados de aproximação. Os pára-quedistas, de mochila às costas, uma mão segurando a arma e outra a catana, prosseguem na dura batalha com a natureza. Mas chegam lá, com cinco horas de atraso em relação ao plano da missão urdida pelos serviços de informação. Tal dureza provou que não há capim que resista aos pára-quedistas.
Estes sessenta pára-quedistas, habituados às difíceis operações nas matas da Canda, Quipedro, Sanga, Lucunga, Songo, 31 de Janeiro, Onzo, Sacandica a Quimbele, dos morros de Quicabo, Pedra Verde e tantas outras zonas calcorreadas a tempo inteiro, estão dispostos a aniquilar mais este refúgio dos bandidos da UPA. Depois de estudar bem o terreno, o capitão ordena a disposição das secções para o ataque:
– A secção do Ribeiro Pedro entra pelo flanco esquerdo e faz de tampão às fugas; a secção do Seara protege o lado direito.
A mais de duzentos metros das palhotas, o pessoal começa a movimentar-se com precaução.

– O pelotão do Simão vai fazer o assalto, distribuindo as três secções pelas palhotas da esquerda, direita e centro. Quem oferecer resistência ou tentar fugir deve ser abatido a tiro, nada de granadas. – avisa o capitão – A secção do Matos fica deste lado para manter a segurança da retaguarda – conclui o chefe.
Os olhos já vidrados eram o espelho do esforço que o Peseiro fazia na contenção do dedo no gatilho... e o estrondo das explosões fez assobiar um som estridente que inflamou os tímpanos! Mal começa o assalto, em poucos segundos está instalado o caos. As mulheres saem das palhotas com crianças a gritar; alguns terroristas fogem na direcção da mata, mas são atingidos pelas balas descarregadas com precisão; ainda cambaleando, caem mais à frente, feridos de morte. Os soldados agarram as mulheres com as crianças, evitando que sejam apanhadas no fogacho que se espalhou pela mata.
– Alto ao fogo! – ordena o capitão, com voz imperativa e forte.
Cinco minutos de reboliço foram o bastante para dizimar cinco bandidos, estendidos no terreiro das palhotas, quase todos sem conserto, para os quais não há maneira de arranjar socorro. Quatro mulheres e duas crianças acompanham os pára-quedistas até à povoação do Luvo, percorrendo uns longos vinte quilómetros, em trilhos difíceis. As armas dos bandidos, duas armas finas e três canhangulos, foram transportadas pelas mulheres. Do espólio encontrado numa das palhotas fazem parte fotografias e documentos comprovativos de reuniões dos chefes da UPA com representantes missionários evangélicos pertencentes a igrejas americanas e belgas.
De cima do morro, o espectáculo é desolador: as palhotas em chamas ardem e incendeiam o capim em redor, até à mata densa. Assim se reduzem os meios de subsistência dos bandidos que acreditam nos carrascos da União das Populações de Angola.
Comentários e sugestões para: jota_coelho@netcabo.pt
Ver informações no Blog: micaias.blogs.sapo.pt
Ver vídeos no blog: ultramarlembrar.blogspot.com